15 outubro, 2006

DEBATE ELEITORAL E AS PERSPECTIVAS PARA OS SOCIALISTAS

Roberto Leher

A arrogância das certezas e dos juízos definitivos não é compatível com o espírito científico. Há mais de meio milênio William Shakespeare com seu desconcertante senso crítico alertava que “Há mais coisas entre o céu e a terra (...) do que sonha a nossa vã filosofia" (Ato I - Cena V: Hamlet). O debate sobre o voto no segundo turno, se em Lula da Silva ou nulo (este texto assume como obviamente fora de questão o voto em Alckmin), salvo honrosas exceções, parece ter enredado por um caminho irracionalista – a certeza dogmática do posicionamento correto: quem não vota em Lula da Silva é pequeno burguês e apóia o retrocesso neoliberal - que terá graves implicações políticas para as lutas pela emancipação social.



Após a “surpresa” de que haverá um segundo turno, a rede web está congestionada de tanta mensagem comparando o desempenho de Lula da Silva vis-à-vis ao de Cardoso, obviamente mostrando como os indicadores do representante do PT são superiores aos do PSDB. Em que pese graves erros metodológicos, como os que sustentam que o neoliberalismo de Lula da Silva foi capaz de alterar o ponteiro da desigualdade social no país (dando razão aos adeptos do neoliberalismo de que a macroeconomia neoclássica é capaz de promover a justiça social), tema a que voltarei adiante, surpreende que o “metro” da análise do governo Lula da Silva seja o metro das políticas neoliberais.



Aqui, diferente do problema teórico e metodológico da desigualdade social, a questão é outra: a maior vitória que os dominantes podem ter é justamente quando os de baixo pensam conforme os seus parâmetros. Gramsci nos ensinou com os conceitos de hegemonia e transformismo que uma hegemonia é dominante quando é capaz de incluir em seu sistema de pensamento o ponto de vista inclusive de setores outrora em oposição e, não menos importante, assimilar os quadros políticos mais destacados das forças adversárias ao seu sistema político.

Nessa perspectiva, quando o metro do acerto ou do erro de Lula da Silva é tomado emprestado do neoliberalismo de Cardoso estamos diante de uma derrota intelectual, pois, ao não reivindicarmos outras perspectivas fora do marco neoliberal, estamos reconhecendo que afinal Thatcher tinha razão quando afirmava que “Não Há Alternativa” (TINA, por sua sigla em inglês) ou, tão terrível quanto, que o ideólogo do Departamento de Estado dos EUA, Francis Fukuyama, expressava uma verdade quando asseverava a tese do fim da história.

E pior, causa profunda apreensão o fato de que parte significativa da intelligentsia da esquerda insista em separar o econômico do político e o econômico do social, sob a fórmula: “a política econômica do governo é péssima, mas a política externa e a área social são excelentes ou se não merecedoras de tal adjetivo, ao menos são avanços inquestionáveis etc. Ellen Wood em um extraordinário livro[1] nos mostra que a dominação burguesa por meios “democráticos” tem sido possível justamente devido à disjunção das esferas econômica e política, possibilitando que a democracia econômica tivesse sido suprimida em favor da “democracia” política. É essa concepção que justifica a autonomia do Banco Central frente à soberania popular, por exemplo (situação que ocorreu tanto no governo Cardoso como no de Lula da Silva). Essas análises têm e terão repercussões muito graves, pois, nesse caminho, a esquerda perderá o que restou de patrimônio teórico, anunciando derrotas muito duradouras e de conseqüências imprevisíveis.



Se não adotarmos como metro a agenda (e os parâmetros a ela associados) de Cardoso (e do neoliberalismo em geral), podemos pensar em alguns elementos que poderiam ser definidores de distinções que poderiam justificar o voto em Lula da Silva ou, alternativamente, o voto nulo.

Grande parte das manifestações a favor do voto “útil” reconhece que o governo de Lula foi ruim, mas, independente dessa avaliação, destacados movimentos avaliam que, ainda assim, cabe reivindicar e avalizar, em seus próprios nomes, um novo mandato para Lula da Silva. Buscando incorporar as contribuições sérias ao debate, como a de representantes de movimentos sociais ou de intelectuais de fato comprometidos com o socialismo, podemos destacar alguns pontos que poderiam servir de referência para julgar se o governo de Lula da Silva pode servir de aresta para potencializar as lutas futuras e com isso justificar o voto “útil” em um novo mandato para o governo atual.



Com efeito, conforme o controverso editorial do Brasil de Fato (11.10.2006), parece haver consenso de que “Um balanço dos quatro anos de mandato do presidente Lula deixa um decepcionante saldo para a classe trabalhadora, sobretudo no que diz respeito à economia” (...), contudo, partindo novamente da disjunção acima apontada (entre o econômico e o político e social) o referido Editorial assevera que “Hoje, o inimigo principal é o bloco que se aglutina em torno da candidatura Geraldo Alckmin. É este, portanto, que deve ser derrotado nas atuais eleições. Assim, votar Lula, mesmo sem qualquer ilusão no que diz respeito à sua política econômica, é um dever de todos nós que constituímos a classe trabalhadora e o povo brasileiro”.



Uma síntese dos argumentos a favor do voto em Lula da Silva não poderia deixar de incluir as seguintes questões:



1. O fato de que inimigo principal é o bloco que se aglutina em torno da candidatura Geraldo Alckmin.

2. Embora a sua política econômica seja ruim, o governo promoveu avanços na área social, em particular no programa bolsa família, na educação e na questão agrária.

3. O ponteiro da desigualdade social se moveu pela primeira vez, em benefício dos trabalhadores.

4. A política externa se afastou dos EUA, contribuiu para inviabilizar o ALCA e teve papel decisivo no fortalecimento de um novo pólo de feições terceiro-mundistas.

5. As privatizações foram interrompidas e o Estado está sendo reorganizado.

6. O governo dialogou com os movimentos sociais e com os sindicatos, abandonando a repressão e incentivando a participação social.



Não é propósito deste texto elaborar uma análise pormenorizada desses seis itens. As indicações a seguir apresentadas são preliminares e certamente mereceriam cada uma delas um extenso estudo. A primeira questão, por ser mais abrangente será examinada com mais vagar.

1. Quem são os dominantes e como eles têm se manifestado na eleição. É certo que Alckmin reuniu os dominantes para o seu bloco e Lula da Silva está somente amparado no povo ou em uma burguesia desvinculada do imperialismo?

Afirmar que o inimigo principal é o bloco que se aglutina em torno de Alckmin é asseverar que o bloco que sustenta Lula da Silva é composto por inimigos secundários. Essa afirmação é sumamente grave. Considerando o imperialismo como uma categoria explicativa do capitalismo de hoje, é inaceitável a afirmação de que o capital financeiro, o agronegócio e o setor exportador de commodities são inimigos secundários, menos letais do que os reunidos em torno de Alckmin. Vejamos com mais detalhes a questão.



Não houve nenhuma reversão na tendência de fortalecimento das frações burguesas mais internacionalizadas, ao contrário, no período de Lula da Silva a participação do setor mais internacionalizado conheceu extraordinário fortalecimento. No período Cardoso, para cada R$ 100,00 gerado na economia, R$ 14,50 dependiam da dinâmica externa da economia, no governo Lula da Silva este valor subiu para R$ 47,00, conforme aponta o economista Reinaldo Gonçalves. Esse quadro aponta para um agravamento da condição capitalista dependente.



Não é causal que no momento de maior crise do governo, quando o publicitário da Campanha de 2002 afirmou que o financiamento da campanha foi parcialmente proveniente de recursos de paraísos fiscais localizados fora do país, o que legalmente poderia abrir caminho para o impeachment, os EUA saíram em defesa do governo Lula da Silva. Não apenas declarações de apoio de Condoleezza Rice, mas uma visita emergencial do ex-Secretário do Tesouro dos EUA, John Snow, indicaram que o afastamento de Lula da Silva não teria o apoio da Casa Branca, situação esperada caso Lula da Silva contrariasse Washington, como ocorreu com Hugo Chaves ou com Allende e Jango. Lideranças empresariais de porte como Antônio Ermínio de Moraes, entidades como a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) e os representantes do agronegócio e proeminentes lideranças do PSDB, como o governador de Minas Gerais saíram em defesa do governo. O ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, um dos organizadores dos contatos que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva manteve com investidores em Nova York com representantes de empresas como Citigroup, Ford, Fedex, Shell, Lucent Technologies e Microsoft, sustentou que a crise política não atrapalha o “vigor” da economia brasileira.



De fato, a evidência mais importante de que os senhores do mundo querem Lula da Silva foi a visita emergencial do ex-secretário do Tesouro dos EUA, John Snow, que chegou ao país quando o governo Lula parecia se desfazer, reunindo a Câmara Americana de Comércio, as financeiras e os bancos. Snow fez elogios ao presidente Lula e ao ex-Ministro da fazenda e afirmou que enquanto a estabilidade econômica for mantida, o governo e os investidores não devem se preocupar com as denúncias de corrupção e a crise política que atinge o país. Afirmou, ainda, que o então ministro da Fazenda “reflete o compromisso do país com boas políticas” e “uma boa economia é aquela na qual o capital circula livremente”. Defendeu a retomada da criação da área de livre comércio das Américas (ALCA), citando o acordo dos países da América Central e do Caribe (Cafta) que, segundo ele, daria outro ímpeto as negociações da Alca[2] .

Grandes empresários fizeram tensas reuniões para discutir saídas para blindar a economia. Uma das saídas apontadas seria costurar um acordo político que interrompesse a “onda de denuncismo”.[3] O presidente do Bradesco e da Febraban, Márcio Cypriano, foi na mesma linha: as denúncias de corrupção política não podem parar o Brasil[4].

Os adeptos da tese de um suposto golpe da direita contra Lula da Silva reivindicam a fala do ex-presidente Cardoso que propôs que Lula deveria anunciar que não se candidataria em 2006 e a repugnante virulência da revista Veja, um periódico semanal de direita que representa parte do PSDB e é muito vinculada à frações do capital estrangeiro. Contudo, a tese do impeachment de Lula da Silva e as denúncias contra Meirelles não tiveram o aval do sistema Globo, o maior do país, cuja tevê (TV Globo) é líder inconteste de audiência, bem como de nenhum grande periódico do país, distintamente de Collor de Mello, por exemplo.



As críticas laterais ao governo Lula feitas pelos grandes meios de comunicação se concentraram nas denúncias epidérmicas de corrupção, sempre blindando a área econômica e o próprio Lula da Silva. Certamente, os dominantes sabem que quanto mais frágil e debilitado, mais Lula irá abraçar a causa do grande capital (ver proposta do ex-ministro Palocci de provocar uma drástica queda no que restou das barreiras alfandegárias no país, acima inclusive dos marcos da OMC ou a proposta de déficit nominal zero de Antônio Delfin Neto que sustenta que Lula da Silva a apóia, sem ser desmentido pelo governo).



As críticas do PSDB e do PFL – junto com Veja – ecoam o sentimento de uma parte da burguesia, justo hoje a mais débil (a base do setor do agronegócio e setores do comércio e do setor exportador, justo os setores atingidos pela política macroeconômica de Lula da Silva que manteve juros estratosféricos e, com isso, apreciou o Real, reduzindo a competitividade das exportações e abriu o mercado do país aos produtos chineses quebrando setores internos). Contudo, as frações mais perniciosas seguem com Lula da Silva (como as representadas pela Câmara Americana de Comércio, os bancos, os fundos de pensão, as financeiras e os mega exportadores de commodities e do agronegócio que promovem saqueio ao meio ambiente (minérios etc.) e hiper exploram o trabalho, como o agronegócio ligado ao álcool e parte significativa da soja).



Evidentemente, Lula da Silva não é uma escolha dos dominantes, mas uma contingência que, entretanto, é muito útil ao capital. Caso fosse Cardoso ou um representante do tucanato, a sangria das verbas públicas para o capital rentista, representada por um milhar de famílias, seria objeto de maior contestação, assim como o seriam as contra-reformas da previdência, a lei de falência, as parcerias público-privadas, a concessão de áreas petrolíferas às corporações multinacionais etc.



O governo de Lula da Silva, “o suposto governo social e amigo dos movimentos sociais”, foi sumamente generoso com a banca. A Dívida Líquida do Setor Público (que soma as dívidas externa e interna) subiu de 29,35% para 51,87% do PIB entre 1995 e 2004. Do início de 2003, até julho deste ano, foi repassado para os credores o montante de R$ 493 bilhões de juros da dívida pública (e que, até o fim de 2006, vai ultrapassar os R$ 511 bilhões propiciados pelo 2º Governo FHC).



Para fazer esses repasses para o setor rentista, a área social e os investimentos em infra-estrutura tiveram de ceder grande parte de seus orçamentos, por meio de mecanismos como a manutenção (e, tudo indica que em um possível segundo mandato, a ampliação) da desvinculação de receitas da União que retira 35% dos recursos educacionais (ao retirar 20% da receita de impostos vinculados) e do estabelecimento de metas elevadíssimas de superávit primário. Em grandes números, podemos acompanhar como os superávits fiscais primários cresceram a partir da crise de 1998: de 3,75% do PIB (R$ 165 bilhões durante o 2º Governo FHC) para 4,25%, a meta acertada com o FMI no governo Lula (que, na prática, realizou superávits de 4,3% em 2003, 4,6% em 2004 e 4,8% em 2005, transferindo, como decorrência, R$ 303,6 bilhões aos banqueiros, até julho deste ano, como pagamento de parte dos juros[5]). E essa situação somente tende a piorar, pois o valor que está sendo “economizado” pelo Superávit Primário, a cada ano, não é suficiente para pagar o total dos juros da dívida. Em 2004, por exemplo, o Governo Federal tinha de pagar R$ 79 bilhões em juros da dívida. Como o superávit primário federal foi de R$ 52 bilhões, o esforço fiscal só permitiu pagar 65% do custo da dívida pública. Mantida essa política está claro que tanto Alckmin quanto Lula da Silva vão promover gigantesco ajuste nas contas públicas para elevarem ainda mais o superávit primário.



Ao examinarmos quem são os credores da dívida interna podemos entender porque o capital rentista não pode se opor ao governo Lula da Silva:

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• Banco nacionais e estrangeiros - 49% (títulos indexados a mais alta taxa de juros do mundo)

• Fundos de investimentos - 27%

• Fundos de pensão - 17%

• Empresas não financeiras - 6%

• Outros- 1%



Fonte: Boletim da Auditoria da Dívida n. 15 (outubro de 2006)

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Cabe observar que somente entre dezembro de 2005 e julho de 2006, a dívida interna cresceu de R$ 1,002 trilhão para R$ R$ 1,109 trilhão (11% ou R$ 107 bilhões em apenas 7 meses!). Considerando que os recursos do Estado estão direcionados para manter esse ciclo satânico, é compreensível o apoio do setor financeiro a um novo mandato para Lula da Silva.



A melhor síntese sobre o posicionamento do setor financeiro foi elaborada por Olavo Setúbal, o patriarca do grupo Itaú, fundador do Banco e Presidente do Conselho Administrativo do Itaúsa, holding que controla este banco:



Havia uma grande dúvida se o PT era um partido de esquerda, e o governo Lula acabou sendo um governo extremamente conservador... A visão era que o Lula iria levar o país para uma linha socialista. O sistema financeiro estava tensionado, mas, como ele [Lula] ficou conservador, agora está para ganhar novamente a eleição e o mercado está tranqüilo… Não tem diferença do ponto de vista do modelo econômico. Eu acho que a eleição do Lula ou do Alckmin é igual… Os dois são conservadores. Cada presidente tem suas prioridades, mas dentro do mesmo leque de premissas econômicas. Acho que o Lula vai conservar a premissa de superávit primário, de metas de inflação e tudo o mais. São evoluções que estão consolidadas no Brasil e serão mantidas por qualquer presidente. (Olavo Setúbal, entrevista para o jornal Folha de São Paulo em 13/08/2006).



Diferente do setor financeiro, o agronegócio parece estar dividido entre os dois candidatos com a base a favor do PSDB e os mega-projetos a favor do candidato do PT. Com efeito, o mapa dos votos no primeiro turno nos corredores do agronegócio foi um duro recado ao governo que terá de fazer novas concessões para o setor. Ao longo de todo o seu mandato, Lula da Silva teve como ministro Roberto Rodrigues, a mais expressiva liderança do setor, fez importantes concessões ao setor, como a liberação dos transgênicos, a destituição da direção da EMBRAPA antes favorável majoritariamente à pequena e média agricultura, o re-escalonamento da dívida do setor e a manutenção de elevadas isenções fiscais (Lei Kandir); contudo, a apreciação do Real em virtude da elevada taxa de juros e a concentração dos empréstimos oficiais (com juros subsidiados) em pouco mais de 15 grandes empreendimentos[6] levou a base do setor a ver o governo como um aliado pouco confiável. O próprio Rodrigues preferiu se afastar do ministério. Para reverter essa avaliação, o governo solicitou o governador eleito de Mato Grosso, Blairo Maggi, que intercedesse a favor da campanha de Lula da Silva junto as lideranças do setor. A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, garantiu o financiamento de medidas para o agronegócio que totalizam R$ 4 bilhões para minorar os efeitos do câmbio negativo.



O setor exportador de commodities segue unido em torno do ministério de Furlan e, a despeito das críticas à apreciação do Real e da concorrência chinesa em manufaturas, obteve ganhos importantes como isenções tributárias e mecanismos favoráveis para as transações com a moeda estrangeira quando das exportações (podendo manter 30% da receita de exportações no exterior) e, ao menos o setor mais internacionalizado, tem sinalizado com manifestações de apoio a um novo mandato do petista.



Examinando a questão de modo mais global, é possível sustentar que as frações mais internacionalizadas seguem apoiando Lula da Silva, em especial no setor financeiro e no saqueio à natureza (reprimarização da economia). O instrumento de chantagem dos especuladores, o risco-país, segue baixando mesmo com as pesadas crises de legitimidade do governo Lula da Silva, caindo para níveis significativamente do que os de Cardoso.



Embora revestido de um discurso latino-americano, o engajamento do mandato de Lula da Silva na Iniciativa para a Integração da Infra-Estrutura Regional da América do Sul – a materialização do ALCA no território – segue consistente, como se depreende do projeto de parceira público-privada, dos empréstimos do BNDES para os mega-projetos, das concessões de vastos territórios na Amazônia, a permissão de mega-projetos de produção de celulose nas reservas aqüíferas do país (em especial a Guarani) e das concessões de áreas petrolíferas às corporações multinacionais.



Em suma, existem fortes elementos que corroboram que o imperialismo ainda vê em Lula da Silva um aliado útil, visto que, estando no governo, Lula da Silva é uma garantia de que o transformismo da CUT manterá a central dócil ao capital e às reformas que desmontam os direitos sociais. Tarso Genro, quando presidente do PT, pediu moderação nas críticas mais duras ao PT, lembrando que, sem este partido, as lutas de classes estariam muito mais aguçadas e abertas e que o PT é um fator importante para a própria governabilidade.



A afirmação de que a direita está apenas com Alckmin merece, pois, sérios reparos. Se examinarmos do ponto de vista dos setores dominantes, veremos que as principais frações estão com Lula da Silva. A leitura de que a direita está com Alckmin devido a atuação dos personagens sinistros da direita pode ocultar o movimento real dos setores dominantes, pois, embora seja certo que Bornhausen, Antônio Carlos Magalhães e outros personagens de igual quilate estão sustentando o discurso direitista tucano, não devemos confundir os personagens da direita com os setores dominantes, como Marx nos mostra magistralmente no 18 Brumário. Ademais, no varejo da política, os personagens sinistros tendem mais para Lula da Silva, a exemplo de Antonio Delfim Neto, Maluf, Dornelles, Collor de Mello, Sarney e família, Jader Barbalho, Geddel Vieira, entre outros, mas isso é o varejo.

2. Apesar da política econômica, o governo promoveu avanços na área social

A padrão de acumulação em curso requer a reprimarização do país e a sangria do ciclo satânico da dívida já indicado. Nos últimos anos o país regrediu em termos de questões muito relevantes para a esquerda, como o trabalho infantil[7] . O desemprego segue em padrões elevadíssimos e os novos empregos somente confirmam o padrão de acumulação por “despossessão” a que se refere David Harvey: os empregos
criados nos últimos dois anos são basicamente precários - 64% com rendimentos de até um salário mínimo e nenhum saldo positivo do emprego com rendimento acima de três salários mínimos[8].

Fonte: Reinaldo Gonçalves, 2006

O bolsa-família – um programa resultante da unificação de programas sociais do governo anterior destinado as famílias que possuem renda per capita inferior a R$ 120,00, destina de R$ 15,00 a R$ 91,00 por família, conforme a renda – é um programa de alívio à pobreza (Banco Mundial) que não altera a condição de miséria, servindo para manter os miseráveis vegetativamente vivos, fora do mundo do trabalho regulamentado, compreendendo tão somente repasses de cerca de R$ 8,3 bilhões para atender a 11,118 (milhões) de moradias (julho 06). Por não ser um direito social, presta-se a grossa manipulação política, nos mesmos moldes dos programas criados no México pelo PRI e seguidos pelo governo Fox (PAN): os governos sempre difundem que se perderem a eleição, o benefício será retirado, quase que obrigando os miseráveis a votar no governo, o que explica a reeleição de diversos governos na região. O corte de renda da focalização gera uma situação absurda e profundamente injusta, conforme reconhece o PNUD[9]: se em vez de R$ 120,00 o corte fosse R$ 125,00 o programa teria de atender a mais 1 milhão de famílias. Assim, o que poderia diferenciar esse programa dos de alívio à pobreza do Banco Mundial, a sua universalização como um direito da seguridade social, como preconizou corretamente Francisco de Oliveira, sequer foi esboçado pelo atual governo.

Educação.



Indicadores da CEPAL/ IUS-UNESCO, 2003 confirmam que o Brasil gasta apenas 3,8% do PIB. A UNESCO recomenda nunca menos de 6% e o PNE aprovado no parlamento determina a aplicação de 7% do PIB na educação pública. A exemplo de Cardoso que vetou o aumento das verbas educacionais, também Lula da Silva, a despeito de seu Programa de governo que prometia a retirada do veto, não retirou o veto de Cardoso à ampliação das verbas dos atuais 3,8% do PIB para 7%, conforme aprovado no Plano Nacional de Educação (PNE), o que permitiria bases econômicas para transformar a educação pública brasileira superando, após meio século de barbárie educacional, o apartheid educacional existente no país. A União aloca tão-somente o equivalente a 0,8% do PIB na educação pública.



Na educação básica compete a União suplementar as verbas dos estados e municípios, atualmente por meio do Fundef. A União vem se desobrigando de sua função suplementar em termos de financiamento ao ensino fundamental. A Emenda Constitucional no 14 abriu caminho para o afastamento da União de seu dever de assegurar a educação básica a todos. Somente a não correção do valor do FUNDEF provocou um calote da União de R$ 12,8 bilhões no período 1998-2002 (Cardoso). Lula da Silva logrou o mesmo calote em apenas 3 anos (2003-2005). Embora tenha corrigido o valor do per capita em 10% (2005/2006), o ajuste que não foi suficiente para repor as sucessivas burlas ao valor do per capita. A redução nos gastos é de tal ordem que, com o per capita adotado, apenas 2 estados receberão suplementação da União.



Por isso não pode causar surpresa o aumento do número de jovens fora da escola:

Fonte: Reinaldo Gonçalves, 2006



José Marcelino Rezende Pinto assinala que essa escola contribui para excluir o negro e o pobre. Assim é que, segundo os dados do Saeb (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica) de 2001, os negros que representavam 11,3% dos participantes do exame na 4ª série do Ensino Fundamental caíam para 6,4% na 3ª Série do Ensino Médio, ou seja, ocorre um branqueamento das turmas ao longo da trajetória escolar. A política de cotas do governo Federal simplesmente ignora essa questão, mantendo a lógica da focalização no sistema de ingresso, sem sequer arranhar o problema disjunção entre a educação básica e a superior e, pior, reservando as piores instituições para os negros (Prouni).

Atualmente, 12% da população brasileira é analfabeta e existem 37 milhões de brasileiros acima de 15 anos e com menos de 4 anos de escolaridade. Reunindo todas as experiências de educação de jovens, o número não ultrapassa 2,5 milhões, ou seja, sequer 10% dos cidadãos pouco ou nada escolarizados têm esse direito (precariamente) atendido. Cabe lembrar que somente no ocaso do primeiro mandato Lula da Silva enviou ao parlamento a proposta de um novo fundo (FUNDEB) que se viesse lastreado por recursos federais significativos poderia alterar esse estado de coisas. Mas também aqui é possível afirmar que com o superávit primário acima de 4,5% do PIB nada mudará. Caso a verba prevista para o primeiro ano de vigência do novo Fundo seja realmente de R$ 1,7 bilhão, o per capita teria de ser diminuído.



A principal peça publicitária do governo em matéria educacional, o PROUNI, parte de uma falsidade: a afirmação de que sua motivação foi a regulamentação da “filantropia”. Inicialmente, cabe lembrar que a CF Federal não determina que o Estado assegure isenções fiscais para as Privadas confessionais, filantrópicas e comunitárias, apenas autoriza as referidas isenções. Por que, no lugar de institucionalizar essas isenções que não são compulsórias, o governo simplesmente não as extinguiu (dada a “pilantropia”) já que, para isso, seria necessária apenas uma lei ordinária? Ou, uma hipótese mais conciliadora, por que o governo não se limitou a regulamentar a filantropia de modo mais rigoroso?



Ao contrário do discurso oficial, o PROUNI não regulamenta apenas a contrapartida das instituições às quais a Constituição permitiu (e não determinou) a isenção fiscal, como as 400 instituições ditas filantrópicas, comunitárias e confessionais, mas, também, as 1450 instituições empresariais (com fins lucrativos). O PROUNI incluiu, de contrabando na legislação, algo que a Carta de 1988 não admitiu: o repasse de verbas públicas para as instituições empresariais. A contrapartida às isenções tributárias que podem corresponder a 25% da arrecadação das empresas educacionais inicialmente foi de 25% das vagas na forma de bolsas integrais, quando editou a medida provisória este percentual baixou para 10% e, finalmente, quando a lei foi votada as bolsas integrais despencaram para 4,25%!



O programa de crédito aos estudantes na forma de empréstimos (FIES) vem recebendo forte incremento por meio da alocação crescente de verbas públicas no programa que beneficia as privadas. Recentemente, o governo resolveu subsidiar os juros pagos pelos estudantes em detrimento de ampliar as verbas das instituições públicas. As mudanças incluem juro zero para parte dos alunos beneficiados pelo programa de Financiamento Estudantil (Fies), nas palavras de um dirigente empresarial da educação: “Não vou discutir o momento em que isso foi divulgado, para não ganhar caráter eleitoral. Do ponto de vista da educação, é uma medida boa, que atende a uma reivindicação antiga do segmento”, afirma o presidente do Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior do Estado de São Paulo (Semesp), Hermes Figueiredo, sobre a mudança no Fies.



No caso das universidades federais o padrão de financiamento não foi alterado, o projeto de expansão prevê recursos irrisórios, os concursos seguem abaixo das aposentadorias impulsionadas por Cardoso e Lula da Silva em suas contra-reformas da previdência, tornando as novas universidades e campi uma vaga promessa para o futuro. Caso se confirme o aumento da Desvinculação de Receitas da União de 20% para 30% o aprofundamento da privatização estará perigosamente no horizonte.



Questão agrária



A reforma agrária (associada a uma nova política agrária) não avançou no governo Lula. De início, houve esperança na concretização da aspirada reforma agrária. Foi encomendada uma proposta de Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA). Seu objetivo era desencadear o tão necessário processo de mudança estrutural em favor das populações vulneráveis ao modelo vigente e reverter o processo de concentração fundiária. Conforme análise de dirigentes do MST as expectativas de que Lula da Silva alteraria o padrão de reforma motivaram as lutas pela terra. De fato, o número de famílias acampadas subiu de 60 para 120 mil apenas no primeiro ano de governo Lula da Silva. O plano de reforma agrária, construído sob a coordenação de Plínio de Arruda Sampaio, previa como meta emergencial o assentamento de um milhão de famílias em 4 anos de governo (dos cerca de 5 milhões de famílias sem terra). Lula da Silva arbitrou em apenas 400 mil famílias as metas de seu governo. Apesar das evidências em contrário, o governo afirma que assentou 230 mil famílias! Contudo, examinando a situação no final de 2005, o MST constata que 100 mil famílias ainda estão sob a lona, aguardando o acesso a terra (algumas há seis anos). O geógrafo Bernardo Mançano (UNESP), com base nas informações do Banco de Dados de Luta pela Terra, comprova que nos três anos do governo Lula apenas 25% das famílias assentadas o foram em terras desapropriadas, o restante foi redistribuição de assentamentos em áreas públicas. O latifúndio permaneceu intocado (em virtude de sua aliança com o agronegócio).



3. Desigualdade social

Se o padrão de renda dos trabalhadores sequer recupera os valores da história recente e o desemprego segue em níveis elevadíssimos, como pode ter havido, de fato, redução da desigualdade social?


Fonte: Reinaldo Gonçalves, 2006

Existem vários problemas metodológicos nas pesquisas sobre a redução da desigualdade de renda, referentes: à composição do índice de GINI (que possui significados diferentes na América Latina, África e Ásia, algo que por definição não deveria ocorrer); às pesquisas do PNAD/IBGE não podem aferir a renda real dos ricos (que estão remetendo vultosas somas ao exterior por meios “informais”) e que, portanto, não podem ser declaradas no censo; ao corte do número de pobres e miseráveis que, por estar relacionado ao valor do dólar, flutua com a variação cambial, reduzindo o número de pobres e miseráveis com a apreciação da moeda nacional, e ao próprio tratamento matemático dos dados estatísticos, conforme análise de Cláudio Considera (O Globo, 6/10/06, p.7). A comparação com o governo Cardoso, como já sublinhado neste texto, não é explicativa da situação social. Está claro que a redução do número de indigentes do período Cardoso (7,5 milhões em função da bolha do plano Real) ou de Lula da Silva (2,65 milhões) não altera a questão, pois, a linha que separa os miseráveis e os pobres dos demais segmentos da população é fluída e arbitrária como vimos na questão do valor para uma família ser habilitada ao programa bolsa-família em que míseros R$ 5,00 poderia incluir mais 1 milhão de famílias no programa! A menor redução do número de miseráveis no governo Lula da Silva quando comparada à de Cardoso não significa que o neoliberalismo de Cardoso tenha sido melhor do que o de Lula da Silva. As flutuações em torno da linha da miséria ou da pobreza não significam o fim da miséria como, aliás, a existência do programa bolsa-família o comprova.

4. Política externa independente

Muitos dos mais ásperos críticos do governo de Lula da Silva sustentam que existe uma ilha programática em seu governo: a política externa. Entre os indicadores que sustentam essa avaliação, são citados: o posicionamento no G-21, a ajuda a Chaves no contexto do golpe contra o seu governo, a autonomia frente aos EUA e o afastamento do país do ALCA.

Com efeito, a afirmação do G-21, por ocasião da Reunião da OMC em Cancún (2003), foi considerada um novo marco da política externa mundial. A grande mídia atribuiu o impasse da Reunião à posição do G-21, liderado pela Índia e Brasil – que teria ressuscitado o espírito de (um idealizado) Bandung e de um não menos idealizado “terceiro-mundismo”, enchendo de esperanças intelectuais e analistas pouco atentos aos verdadeiros objetivos da política de comércio externo brasileira, centrada no agronegócio e na reprimarização.



O G-21 reuniu aliados muito estreitos dos EUA, como Chile e México, todos insatisfeitos com a proposta conjunta dos EUA e UE – que carecia de proposições concretas para a agricultura. Mas é preciso examinar com mais vagar as vozes que puderam externar o seu descontentamento: o agribusiness ou a agricultura camponesa?



É certo que a tríade pretendia cindir os países “em desenvolvimento” em “subdesenvolvidos” e “miseráveis”, impondo um retrocesso em relação ao conceito de “Rodada do Desenvolvimento” anunciada em Doha. Mas o G-21 realmente significa uma oposição aos interesses das corporações? Durante a Conferência o G-21 foi a voz d´ África cujo comércio exterior, excluindo a África do Sul, representa menos de 1% do comércio mundial, equivalendo a pequena Finlândia, ou foi a pauta dos países de grupo de Cairns (os países de fora da tríade que lideram o agronegócio)?



Como observaram Walden Bello & Aileen Kwa (2004), a tática dos EUA frente ao G-21 mudou. Concluindo que grandes reuniões fortaleceram os países pobres, em especial quando acompanhadas de enormes manifestações, os EUA e a UE apostaram no grupo das “5 partes interessadas” (P-5) para fazer um acerto pelo alto em nome dos setores internacionalizados dos EUA, da UE, da Austrália, do Brasil e da Índia. Com essa iniciativa, os EUA e a UE venceram uma batalha extremamente importante, após duas derrotas (Seattle e Cancun), recolocando nos trilhos os TLC, objetivando avanços na redução das tarifas para produtos não agrícolas (NAMA, em sua sigla em inglês).



Ao inserir o Brasil e a Índia, em abril de 2004, no seleto grupo das “5 partes interessadas” (P-5) – sem a presença dos países pobres (cerca de 100 países estavam ausentes da reunião do Conselho Geral) e dos alterglobalistas –, a reunião em Genebra garantiu a assinatura de um acordo correspondente a uma Declaração ministerial (porém sem Conferência Ministerial), que expressava o ponto de vista do agribusiness, mas não da pequena agricultura e muito menos da agricultura camponesa.



Zoellick, ex-secretário de comércio estadunidense, regressou aos EUA eufórico, afirmando que o acordo foi uma arrasadora vitória das empresas estadunidenses e que este era apenas o primeiro passo para a abolição das tarifas alfandegárias aos produtos industrializados do país. Nas palavras da Associação Nacional de Fabricantes de Estados Unidos, "este é um grande logro e uma grande vitória para a OMC, os Estados Unidos e a economia mundial” (Bello & Kwa, 2004). O agronegócio brasileiro venceu, afinal obteve a promessa da redução gradual dos subsídios dos EUA e da UE; contudo, a indústria, os serviços, e a propriedade intelectual dos países capitalistas dependentes seguirão estrangulados pelo poderio das corporações. Nos termos de Pascoal Lamy, diretor-geral da OMC, o ganho agrícola brasileiro não será gratuito, o Brasil terá de oferecer maior acesso a bens industriais e serviços para obter contrapartida: “É uma negociação. A UE, os EUA, o Japão e a Coréia do Sul terão de convencer seus produtores rurais a aceitar muitos cortes, mas precisam convencê-los de que é um jogo em que todos ganham.”[10]



A reação dos países pobres foi fortalecer o G-33 – que persiste na defesa de salvaguardas especiais para proteger a pequena agricultura – e o G-90 – criado com forte protagonismo africano organizado contra os temas de Singapura. Em suma, o que esses países anunciam e denunciam é que os interesses do agronegócio não são coincidentes com os da quase totalidade de 1,3 bilhão de pequenos agricultores e camponeses dos países capitalistas dependentes, como dramaticamente revela o caso dos plantadores de algodão da África. As distorções da Rodada Uruguai seguem intactas.



Por ocasião do golpe de Estado contra Aristide, EUA e França se viram diante da possibilidade de terem de enfrentar mais uma frente militar, no Haiti, uma considerada hipótese negativa, em virtude do agravamento da situação no Iraque e no Afeganistão. Daí, novamente, os “capacetes azuis” foram vistos como uma alternativa. Seja porque viu na ocupação do Haiti uma oportunidade para pleitear uma vaga no Conselho de Segurança da ONU (vista como uma oportunidade do país aumentar a sua influência no mundo e, quiçá, de fazer bons negócios), seja, menos crível, por acreditar no “humanismo militar” difundido por Clinton (na antiga Iugoslávia), o fato é que as forças armadas brasileiras estão sustentando um regime que colocou no cárcere milhares de democratas, como a cantora Sò Anne (Irmã Anne), encarcerada na Penitenciária de Pétionville, Haiti, desde 24 de maio de 2004, fazem vista grossa às perseguições e assassinatos da polícia nacional, utilizada como braço armado do atual regime contra todos os suspeitos de apoiarem Aristide e, recentemente, atuaram diretamente na região miserável de Cité Soleil, em Porto Príncipe, provocando morte de crianças e mulheres desarmadas. Longe de restabelecer a democracia, as eleições presidenciais foram adiadas por três vezes, fortalecendo o regime de intervenção estadunidense liderado por Latortue e apoiado pelas “forças de paz”. A situação segue instável, a miséria campeia mas o esforço de Lula da Silva de difundir a idéia de um humanismo militar segue com a promoção de jogos de futebol e o envio de bandas de hip-hop ao país (gerando também nesse campo divisões no movimento nacional, visto que parte das bandas considerou inaceitável cumprir esse papel).

Em relação ao ALCA, cabe registrar que as lutas continentais foram cruciais para impedir a sua efetivação, mas Lula da Silva sempre manteve uma postura ambígua. Em 2003, contrariando as expectativas dos movimentos sociais latino-americanos Lula da Silva assumiu o calendário que previa o ALCA em 2005. Após uma década de resistências, em Mar del Plata, grandes protestos foram realizados, impondo o esgotamento das possibilidades do acordo ser efetivado no prazo previsto. Mas não foram apenas os protestos que frearam o ALCA, também importantes setores econômicos nos EUA não queriam o ALCA ou nenhum outro grande acordo que envolva a redução de subsídios e proteção aos seus mercados. Ate mesmo o CAFTA, um acordo em tudo mais favorável aos EUA do que o ALCA foi aprovado no parlamento estadunidense por um único voto de diferença.

No plano político não é secundário a postura de Lula da Silva frente a Bush.. Após ser alvo de fortes protestos em Mar del Plata, inclusive com falas duras de Chaves e Kirchner contra Bush, Lula da Silva o acolheu no dia seguinte em seu espaço privado, oferecendo um churrasco, promovendo diversas entrevistas falando da colaboração entre os dois países etc. Já no início do governo, a diplomacia deixou de apoiar Cuba na A Comissão de Direitos Humanos da ONU que aprovou uma emenda latino-americana na qual se insta o governo de Cuba a colaborar com o Alto Comissariado para os Direitos Humanos. A resolução adotada, a duodécima sobre Cuba aprovada na Comissão, recebeu 24 votos a favor – dois a mais que o ano passado -, 20 contra, enquanto que 9 países preferiram abster-se (entre eles o Brasil)·.

5. Recuperação do Estado

Após o plano diretor da reforma do Estado, a medida sistêmica mais importante para diluir o público e o privado foi a lei de PPP que está na raiz do IIRSA. A concessão de terras amazônicas, de áreas petrolíferas e de bacias aqüíferas não demonstra uma especial preocupação com a soberania do país e com o próprio Estado. O governo seguir repassando vultosos repasses para ONG e tem subsidiado fortemente a educação privada (FIES, PROUNI). Em que pese a realização de concursos em alguns setores do Estado, a sua dimensão social segue espremida pelo superávit primário. As grandes empresas públicas como a Petrobrás seguem sendo desnacionalizadas em virtude do crescente controle acionário por parte de corporações e investidoras estrangeiras.

Um breve exame da execução orçamentária de 2005 atesta o pouco que é destinado a área social e de investimentos no mundo do trabalho.

(divulgado no Boletim da Auditoria da Dívida n. 15, outubro de 2006)



6. Diálogo com os movimentos sociais

O diálogo com os movimentos não tem respeitado a autonomia diante do governo, a relação esperada é de subserviência e lealdade. Poucas foram as entidades que lograram diálogo com o governo sem perder a autonomia. O mais importante desses movimentos foi o MST que, lastreado em forte mobilização das bases (marchas, ocupações, atos em bancos etc), logrou abrir espaços de diálogo sem perder a autonomia; contudo, como se depreende da situação da reforma agrária e da política para a agricultura camponesa, esses diálogos não modificaram a posição do governo frente ao agronegócio e tampouco abriu perspectivas favoráveis para a reforma agrária. A principal Central sindical brasileira, a CUT, não manteve uma relação de diálogo, mas de simbiose com o governo: inúmeros quadros da CUT migraram para o governo e em um momento de crise o próprio presidente da Central saiu diretamente deste cargo para o de ministro do trabalho, objetivando reunir uma base de apoio que opere a favor do bloco de poder por meio do transformismo. A situação de colaboração foi evidente no apoio às contra-reformas da previdência, trabalhista e sindical (estas últimas não chegaram a termo em virtude da crise no governo). Vale lembrar que essas contra-reformas no mundo do trabalho objetivavam implementar uma contra-reforma sindical que hipertrofiaria o andar de cima da burocracia sindical (as confederações e federações) em detrimento dos sindicatos de base e uma contra-reforma trabalhista que sobrepõe o “negociado” ao legislado.

O transformismo em curso na CUT está levando a uma homogeneização política da Central que teve início antes do governo Lula da Silva, mas que se intensificou no último quadriênio. Em síntese, é possível indicar as seguintes mudanças estruturais na Central:

a) As mudanças na sistemática de escolha de delegados encolheram a participação da base e extinguiram a participação das oposições sindicais, ampliando a participação das confederações.

b) Já no governo Cardoso a CUT apoiou a primeira geração da reforma da previdência por meio de declarações do ex-presidente Vicente Paulo da Silva (Vicentinho). Na mesma época destacados ex-dirigentes já estavam empenhados na criação de fundos de pensão, a exemplo de Luiz Gushiguen que oferecia consultoria para a criação de fundos de pensão.

c) Já na condição de presidente da República, por duas vezes Lula da Silva interferiu na escolha do novo presidente da CUT.

1. 8o Congresso, 2004 – escolha de Luis Marinho em detrimento de J. Felício (Secretario Geral)
2. 9o Congresso (2006)- o eletricitário Arthur Henrique em detrimento de J. Felício (relações internacionais, cargo honorífico).

d) Exclusão das correntes de esquerda da direção da Central no 9o Congresso.

É a sedimentação, no interior da Articulação, da vitória da concepção social-liberal frente a social-democrata (representada por João Felício).



Assim, essa propalada abertura para o diálogo sempre foi feita tendo como pressuposto a cooptação. Os movimentos que lograram grande mobilização e radicalização de suas bases puderam se manter autônomas frente ao governo, as que se mantiveram autônomas e não aceitaram negociar os termos da agenda neoliberal, mas que não têm como característica ações massivas, como o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior, passam a ter “entidades de carimbo” criadas com o ativo o apoio do governo como concorrentes. No caso do ANDES-SN, uma chapa que foi derrotada nas urnas foi reconhecida como representação sindical dos docentes nas comissões do MEC e do Ministério do Planejamento, obtendo o reconhecimento governamental em flagrante desrespeito ao princípio da OIT que veda a ingerência governamental nas entidades de organização dos trabalhadores.



À guisa de conclusão



Essas considerações preliminares objetivaram demonstrar que os pontos elencados para justificar o apoio a um novo mandato a Lula da Silva não são livres de questionamentos, ao contrário, ao reivindicarem um novo mandato para o atual governo baseado nos pontos aqui analisados, os movimentos podem estar acelerando ainda mais uma situação de derrota, podendo, contra a sua intenção, estar tornando ainda mais difícil a reconstrução do pólo socialista, antiimperialista e classista.

Certamente existem nuances, aspectos a serem explorados na argumentação que poderiam indicar outras leituras sobre os referidos itens, entretanto o texto tem a expectativa de ter oferecido elementos para sugerir a fragilidade dos argumentos que justificam um novo mandato de Lula da Silva a partir da reivindicação desses pontos.

A proposição a favor do apoio a Lula da Silva a partir de algumas pré-condições, um posicionamento em si mesmo correto e usual nessas situações, não pode deixar de considerar a profundidade do enraizamento do governo Lula da Silva com o bloco de poder que opera o padrão de acumulação por despossessão em curso, sob o risco de enviar para os protagonistas das lutas uma mensagem ingênua, pouco factível e irrealista. Um posicionamento nesses moldes teria de vir junto com uma intensa mobilização social para forçar, de fato, a incorporação das pré-condições na agenda governamental, situação ainda pouco factível, não recomendando, portanto, essa tática.

Como a presente leitura não pretende ser uma verdade absoluta é preciso respeitar o posicionamento autônomo dos movimentos em favor do voto em Lula da Silva como a alternativa ‘menos pior´, mas o imprescindível respeito a avaliação política deve vir acompanhada do debate político verdadeiro, sem o metro das políticas neoliberais (como na comparação do governo atual e com o anterior) e sem a disjunção do econômico com o político.

Urge fortalecer as iniciativas que possam assegurar espaços de convergência e diálogo entre as distintas concepções táticas sobre as lutas socialistas. É um erro fechar esses espaços, pois, se as considerações aqui expostas sobre a conjuntura econômica, política e social têm alguma validade, é previsível que as contra-reformas irão se intensificar com Lula da Silva ou com Alckmin. E somente lutas massivas podem colocar os trabalhadores como protagonistas principais da política.

Como apontou Gramsci, o transformismo sempre é um severo golpe contra as lutas emancipatórias. O futuro do movimento está em sua autonomia frente ao capital e suas formas de dominação, como o Estado, os governos e os partidos aprisionados pelas engrenagens do poder dominante. Nesse contexto, a recusa dos termos de uma falsa polarização é um posicionamento positivo que coloca no debate político a necessidade de um passo adiante na organização autônoma da classe.



[1] . Ellen M. Wood. 2003 Democracia contra capitalismo: a renovação do materialismo histórico. SP: Boitempo).



[2] . Palocci reflete compromisso do país com boas políticas, diz Snow (Folha on Line, 02/8/05). Risco Brasil cai para menor patamar em cinco meses (Folha Online, 05/08/2005). "Até pouco depois do meio-dia (desta segunda-feira), quando Snow decidiu sair em apoio explícito ao governo, o céu parecia derrubar-se sobre Lula e sua equipe. A oposição (...) parecia empenhada em dar uma estocada definitiva contra Lula. Mas o governo dos Estados Unidos optou por se manter à margem de uma aventura onde tem pouco a ganhar e bastante a perder" (Clarin, 2/8/05).

[3] . Setúbal defende punições e acordo. Folha Dinheiro, 28/08/05.

[4] . Guilherme Barros. Governo e empresários se unem contra crise (Folha on Line, 31/07/2005).

[5] Druck e Luís Filgueiras, perguntas que não podem ser caladas. Mimeo, 2006.

[6] . Conforme o MST, o Banco do Brasil fez propaganda nos jornais e revistas, mostrando que concedeu um volume de crédito de mais de 5 bilhões de reais para aquelas dez empresas transnacionais que controlam a agricultura e para algumas poucas empresas transnacionais da celulose. Ou seja, menos de 15 empresas receberam o mesmo volume dos recursos que foram destinados para 4 milhões de agricultores familiares

[7] . Depois de 14 anos de queda, em 2005, houve aumento de 11% no número de crianças entre 5 e 14 anos que trabalham, segundo o IBGE. Rio de Janeiro - Depois de cinco anos em queda, voltou a crescer em 2005 o número de crianças com idade entre 5 e 14 anos que trabalham. A alta em relação a 2004 foi de 10,3% e a maioria dos pequenos trabalhadores estava no setor agrícola, especialmente na região Sul do país. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2005 divulgada hoje (15/9/06) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2006/09/15/materia.2006-09-15.9284659159/view).

[8] . Druck e Filgueiras, 2006, op.cit.

[9] . http://www.pnud.org.br/pobreza_desigualdade/reportagens/index.php?id01=2237&lay=pde

[10] . Rossi, C. Ganho agrícola não será gratuito, diz OMC. FSP, 24/11/05, Caderno B, p. 14.






Reggae e Socialismo: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=12329912

Voto Helo?sa Helena - Sergipe: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=12329912

Fotolog: http://ubbibr.fotolog.com/mgabriel/

Simplesmente repugnante







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6 por meia dúzia??? NULO!!!!!!!!!!!







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Lula faz plenária com petistas, Delfim Neto, Agnaldo Timóteo, Ana Maria Rangel e prefeitos do PFL

Mais de 5 mil petistas compareceram na noite desta terça-feira (10) ao Clube de Regatas Tietê, em São Paulo, para a plenária de mobilização estadual pela reeleição do presidente Luiz Inácio da Silva.

O ato marcou a ampliação do leque de alianças políticas em torno da candidatura Lula neste segundo turno.

Entre os que anunciaram apoio ao presidente ontem, estavam o deputado federal Delfim Neto (PMDB), o deputado eleito Frank Aguiar (PTB), o vereador paulistano Agnaldo Timóteo (PL) e a candidata do PSC à Presidência da República Ana Maria Rangel (PRP), além de prefeitos do PFL, do PPS e do PDT – partidos que, em nível nacional, fazem oposição ao governo.

Um dos mais contundentes na declaração de apoio foi o prefeito Carlos Aimar (PFL), de Araçariguama, interior de São Paulo. Ele fez duras críticas ao candidato apoiado por seu partido, Geraldo Alckmin (PSDB).

Segundo ele, existem três tipos de políticos no PSDB: "Os que não mandam nada, que provavelmente estão aqui do seu lado porque querem um Brasil cada vez melhor. A outra parte do PSDB, que infelizmente ganhou o governo do Estado (José Serra), que pensa que é Deus. E outra parte que tem certeza (de que é Deus), que é o Alckmin".

Durante seu discurso, o presidente Lula agradeceu os apoios e lembrou a militância petista da importância das alianças para governar melhor.

“(É preciso) trazer mais gente para ajudar, não apenas a ganhar, como também ajudar a governar este país de fato e de direito da forma mais plural e democrática possível", disse.

E explicou: "Governar de forma plural é a gente permitir que todos os partidos políticos tenham poder de decisão junto com o governo e não apenas um partido querer ter a hegemonia. Porque de vez em quando nós cometemos o pequeno erro de achar que aliança política é quando os outros aceitam nos apoiar, mas nós dificilmente decidimos apoiar os outros", disse.

No caso de Delfim, Lula fez questão de destinar boa parte do discurso a ele. Segundo Lula, desde que tomou posse, o ex-ministro tem se colocado na defesa da política econômica do governo.


Fonte: sítio do PT Nacional
11/10/2006 - 11:06

Entre Lula e Alckmin, não sei qual a opção menos nefasta - ENTREVISTA/ RICARDO ANTUNES

Sociólogo Ricardo Antunes, um dos maiores especialistas em 'mundo do trabalho' no Brasil, afirma que anulará seu voto. Eleitor de Heloísa Helena no 1º turno, ele declara: "Eu jamais votaria no PSDB, mas o PT, de agora em diante, terá uma oposição à esquerda que saiu da condição de gueto".

Gilberto Maringoni - Carta Maior

SÃO PAULO – O sociólogo Ricardo Antunes é um dos maiores especialistas brasileiros no estudo das mudanças no mundo do trabalho. Professor titular de sociologia no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp e autor, entre outros, de 'Uma Esquerda Fora do Lugar: o goveno Lula e os descaminhos do PT' (Autores Associados, 2006) e 'O Caracol e sua Concha: ensaios sobre a nova morfologia do trabalho' (Ed. Boitempo, 2005), Antunes analisa o quadro eleitoral e diz que anulará o voto no segundo turno. "Enquanto Alckmin é o candidato da direita com face tradicional, o governo Lula é uma expressão oriunda das lutas sociais que acabou abraçando propostas de fundo direitista". A seguir, sua entrevista a Carta Maior.

Carta Maior – Em quem o sr. Votou no primeiro turno?
Ricardo Antunes – Votei em Heloísa Helena, para tentar tirar a polarização do debate eleitoral apenas entre forças de centro. Era preciso que um projeto de esquerda também tivesse voz. O resultado foi positivo. Os votos da senadora, que liderava uma frente de partidos de esquerda, chegaram a quase 7% do eleitorado, algo que ninguém apostaria há dois anos. Com todas as dificuldades, ela conseguiu tangenciar a crítica a uma política econômica financista, além de tangenciar o que seria uma alternativa socialista. O PSOL foi pego de surpresa pela urgência eleitoral. Precisamos realizar um balanço mais consolidado sobre o quadro que se forma e aprofundar a construção partidária junto aos movimentos sociais.

CM – E agora no segundo turno, em quem o sr. vai votar?
Ricardo Antunes – Vou anular meu voto.

CM – Por quê?
RA – É evidente que as candidaturas de Lula e de Geraldo Alckmin não são idênticas, mas têm as arquiteturas de política econômica muito semelhantes, de ligação com os bancos, com o capital financeiro e com o grande capital industrial. Enquanto Alckmin é o candidato da direita com face tradicional, o governo Lula é uma expressão que vem das lutas sociais que acabou abraçando as propostas de fundo direitista. Com isso, Lula age para desarticular as lutas sociais. Fernando Henrique tentou por anos atacar a previdência pública e taxar os aposentados, mas não conseguiu, pois enfrentou a oposição dos movimentos sociais. O governo Lula mostrou-se extremamente "competente" para desestruturar as esquerdas brasileiras, que ficaram reduzidas a pedaços. O desafio do PSOL e dos movimentos sociais é reaglutiná-los. A confusão gerada por Lula é tamanha que ele é tido, pelos movimentos sociais, ora como inimigo, ora como aliado ou ainda como parte de um governo em disputa. Assim, entre ele e Alckmin, não sei aquilatar qual a opção menos nefasta.

CM – Alega-se que Alckmin poderia privatizar o Banco do Brasil, a Petrobrás e outras estatais...
RA – Fala-se que Lula não vai privatizar. Mas o que são as PPPs (Parcerias Público Privadas)? Esta foi uma criação feita nos anos 1980 pelo governo de Margareth Tatcher, na Inglaterra! O mais puro neoliberalismo. Lula não privatizou grandes empresas porque estas foram vendidas no governo FHC. Mas fez todas as reformas que FHC não conseguiu, tendo a privatização da previdência e taxação dos aposentados em primeiro lugar.

CM – O que significa o voto nulo, além da negação aos dois candidatos?
RA - É a primeira vez que voto nulo. É uma posição difícil. Mas não se pode esquecer dos enormes prejuízos causados à esquerda e ao movimento popular. Isso é feito de uma forma diversa do que faz a direita. Enquanto FHC e Alckmin buscam criminalizar o MST, coisa que Lula não poderia fazer, ele confunde os movimentos. Não fez nenhuma reforma que sequer arranhe a estrutura do agronegócio e da concentração secular de terras, mas deixa os movimentos de luta pela terra dependentes dos recursos de seu governo. Qual o projeto mais nefasto? O que o PT fez com a CUT foi converter a entidade em um apêndice do estado brasileiro, com vários ex-dirigentes ligados a fundos de pensão e à gestão dos fundos públicos e das estatais. Alckmin, por sua vez vai avançar em posições anti-populares muito claras. Mas penso que a mobilização social contra o governo Lula é muito mais difícil, pois teremos os núcleos dirigentes do PT, da CUT e da UNE contra possíveis mobilizações.

CM – Como o sr. vê o PT nesse quadro?
RA - O projeto político do PT hoje é desagregador. Eu reconheço que em alguns aspectos, como na política externa, Alckmin é muito pior, pois representaria o isolamento de Cuba, da Venezuela e da Bolívia. Em relação à universidade pública, Lula é um pouco menos nefasto do que foi FHC e do que, possivelmente, seria Alckmin. Mas é necessário levarmos em conta o conjunto da obra, e não apenas pontos específicos.E o PT converteu-se, na minha opinião, naquilo que Marx chamava de partido da ordem.

CM – Mas, sob este ponto de vista, não seria o caso, então, de se optar pelo menos ruim?
RA – Recorro a uma similitude para responder á questão: na Europa, as reformas desse tipo foram feitas, em grande parte, por governos da esquerda moderada, semelhantes ao governo Lula. É aquela "esquerda que a direita gosta". Foi assim na França, na Alemanha, na Espanha e em Portugal. Essa "esquerda" mostrou-se mais capaz na destruição dos direitos e conquistas sociais. O caso de Tony Blair, do New Labor, é exemplar.

CM – Politicamente, que efeito o voto nulo terá?
RA – Acho que não será desprezível em 29 de outubro, ainda que certamente minoritário. Mas reitero que não aceitamos a dualidade que a ordem quer nos impor, entre escolher alternativas de fundo assemelhado. Mas, é importante dizer, esta não é uma questão de princípio, mas uma avaliação política. Eu, por certo, jamais votaria no PSDB, mas o PT precisa de uma entender que, de agora em diante, terá sempre uma oposição à esquerda que saiu da condição de gueto. Quase 7 milhões de votos para a Frente de Esquerda (PSOL, PSTU e PCB) não são irrelevantes.

carta do Arbex de desligamento do Brasil DE Fato

1. Em 2003, estava corretíssima a linha editorial do "governo em disputa". Era uma linha que permitia ao jornal dialogar com os seus leitores, à época completamente iludidos com o governo Lula. Quando o jornal pedia que Lula rompesse com a burguesia, caminhava ao lado de seus leitores, de forma a conduzi-los para a conclusão inevitável de que jamais haveria tal ruptura. Era uma linha pedagógica. Para usar uma expressão leninista, tratava-se de "combater as ilusões no terreno das ilusões". Por isso estavam errados, naquela ocasião, o PSTU e outros que adotaram uma postura vanguardista, denuncista e isolada dos movimentos sociais.

2. Em 2006, a situação é outra. Nosso leitor médio já sabe, muito bem, qual é a vocação, a natureza e a prática do governo Lula. Não há mais o que esperar do governo dos transgênicos, do Haiti, dos mais espetaculares lucros do sistema financeiro, da privatização das reservas de petróleo da bacia de Campos etc. etc. Aliás, há sim o que esperar: mais desmandos, mais humilhações, mais corrupção, mais degradação moral da esquerda.

3. Apesar disso, o jornal ainda mantém a linha do "governo em disputa". A edição 188 traz uma capa repugnante. Metade dela é dedicada a uma foto-pôster de um Lula disfarçadamente constrangido pelo abraço de uma senhora explicitamente emocionada. A outra metade traz um editorial envergonhadamente lulista. Duda Mendonça qualificaria a capa como excessivamente pró-Lula. E a tal capa não é um caso isolado. A edição 187, por exemplo, diz que "desvios de petistas fortalecem a direita". Errado. É o
PT inteiro, sua prática inteira, o governo Lula inteiro que "fortalece a direita". A votação em Alckmin não é o resultado de uma burrada de última hora, mas sim de quatro anos de frustrações e decepções.

4. Sim, há o argumento de que "muitos ainda estão iludidos". Sei, e o nosso papel, suponho, é nivelar a consciência por baixo... Não acredito nisso. Estamos no final de 2006, quando milhões já fizeram sua experiência com Lula, e não no início de 2003, quando ninguém ainda sabia ao certo o que iria acontecer. Esse argumento é inaceitável.

5. Há o argumento de que Lula é menos pior do que Alckmin. Talvez. Mas, nesse caso, não deveriam tentar encontrar, com grandes e potentes lupas, os tais "pontos positivos" no governo Lula (supostamente, sua política externa, o aumento do salário mínimo e outras mistificações e blá-blá-blás semelhantes), pois isso significa alimentar ilusões. Deveriam apenas dizer, se fosse o caso: entre o péssimo e o pior, ficamos com o péssimo, só por não ser o pior. E ponto final.

6. Mas sequer é o caso de propor o voto no "menos pior", por uma razão muito simples e trágica: o preço que teremos que pagar por essa proposta. Governos de colaboração de classe são, historicamente, a ante-sala do fascismo. Foi assim na Espanha e França, nos anos 30; em 1964, no Brasil; em 1973, no Chile. Será sempre assim, pois governos de colaboração de classe têm, por vocação, desarmar os trabalhadores, corromper suas lideranças, conduzir os movimentos sociais à prostração e à passividade, mediante a distribuição das migalhas que sobram dos banquetes dos ricos. É o que faz o bolsa-família, por exemplo, defendido como o auge da virtude pública por antigos trabalhadores e sindicalistas, hoje burocratas corruptos regiamente pagos pelo Estado. É embelmática a frase do antigo presidente da CUT, Jair Menegueli: "Ganho hoje R$ 20.000,00 por mês; é muito para o que eu ganhava antes, mas é muito menos do que ganha a Xuxa". Lula gosta de dizer que o seu governo fez em 4 anos muito mais do que o de FHC em 8. Isso é uma verdade absoluta, em pelo menos um caso específico: em 4 anos, ele causou uma devastação maior na esquerda, do que os 8 anos de FHC... e os 20 de ditadura militar. Pedir o voto em Lula, em 2006, é manter as ilusões no mais espetacular e eficaz governo de colaboração de classe instituído na América Latina contemporânea. É um ato de suicídio político.

7. Fizemos, mais ou menos, essa discussão na reunião do conselho, sábado passado. Venceu a proposta de apoio a Lula. Não tenho mais o que fazer em tal conselho. Antes que me acusem de "intransigência", "birra", "radicalismo" etc, lembro que já perdi muitas vezes em votações realizadas no conselho. Na verdade, perdi quase todas as vezes. Fui voto único contra o lançamento do jornal no fórum de porto alegre, perdi ao propor o encerramento do jornal papel etc. De fato, não me lembro de ter vencido uma única vez, sempre que manifestei divergência do senso comum. Nada disso me fez deixar o conselho. Mas, agora, o Rubicão foi atravessado. Eu me recuso a emprestar o meu nome a um chamado que visa perpetuar um governo sórdido de conciliação de classe.

Resoluções da CNAPS sobre as eleições de 2006 e o segundo turno

Nenhum voto em Alckmin.
Continuar na resistência ao neoliberalismo,
seja qual for o novo governo

Resoluções da CNAPS sobre as eleições de 2006 e o segundo turno

- Brasil, 6 e 7 de outubro de 2006 -

Acabou o primeiro turno e com ele a presença na cena eleitoral da única candidatura presidencial importante que tinha o objetivo de construção de uma alternativa de esquerda no Brasil, que esteve representada por Heloísa Helena e pela Frente de Esquerda encabeçada pelo PSOL. Foi uma campanha politicamente vitoriosa, em que Heloísa representou o Coração Valente da esquerda. No segundo turno, tanto a candidatura de Geraldo Alckmin quanto a de Lula da Silva, significam diferentes formas regressivas em relação às conquistas populares. Não temos ilusões sobre isto. Mas a tática num segundo turno não é necessariamente igual à do primeiro. Neste caso concreto, há a possibilidade tanto para o voto nulo quanto para o voto crítico em Lula, mas nenhum voto em Alckmin. Nosso lema geral continua sendo “Na luta pelo socialismo, construir a Resistência Indígena, Negra, Feminina e Popular contra o neoliberalismo”. E nossa posição será de oposição de esquerda a qualquer um dos concorrentes que vencer o segundo turno.

1. O processo eleitoral de 2006, tanto no que diz respeito à eleição presidencial quanto às estaduais e parlamentares, está sendo uma importante experiência para o povo e para a esquerda socialista brasileira. Terminado o primeiro turno, já podemos ter uma visão geral, mesmo que ainda inicial, dos seus resultados e perspectivas.

2. Numa disputa eleitoral na qual os candidatos mais votados não escaparam dos limites dos interesses fundamentais das diversas frações e setores que compõem o Bloco de Poder (político, econômico, social, cultural e midiático) burguês em nosso país, a novidade foi a candidatura de Heloísa Helena.

3. A sua candidatura e os resultado obtidos, dentro das grandes dificuldades e condições políticas e materiais adversas, foi uma importante vitória política da esquerda socialista, dos lutadores do povo que a encaparam, do PSOL e da Frente de Esquerda - também constituída pelo PCB e o PSTU. Heloísa Helena, com sua combatividade e paixão, representou o Coração Valente da esquerda, superando grandes obstáculos para levar a campanha de modo politicamente vitorioso até o fim. Destacamos também, como justa e acertada, a indicação do companheiro César Benjamin, que contribuiu substantivamente para dar densidade política à campanha, sendo um ator que dignificou o espaço de vice na chapa da Frente.

4. Toda esta experiência da primeira campanha eleitoral do PSOL e da Frente de Esquerda por este encabeçada, ainda precisa passar por uma avaliação mais profunda, seja para melhor entender os seus resultados, seja para um balanço de todo o processo que envolveu a definição do programa, da estratégia de campanha, das alianças, da formação das chapas e da sua coordenação cotidiana. Portanto, ainda é necessário um balanço mais aprofundado do seu significado essencialmente positivo.

5. A votação obtida pela candidatura de Heloísa Helena foi, assim, a expressão daquilo que foi possível acumular na atual correlação de forças e condições de luta. Os erros e falhas que possam ser identificados na sua condução, e que precisam ser discutidos, se situam dentro das dificuldades complexas colocadas para o seu lançamento e sustentação.

6. Dos sete deputados federais do PSOL, três conseguiram se reeleger, de modo combativo e independente: Ivan Valente (da APS de São Paulo), Chico Alencar (RJ) e Luciana Genro (RS). Fará enorme falta à luta popular a não eleição dos demais, especialmente a companheira Maninha (da APS de Brasília), assim como dos companheiros Fantazzini (SP), João Alfredo (CE) e Babá (RJ). Também fará grande falta os mandatos estaduais que, apesar, do excelente exercício parlamentar, da boa votação e do grande espírito de luta, não conseguiram se eleger por insuficiência de coeficiente eleitoral para a Frente de Esquerda em seus estados. A eles – Araceli Lemos (PA), Brice Bragatto (ES), Afrânio Boppré (SC) e Randolfe Rodrigues (AP) nosso forte abraço de companheiras e companheiros de uma luta permanente pelo socialismo, com ou sem mandatos parlamentares. Por outro lado, o PSOL elegeu três novos companheiros deputados estaduais, Giannazi (SP), Raul Marcelo (SP) e Marcelo Freixo (RJ) que seguramente saberão honrar os mandatos o que o povo está dando.

7. O PSOL que sai de seu primeiro teste nas urnas nacionais, tem uma bancada menor do que a inicialmente formada por deputados dissidentes do PT, mas o partido estendeu sua representatividade e reconhecimento nacional. Além do mais, tendo lançado candidatos em todos os estados brasileiros junto à Frente de Esquerda, na grande maioria dos casos encabeçada por militantes do partido, mostrou uma possibilidade de crescimento e enraizamento, que precisa ser bem estudada para ser melhor potencializada.

8. Como regra geral, estão de parabéns nossos candidatos a governador, vice-governador e senador, pelo importante papel que cumpriram na campanha, nos seus debates e com a demarcação política que realizaram diante de outros candidatos que se limitaram a defender, também nos estados, variações dos projetos neoliberais que nacionalmente foram patrocinados pelas candidaturas de Lula da Silva e Geraldo Alckmin. Destacaram-se, com votações relativamente mais expressivas, os companheiros Toninho Andrade (DF), Edmilson Rodrigues (PA), Clécio Luiz (AP), Plínio Arruda Sampaio (SP), Renato Roseno (CE) e Ricardo Barbosa (AL). Mas todos estão de parabéns pelo investimento militante que deram em mais esta etapa da resistência popular.

9. Temos certeza, entretanto, que somente o aprofundamento de suas definições políticas e de sua inserção nos movimentos sociais, poderá fazer do PSOL um instrumento político-partidário socialista, democrático e de massas capaz de responder aos desafios estratégicos que a construção de uma alternativa socialista em nosso país exige.

10. Os resultados parlamentares negativos, atingiram também os outros partidos da Frente de Esquerda: o PCB só elegeu um deputado estadual (no Amapá) e os candidatos do PSTU, mesmo nos estados de maior presença deste partido, obteve votações muito baixas. Já a chamada esquerda do PT, teve forte redução nas bancadas da DS, AE (que tiveram suas bancadas reduzidas a menos da metade). TM, FrS e BS praticamente ficaram sem bancadas e OT teve votações baixíssimas. Além disso, muitos dos petistas eleitos estão envolvidos com os escândalos do mensalão, quebra do sigilo bancário, compra de dossiê etc. Assim, o PT que sai das urnas é ainda mais identificado com o chamado campo majoritário, suas políticas neoliberais e os interesses dos grandes grupos econômicos
e, portanto, mais conservador, pragmático e fisiológico.

11. Acabou o primeiro turno e com ele a presença na cena eleitoral da única candidatura presidencial importante que tinha o objetivo de construção de uma alternativa de esquerda no Brasil, que esteve representada por Heloísa Helena e pela Frente de Esquerda encabeçada pelo PSOL.

12. Todo este processo de disputa político-eleitoral do primeiro turno veio ainda reafirmar a decisão correta de construção da alternativa do PSOL, desenvolvida principalmente por aqueles que também corretamente formaram dissidências e saíram do PT e do PSTU. Assim como o total acerto do lançamento da candidatura de Heloísa Helena a presidente, sem a qual a disputa eleitoral de 2006 ficaria limitada a variantes do neoliberalismo.

13. No segundo turno, ambas as propostas de governo dos candidatos Geraldo Alckmin e Lula da Silva, seja pelo que expressam, seja pelo que já praticaram, seja pela composição de suas alianças, significam diferentes formas regressivas em relação aos direitos dos trabalhadores. Não temos ilusões sobre isto.

14. No segundo turno, Alckmin continuará evitando mostrar sua verdadeira face de inimigo do povo e bastião dos interesses do grande capital internacional e nacional. Suas relações de classe, seu passado político e de seus aliados, são a cara do conservadorismo e do reacionarismo típico da direita. E prometerá melhorias que a coligação PSDB-PFL nunca fez e uma ética que nunca teve. Por outro lado, sem Heloísa Helena na cena eleitoral e sem divergências fundamentais de estratégia e métodos de governar, Lula agora vai aos debates tentando reduzir tudo à comparação de estatísticas que não representam diferenças fundamentais. E continuará manipulando a simbologia de um passado de lutas que não mais é exercitado. O segundo turno será dominado, também, pela troca de acusações de corrupção num vale tudo onde, ao final, o que fica nítido é que estas duas coligações, em que pesem suas diferenças de origem e o grau de responsabilidade histórica sobre a corrupção no país, acabam muito comprometidas também nesta questão.

15. A Executiva do PSOL tirou uma posição de nenhum apoio a ambos os candidatos, liberando o voto dos seus filiados. Entendemos isto considerando que, depois do tipo de embate realizado durante o primeiro turno, dificilmente a posição expressa oficialmente pelo PSOL como partido poderia ser outra.

16. Entretanto, entendemos que, num segundo turno, a tática não é necessariamente igual à do primeiro. Assim, esta posição da executiva nacional do PSOL, abre a possibilidade, na prática, tanto para o voto nulo quanto para o voto crítico em Lula, pois consideramos impossível que a militância de esquerda venha a dar algum voto em Alckmin, e muito menos indicar voto para este candidato. Portanto, pode ser legítimo tanto o voto nulo quanto um voto crítico na candidatura de Lula. Isto se dá pelo fato de que uma importante parte dos movimentos sociais sérios e combativos do campo democrático e popular, tendo compreendido ou não - completamente e em toda profundidade - os enormes equívocos e a prática burguesa do governo petista de Lula, ainda acredita na possibilidade de reversão dos seus rumos e, portanto, os apóiam.

17. A APS não tem ilusões sobre isto. Mas, compreendendo este contexto, acredita que um segundo mandato de Lula poderia, inclusive, pela reincidência de políticas neoliberais e outras práticas nefastas, contribuir para uma maior consciência deste seu caráter atrasado e manipulador (que reforça práticas e concepções ideológicas dos grupos dominantes) entre aqueles ativistas sociais que ainda acreditam que este seja ou ainda possa vir a ser uma real alternativa de transformação social.

18. Por outro lado, não é possível impedir que qualquer militante enraizado nos movimentos sociais ou presente na ação institucional, expresse suas posições, seja a de um voto crítico em Lula, seja a de voto nulo – já que, na prática, não há nenhum sinal de que algum militante do PSOL possa vir a votar em Alckmin.

19. Tudo isto significa que o nosso principal esforço deverá ser dirigido para a busca da construção de uma plataforma de luta para resistir às políticas regressivas que certamente virão, qualquer que seja o presidente eleito neste segundo turno. Nosso lema geral de “Na luta pelo socialismo, construir a Resistência Indígena, Negra e Popular contra o neoliberalismo”, continua na ordem do dia. E nossa posição será de oposição de esquerda a qualquer um dos concorrentes que vencer o segundo turno.

20. Nesta tarefa, a APS buscará estar lado a lado com toda a militância do PSOL, assim como do PCB, do PSTU e de todos aqueles agrupamentos, correntes, movimentos sociais e militantes que ainda mantém o horizonte de luta pelo socialismo e que não querem aceitar novos ataques aos direitos dos trabalhadores e do povo oprimido e discriminado de modo geral, ao meio ambiente, à soberania nacional e à auto-determinação dos povos.

Nenhum voto em Alckmin

Na luta pelo socialismo, construir a Resistência Indígena, Negra, Feminina e Popular contra o neoliberalismo

Combater todos os ataques aos direitos dos trabalhadores e do povo oprimido e discriminado de modo geral, ao meio ambiente, à soberania nacional e à auto-determinação dos povos.

Construir a oposição de esquerda, qualquer que seja o novo governo

Coordenação Nacional da Ação Popular Socialista
Brasil, 6 e 7 de outubro de 2006

http://www.acaopopularsocialista.org.br/noticias/1423.htm


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Sobre o segundo turno presidencial

Bruno Meirinho,
estudante de Direito da UFPR
DCE-UFPR

Primeiro, quero mencionar o quadro de retrocesso que tivemos nessas eleições. Figuras marcadas da direita tradicional se elegeram com larga vantagem de votos e a esquerda, em um sentido geral, sofreu um processo de desmoralização. Vemos Maluf e Collor eleitos, Eduardo Suplicy sofrendo para derrotar o Afif Domingos para o senado em SP e aqui no PR os tucanos e pefelistas disparando de votos enquanto figuras petistas mais ligadas aos movimentos perderam votação, como o Rosinha
e a Dra. Clair, esta que por sinal não foi reeleita deputada. O Brasil e, em especial, o Paraná têm ficado mais conservadores e duvidando das candidaturas de esquerda. É assim inclusive no cenário do nosso movimento.

Acredito que é uma crise da falta de identidade da esquerda nos últimos anos, especialmente sob o governo Lula. Ao assumir uma agenda confusa e marcada pela manutenção das pautas tucanas na política econômica, este governo estabeleceu uma crise entre a própria esquerda, que se fragmentou. Para completar o cenário, as denúncias de corrupção feitas pelos próprios corruptos centenários dos partidos tradicionais (tipo "o sujo falando do mal lavado") desenharam uma situação de confusão completa na consciência das pessoas, afinal, para todos a esquerda ao menos se pautava pelas virtudes éticas.

As alternativas?

No cenário eleitoral, a confusão se manteve, com o debate centrado especialmente no temário da ética, coube ao PSDB o papel de denuncismo e ao PT a defensiva. Vedoins, sanguessugas e mensalão é o que mais se ouvia. O debate sobre projetos de país foi superficial e não conseguiu demonstrar as diferenças entre Lula e Alckmin.

Essas diferenças, na minha opinião, residem mais no campo do simbolismo, do referencial histórico e subjetivo das duas
candidaturas. E todos sabemos como símbolos são mais fortes que conteúdo. Uma forte diferença simbolica elimina, para a consciência das massas, semelhanças de conteúdo.

E foi nesse sentido que defendi e votei em Heloísa Helena no primeiro turno, também em especial por nossa ação no movimento, que pautou diversas críticas à condução do atual governo, à reforma universitária, da previdência e demais reformas neoliberais que surgem no horizonte bem como a essa postura de ajuste fiscal que prejudica as áreas sociais e favorece especialmente os banqueiros. No entanto, o símbolo Heloísa Helena ainda não foi tão forte quanto os
outros dois.

E agora este segundo turno reduziu as alternativas às duas opções simbólicas e, talvez na opinião de alguns, ainda existam mais diferenças.

Quais as diferenças?

Recebi um e-mail de alguém fazendo campanha contra o Alckmin lembrando que ele privatizou as estradas em São Paulo e agora quer privatizar as estradas no Brasil. É verdade, não tenho dúvidas disso. O PSDB é privatista e quer vender tudo, até o "aerolula" (rs). Pois hoje mesmo ouvi o Lula em entrevista na rádio Band sendo questionado sobre as concessões da BR 116 e 101 que serão pedagiadas, e ele afirmou que tem que ser pedagiadas mesmo, mas com um preço não abusivo e blábláblá. Ou seja, se a diferença é quem vai privatizar, essa não existe. O próprio governo Lula fez a lei das Parcerias Público Privadas que são um mecanismo de privatização.

O governo Lula vai aprofundar a reforma da previdência, vai fazer as reformas univesitária, trabalhista e sindical, políticas neoliberais do receituário imposto por nossos credores do sistema financeiro. Alguns vão dizer que vai ser mais "light" que o PSDB. Pode até ser, mas não consigo visualizar uma perda de direitos "menos pior", mais "light". Qualquer reforma neoliberal, indepentende da intensidade, é um mecanismo desestruturador do Estado, e é disso que estamos falando.

A reorientação do nosso projeto de país passa por rediscutir a dívida pública e pararmos de estufar os bolsos do capital financeiro.

Só assim podemos realmente investir em saúde, educação, geração de emprego e renda, seguridade social, etc. Infelizmente, isto não está na pauta do Lula.

Para resumir: Alckmin diz gostar do neoliberalismo, usa gravata amarela e tudo mais, já Lula diz que neoliberalismo é inevitável, é preciso trabalhar com esta realidade. Duas diferenças que ficam no campo do discurso, no fundo significam as mesmas coisas, mas com máscaras diferentes, são símbolos diferentes. Um foi operário grevista, outro é médico almofadinha, e por aí vai.

Então, o que fazer?

Do que foi dito acima, NADA justifica votar no Alckmin. Concluir isso seria absurdo. O tucanato é responsável por afundar nosso país no neoliberalismo e vender o patrimônio do povo. Com certeza o retorno da direita tradicional do PSDB/PFL é detestável de merece todo o repúdio. Só o que eu acho fundamental deixar claro é que não deve haver nenhuma esperança no Lula também. Em termos de conteúdo, o seu programa é o mesmo dos tucanos, como ele mesmo disse no debate da Band: o Alckmin deveria reconhecer e agradecer que o governo Lula aprovou a reforma da previdência que os tucanos queriam mas não conseguiram
realizar.

Tenham a clareza que Lula reeleito realizará privatizações, reformas neoliberais desestruturantes e assinará a ALCA, como aliás já tentou fazer no último governo.

Por isso eu digo aos que vão votar no Lula que não depositem nenhuma confiança nesse voto, o único benefício que ele apresenta é simbolico, pois na prática teremos que pressionar desde o começo contra a continuação das políticas neoliberais.
E é só esse o recado, eu espero que votando no Lula ou votando nulo, estejam todos firmes para as críticas.

Por ora, meu voto é nulo, mas estou aguardando a apresentação do projeto político do governo Lula, e posso repensar meu voto caso ele assuma alguns compromissos, como:

- Retirar os vetos de FHC ao Plano Nacional de Educação.
- Não apresentar nenhuma reforma trabalhista, sindical ou da seguridade social.
- Não privatizar a Petrobrás e os bancos públicos bem como paralizar os leilões de reservas de petróleo.
- Publicar a nova tabela com os índices de produtividade agrícola, que é uma demanda do MST.

Claro que eu não faço nenhuma diferença e ele não vai fazer isso por mim apenas. É só um comentário, uma condição. Não são grandes coisas, e são demandas bastante possíveis e realistas que podem fazer mais pessoas confiarem um pouco que existe realmente alguma diferença.


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24 setembro, 2006

charge





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Manifesto pela liberdade??

Mike Gabriel
Estudante de Ciência da Computação/UFS
Militante do PSOL

Quando comecei a dar passos maiores e mais firmes dentro da minha militância estive em contato e aprendi muita coisa com o PSTU, dentre essas coisas que as eleições não mudam em nada o rumo da vida dos trabalhadores e trabalhadoras, sobretudo com regras que claramente beneficiam aqueles que têm dinheiro, deixando os operários(as) e seus partidos de fora desse jogo de cartas marcadas.

Ao ler o tal manisfesto "Liberte-se", pregado em uma parede no campus da UFS minha primeira reação foi a de rir. Primeiro porque a reunião deste "movimento" era no Teimonde, bar burguesinho da praia de Atalaia, e segundo porque ficava cada vez mais patente a "direitização" do PT e seus satélites.

Vamos ver alguns trechos interessantes do manifesto.

"....Movimento Liberte-SE, um movimento suprapartidário e permanente ...."

Aqui vemos o termo suprapartidário, em uma visão rápida é uma coisa boa, democrática onde todos e todas podem participar, mas se nos debruçarmos sobre o termo em si, vemos que em suprapartidário cabem todos, inclusive a direita como os tucanos Maria Mendoça, Zé Teles, Ulices Andrande, Bosco Costa entre outras figurinhas que sempre fizeram parte das oligarquias que o PT diz querer derrubar em Sergipe. Não custa lembrar que se não fosse a verticalização Albano Franco estaria de braços dados com Déda e o PT.


"*Compreendendo que ao invés de apenas lamentar o flagelo e a indigência ética a que está submetida grande parte da classe política...."

O debate da ética é necessário mas não diferencia ninguém ideologicamente, existem políticos de direita que são éticos e isso não os faz serem opções. A corrupção que vemos aí é inerente ao sistema e aos que capitulam frente a ele, daí tanto Petistas quanto Pefelistas e tucanos estarem envolvidos até o pescoço com os escândalos de corrupção e nos dois casos é muita cara de pau "lamentar o flagelo e a indigência ética".

"...todo cidadão tem o direito e o dever de se organizar para proteger o seu futuro, o futuro da sua família, do seu Estado e do seu País;"

O mote do final desse trecho deu o pontapé inicial ao golpe militar de 64, precisa dizer mais??? Esse é o trecho mais reacionário de todo manifesto.

"*Compreendendo que as forças do atraso, da mesmice e da submissão estão fazendo uso de todas as formas possíveis e imagináveis para se perpetuarem no poder a qualquer custo;"

Nesse ponto tenho acordo que o João Alves e sua corja têm jogado sujo e muito, mas o PT e sua coligação estão aprendendo bem a lição, basta ver o uso eleitoral que foi dado a uma série de inaugurações feitas pela prefeitura de Aracaju, nas citações constantes ao nome de Déda no Forró Caju (totalmente fora de propósito com a festa, com o simples objetivo de promovê-lo) e com a campanha milionária que vemos nas ruas da capital e quem banca essa campanha não é a militância petista, então o vale-tudo também está do lado petista, seja usando o dinheiro dos aracajuanos para se promover e fazer campanha antecipada, seja usando dinheiro da burguesia oligárquica para sua campanha.


"*Compreendendo que as candidaturas de Marcelo Déda a governador e de Zé Eduardo para senador representam, no momento, a única via de mudança necessária para libertar o povo de Sergipe da nefasta oligarquia que a 30 anos se reveza no poder, privilegiando seus interesses privados em detrimento dos interesses públicos, gerando a fome e a dor na gente sergipana;"

Claro que o povo sergipano precisa ser liberto de suas oligarquias, não só o povo sergipano mas todos os trabalhadores e trabalhadoras do mundo inteiro precisam se livrar de toda e qualquer opressão.
Porém, afirmar que Déda e Zé representam, mesmo que no momento, a ÚNICA via de mundaça necessária para a libertação é negar o protagonismo da classe trabalhadora e sua autorganização. É uma afirmação messiância e reacionária até a medula.
No mais, dentro dos 30 anos de revezamento da "nefasta oligarquia" está o governo de Antônio Carlos Valadares, e o vice da chapa de Déda é do mesmo partido do ex-governador, ou seja, essa conversa de mudança é só jogo de retórica (vide o quase acordo com Albano e o apoio de expoentes tucanos). Déda e João têm o mesmo projeto de fundo e esse projeto jamais irá emancipar o povo sergipano.


"*Compreendendo que a sociedade civil não pode mais permitir que esses grupos políticos anacrônicos violentem o princípio básico da democracia que é a alternância de poder;"

O termo sociedade civil está longe de caracterizar os trabalhadores e trabalhadores e suas organizações, este termo geralmente diz respeito à burguesia nacional e quando muito à classe média. Mais uma vez, cabem todos, sobretudo aqueles que investem milhares de reais em campanhas cinematográfica, depois cobram a fatura e quem paga é o povo.

Como deu pra ver, esse manifesto é de direita para contrapor a direita. Infelizmente esse é o cenário posto para os sergipanos, continuar com a direita ou mudar com a direita. Por mais que Déda seja menos pior que João, afirmar que "só com Déda que Sergipe vai mudar", conforme a musica de sua campanha, é negar toda a luta do movimento operário e camponês na história de Sergipe.

Para engrossar a fileira dos que querem lutar e não acham que precisam de um tutor, que os trabalhadores e trabalhadoras são sujeitos da história é que estamos na "Frente de Esquerda", fazendo uma campanha militante, cheia de dificuldades e em grande parte sendo boicotados e até ridicularizados pela imprensa oficial pelo simples fato de não aderir ao pensamento único neoliberal e ao senso comum. Mas seguimos em frente, a frente de esquerda não acaba dia primeiro de outubro, continua junto à luta dos trabalhores do campo e da cidade.

Frente de esquerda é pra valer, pra derrotar João Alves e o PT!
Toeta - 16
Heitor - 500
Heloísa Helena - 50



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Os banqueiros sabem o que querem: Lula e Alckmin

Na edição anterior, este espaço foi ocupado por uma crônica com o sugestivo título "Afinal, o que quer essa mulher?" A mulher referida é a senadora Heloísa Helena. O texto desancava pesadamente a candidata à presidência da República pelo PSOL.

A pergunta é das mais pertinentes numa campanha eleitoral em que praticamente não há contornos programáticos definidos entre os dois postulantes à frente das pesquisas de intenção de voto. A questão não caberia se os sujeitos da oração fossem o presidente Lula (PT) ou o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB-PFL).

Não há nada mais previsível do que suas campanhas. Quem diz isso – vejam só! – é o banqueiro Olavo Setúbal, em entrevista à Folha de S. Paulo, em 31 de agosto último. Vamos a um trecho dela:

"Folha - Se ele ou o Alckmin for eleito, para o senhor tanto faz?
Setúbal - Não tem diferença do ponto de vista do modelo econômico. Eu acho que a eleição do Lula ou do Alckmin é igual.

Folha - Os dois são a mesma coisa?
Setúbal - Os dois são conservadores. Cada presidente tem suas prioridades, mas dentro do mesmo leque de premissas econômicas. Acho que o Lula vai conservar a premissa da linha de superávit primário, de metas de inflação e tudo o mais. São evoluções que estão consolidadas no Brasil e serão mantidas por qualquer presidente.”


Setúbal parece ter atendido a um apelo do próprio presidente Lula. Num rasgo de sinceridade, ele fez a seguinte declaração durante a inauguração de seu comitê eleitoral em Brasília, um mês antes: "Banqueiro não tinha porque estar contra o governo, por que os bancos ganharam muito dinheiro... Então, não tinham por que estar com tanta raiva e preconceito".

Estamos em meio a uma disputa eleitoral que encurta horizontes, amesquinha estratégias e transforma qualquer projeto de longo prazo em metas para 1º de outubro. Setúbal mostra que estamos diante da mais insossa e enfadonha campanha dos últimos anos.

Há uma razão básica para isso. Qualquer um que se dê ao trabalho de examinar as propostas econômicas do PT e do PSDB encontrará poucas diferenças reais entre elas. Os marqueteiros podem dourar a pílula e fazer a redação em estilos diferentes. Mas a essência das duas postulações tem como meta prosseguir com o ajuste fiscal, realizar mudanças constitucionais que desonerem o capital e penalizem o trabalho – como uma terceira reforma da Previdência, pretendida pelos dois candidatos – e manter cada vez mais as decisões do Estado nas mãos de interesses privados.

Estamos diante de duas vertentes do modelo neoliberal, uma mais à esquerda e outra mais à direita. Nenhuma delas visa melhorar a vida de nosso povo de forma duradoura. Uma tem uma bolsa-escola um pouco melhor, reajusta um pouco mais o salário mínimo, mas não se distancia do modelo herdado. Outra abusa do palavreado oco do "choque de gestão". Mesmo a política externa atual – área em que o governo Lula se sai um pouco melhor – apresenta problemas. Ela é ambígua. Há uma solidariedade a Hugo Chávez, dada apenas após o referendo revogatório em que se sagrou vitorioso em 2004 e um comportamento de dupla face em relação à Bolívia. Enquanto a diplomacia brasileira apresenta uma conduta louvável, a Petrobrás, pressionada por seus acionistas privados, busca endurecer o jogo com o governo Evo Morales. Não se pode esquecer também da falta de apoio à moratória argentina, em 2003, do envio de tropas brasileiras ao Haiti ou da abstenção em relação a Cuba, em duas oportunidades, quando uma comissão da ONU buscou condenar a Ilha por supostas violações de direitos humanos.

Se acharmos isso coisa pouca, olhemos para as manchetes da semana. Somente no mês de agosto, por conta da estratosférica taxa de juros, a dívida pública cresceu 25,08 bilhões de reais, três vezes mais do que é gasto em todos os programas sociais num ano. Quase metade dos jovens entre 16 e 24 anos está desempregada. A Volkswagen impõe uma chantagem ao país e inicia a demissão de 3.600 trabalhadores e nada acontece. E o país segue pelo caminho do baixo crescimento econômico, maior apenas que o do Haiti, um país mergulhado em guerra civil.

Vivemos tempos complicados para a esquerda brasileira. A eleição de Lula, em vez de potencializar debates, liberar forças sociais represadas e dar curso a transformações ainda que tímidas na estrutura social e econômica brasileira, teve efeito inverso. O presidente absorveu a formidável energia política dos 53 milhões de votos dados em outubro de 2002 – que misturavam apoio a uma pregação mudancista de 25 anos e um repúdio ao governo FHC – e transformou-a em impulso continuísta.

Com isso, semeou confusão e desalento entre a esquerda e o movimento popular e transformou-se numa providencial tábua de salvação para as classes dominantes – em especial, o setor financeiro – que viu seus representantes políticos serem repudiados nas urnas há quatro anos.

Alckmin, por sua vez, é a direita com cara de bom moço. Suas marcas principais são 69 CPIs abafadas na Assembléia Legislativa, o prosseguimento das privatizações e o descontrole na área de segurança pública e de direitos humanos.

Escolher entre Lula e Alckmin significa ter de optar entre o ruim e o muito ruim. Assim, já se sabe o que o petismo e o tucanato querem. Voltemos à pergunta do artigo mencionado no início: "Afinal, o que quer essa mulher?" A resposta é simples: quer um Brasil onde o povo não seja apenas um detalhe.

Gilberto Maringoni é jornalista, autor de A Venezuela que se Inventa - Poder, Petróleo e Intriga nos Tempos de Chávez e coordenador da campanha de Plínio de Arruda Sampaio (PSOL-PSTU-PCB) ao governo de São Paulo.

01 setembro, 2006

Repórter cubano burla democracia

Fausto Wolff

Diante da morte anunciada de Fidel, repórteres de centenas de democracias foram à ilha e comprovaram que existem prostitutas, engenheiros dirigindo táxis por falta de coisa melhor, escassez de comida e de medicamentos e, pior, não há eleições para presidente. Vivem, coitados, um eterno 1968. Diante da possibilidade de Cuba cair numa democracia, um repórter cubano veio ao Brasil e, após uma semana, me entrevistou:

RC - Por que milhões de pessoas moram em casas de cachorro?
FW - É gente trabalhadora que veio do campo, pois não tinha terra para plantar...

- Você está brincando. O Brasil pode ser o celeiro do mundo...
- É que as terras têm proprietários e, numa democracia, a propriedade privada é sagrada.

- Como os proprietários conseguiram as terras?
- Herança do pais. E esta é outra lei pétrea da nossa Constituição.
- E o pai ganhou a terra de quem?
- Do avô, que ganhou do bisavô, que ganhou do trisavô, que ganhou do tetravô, que, por sua vez, tomou as terras à força.

- Mas isso não é ilegal?
- Na época ainda não éramos uma democracia.
- E se o povo faminto tomar as terras?
- Isso seria antidemocrático. Teríamos que proteger as terras improdutivas com soldados e milhares morreriam, inclusive alguns soldados.
- Soube que só ontem, no Rio e em São Paulo, morreram mais pessoas em tiroteio do que no Líbano.

- É que levamos a nossa democracia a extremos nunca vistos no mundo. Os presidiários, embora destituídos de direito, também têm voz e da cadeia comandam um exército de marginais que não ama a democracia.
- E ainda assim vão liberar 11 mil presidiários no Dia dos Pais? Os chefes do PCC não vão se aproveitar para botar o bloco na rua?
- Não. Só sairão os mais bonzinhos, segundo o secretário de Segurança de São Paulo.

- O líder do PT na Câmara diz que gastará R$ 2,5 milhões na campanha para se eleger. Para ganhar isso com o salário de deputado, que é de R$ 15 mil, teria de trabalhar 11 anos.
- Isso acontece com a maioria deles. É gente que ganhou dinheiro honestamente na empresa privada e quer agradecer ao povo trabalhando praticamente de graça.

- Vocês fizeram CPIs e descobriram que havia ladrões nos Correios, no Ministério da Saúde, no Ministério de Ciência e Tecnologia, no Ministério da Fazenda, no Ministério da Justiça, no Senado, em centenas de prefeituras. Não poderia haver fraude em um ministério sem que todos estivessem envolvidos. Trata-se de uma democracia sob suspeita.
- Ao contrário. Os crimes só são descobertos em democracia.
- Mas ninguém foi para a cadeia e a maioria foi inocentada no Congresso.
- A isso chamamos ética democrática. Seria muito feio um deputado expulsar outro. As famílias se conhecem, as crianças freqüentam os mesmos colégios, vão às mesmas festas...

- Vocês têm tanto dinheiro... Por que não acabam com o analfabetismo, o desemprego, a miséria, a prostituição, o tráfico de drogas?
- Prostitutas vocês também têm. Poucas, mas têm. Agora respondo à sua pergunta: uma verdadeira democracia não distingue entre pobres e ricos. Sempre que sobra dinheiro para as reformas, alguns bancos vão à falência e, para evitar essa vergonha, o Banco Central dá o dinheiro das reformas para eles. O BNDS, agora mesmo, emprestou 1,7 bilhão de financiamento para uma companhia de celulose. É assim que a democracia funciona, pelo menos no modelo neoliberal, que é o nosso. veja o caso da Companhia Vale do Rio Doce. A primeira mineradora do mundo dava muito lucro. O presidente achou que o povo já havia ganho o bastante e a vendeu para particulares por R$ 3 bilhões. Eles já lucraram R$ 6 bilhões e ainda não pagaram o empréstimo.

- Mas Lula não era de esquerda e contra as privatizações?
- Era, e por isso foi eleito. Um mês depois da posse descobriu que se regenerou e tornou-se crente fervoroso do neoliberalismo
- E ele vai se reeleger?
- Parece que será eleito com o voto dos pobres e miseráveis que se identificam com ele, que já foi pobre e hoje tem até mulher com dupla cidadania e filho milionário.

- Confesso que não entendo uma democracia com tanta miséria, tanto crime, tanta safadeza.
- É que você nasceu numa ditadura sangrenta e despótica. Assim que Fidel morrer e os americanos instalarem uma democracia em Cuba, como instalaram no Brasil, você vai ver como é bom.




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