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05 dezembro, 2007

O Brasil passa por reprimarização

ORNAL DO COMMERCIO – 10.09.07

“O país só tem competitividade em produtos agrícolas e minerais”

Mariana Durãodo

Jornal do Commercio

Da ala dos heterodoxos, Reinaldo Gonçalves lança em duas semanas “A Economia Política do Governo Lula”, livro em parceria com o também economista Luiz Filgueiras. Professor do Instituto de Economia da UFRJ, Gonçalves diz que o trabalho visa a esclarecer a esquerda “perplexa” e todos interessados em entender para onde vai o Brasil.

Para ele, a vulnerabilidade externa do Brasil não diminuiu: a redução que se aponta decorre do contexto internacional , que, caso mude, fará o Brasil piorar mais do que a média dos demais países. O Risco Brasil permanece entre os cinco mais altos do mundo e , com a turbulência de agosto, saiu de 143 pontos para 213 pontos. O Brasil passa por “reprimarização” da pauta de exportações e caminha para uma especialização retrógrada. “O País só tem competitividade em produtos agrícolas e minerais. Há uma desindustrialização relativa ao resto do mundo.”

JORNAL DO COMMERCIO - O livro “A Economia Política do Governo Lula” não poupa críticas à política macroeconômica e social do PT. É possível resumir seus principais pontos de discordância em relação à administração do governo Lula?

REINALDO GONÇALVES - A primeira coisa é que o desempenho macroeconômico é medíocre, não só comparando com outros países, mas com a história do Brasil. Analisamos as principais variáveis macroeconômicas: variação da renda, hiato de crescimento (diferencial entre a variação da renda no Brasil e no mundo), investimento, vulnerabilidade externa, inflação e dívida pública. Comparando o Brasil do governo Lula com o mundo e com os governos republicanos no Brasil (1890-2006), não só ano a ano como os 30 mandatos, o atual governo é medíocre e desfavorável nas quatro primeiras variáveis.

Um ponto agravante é que isso acontece em um contexto internacional extraordinário. Estamos perdendo uma oportunidade histórica ímpar. Pelas escolhas de Lula estamos perdendo um ciclo extraordinário, aproveitado por países como Argentina e Venezuela. A avaliação geral do Governo Lula no livro é feita pelo Índice de Desempenho Presidencial (IDP - criado por Gonçalves e Filgueiras). O IDP médio do presidente Lula (medido de 0 a 100) é de 43,8, abaixo da média do conjunto dos presidentes brasileiros (57,5). No que se refere ao desempenho da economia Lula é o 4º pior presidente da história da República, atrás apenas dos governos Sarney, FHC (segundo mandato) e Collor. Mostramos também que há um desequilíbrio das finanças públicas, com a dívida interna subindo, o que tem a ver com a construção da política monetária, e vamos contra a corrente, dizendo que a vulnerabilidade externa no Brasil não diminuiu.

Então o senhor não reconhece méritos na política de ajuste externo do Governo?

RG - A vulnerabilidade é a probabilidade de um país resistir ou não a choques externos. Nos últimos quatro anos e meio a conjuntura internacional melhorou para o Brasil e o mundo todo, portanto é óbvio que os indicadores conjunturais de dependência externa melhoraram. Criamos, porém, um indicador de vulnerabilidade comparada e de vulnerabilidade de longo prazo, estrutural. Ela leva em conta o que está sendo feito para reduzir sustentavelmente a vulnerabilidade. Na vulnerabilidade comparada, comparamos o Brasil com o resto do mundo. Isso mostra que a melhora dos indicadores de vulnerabilidade externa da economia brasileira, a partir de 2003, decorre do contexto internacional favorável. Todo mundo melhorou, então na verdade o Brasil não melhorou. O Risco Brasil de 2003 a 2007 continua entre os cinco maiores do mundo. Se ele continua entre os cinco maiores, não se pode dizer que melhorou de fato. Se muda esse contexto mundial, ele vai piorar mais que a média. Em agosto, com a crise dos créditos subprime, o risco foi de 143 pontos para 213 pontos. Isso mostra que o País está frágil.

O senhor afirma que o governo optou pela “inserção passiva do país no sistema econômico internacional”. O que isso significa exatamente?

RG - Quando se estuda onde um país se insere no mundo, leva-se em conta as esferas comercial, monetária-financeira, produtiva real e tecnológica. Do ponto de vista comercial, o foco da política de exportação, do investimento em infra-estrutura e das negociações comerciais do Governo Lula hoje são as commodities. O que aprendemos desde sempre é que é preciso fazer um upgrade do comércio e sair de commodities para entrar em bens e serviços, de maior valor agregado. O que está sendo feito hoje é uma volta ao passado, ao açúcar, à borracha. Qual a maior aposta do governo? O etanol, além do minério de ferro, soja, ou seja, está havendo uma “reprimarização” da pauta de exportação. No dia em que esses preços se reverterem, vamos ter um problema sério. Estamos perdendo competitividade em manufaturados, produtos de alta tecnologia. O avanço é baseado em commodities por causa da conjuntura internacional. Estrategicamente é uma política equivocada, tanto do Itamaraty quanto de comércio exterior. A Rodada de Doha só não sai porque os europeus e americanos não estão dispostos a fazer uma abertura maior para os produtos agrícolas. Ela significaria uma abertura ainda maior do País para os produtos industrializados, significaria o Brasil reduzir ainda mais a proporção de seu mercado interno, o setor de serviços e a sua frágil indústria em nome do avanço do agronegócio.

O Brasil caminha então para se especializar na produção de commodities?

RG - Sim. O Brasil caminha para o que chamamos de especialização retrógrada, que envolve a fragilização do aparelho produtivo brasileiro. O País só tem competitividade em produtos agrícolas e minerais, com o esvaziamento da indústria brasileira. Há uma desindustrialização face ao resto do mundo, com a fatia brasileira no conjunto da produção mundial caindo. Além disso, não tem avançado na área de serviços. Isso tem a ver com a expansão do agronegócio, que se alega ser intensivo em tecnologia, o que é bobagem. Esse avanço tecnológico existe, mas se reflete no aumento de produtividade que vaza para o exterior via remessa de lucro das multinacionais e redução de preços.

E a política industrial do Governo Lula?

RG - Ela só existe no papel. O problema na economia é demanda e a política é um estímulo à oferta. Se eu não tenho demanda, para que investir? A política econômica do governo restringe a demanda, tornando a política tecnológica e industrial inócua.

O senhor vê alguma mudança de rumo entre o primeiro e o segundo mandato do governo PT?

RG - A essência da estratégia continua. Nesse último ano e meio tivemos basicamente uma política assentada na expansão do crédito e no assistencialismo, e uma redução de juros mais de quantidade que de qualidade da política monetária. Os pilares da política macroeconômica se mantêm: foco da política monetária no combate à inflação; política de megasuperávit; câmbio flutuante; liberalização cambial. Não mudou nada, só o grau da taxa de juro real e do superávit. Isso é secundário. A questão fundamental é que, ou a gente muda e constrói a política econômica em cima de quatro novos pilares ou mantém o que está aí. Lula levou um susto no ano passado e por isso veio com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que na verdade não muda em nada a natureza da política econômica desse governo, que é um modelo liberal periférico.

No livro, o senhor diz que o governo consolidou esse modelo liberal periférico seguido por Fernando Henrique Cardoso, legitimando a política econômica herdada dele com a ajuda do bom momento da política internacional. Não houve nenhuma evolução?

RG - Muito pelo contrário. Lula aprofundou esse modelo que está fragilizando o Brasil, gerando um esgarçamento do tecido social, degradação das instituições e da consciência política. Está havendo a “africanização” do Brasil, que está cada vez mais parecido com um país da África subsariana. É um país em que a cada semana se tem notícia de uma barbárie, uma matança. Hoje 40 dirigentes políticos de peso são acusados de formar uma quadrilha…

O senhor aponta que, ao contrário do governo FHC, em que as direções sindicais e partidárias eram fortes opositoras, o Governo Lula cooptou boa parte desses antigos atores sociais, hoje ocupando cargos no Estado. Qual a consequência disso para a sociedade brasileira?

RG - Uma herança que será pior que a de Fernando Henrique é a fragmentação que esse governo provocou no movimento social. A CUT (Central Única dos Trabalhadores) hoje não existe, deveria ser fechada. Lula provocou a fragmentação do Movimento dos Sem Terra (MST), considerado o movimento social mais robusto do País. As Organizações Não Governamentais (ONGs) se dividiram entre as que aderiram e as que ficaram perplexas. O que provoca é uma degradação muito grande das instituições, passando pelo próprio PT. Há uma sociedade cada vez mais inerte e bárbara, com o processo civilizatório regredindo.

E como fica a política social, que tem como carro-chefe o programa Bolsa Família?

- Não passa de assistencialismo populista. Não nego que tenha efeitos sobre a distribuição de renda, mas cria condições para a manutenção desse modelo liberal periférico que exclui. A política do Bolsa Família é um instrumento perverso, que combina a flexibilização e precarização do trabalho com as políticas focalizadas e flexíveis de combate à pobreza. No último capítulo do livro fazemos uma análise da distribuição de riqueza e vamos contra a corrente. Existe distribuição de renda, mas ela é intrasalarial. A riqueza está se concentrando, ou seja, os ricos estão mais ricos. A melhora na distribuição pessoal da renda (que exclui juros e lucros) vem acompanhada da piora da distribuição funcional, que coloca de um lado os salários e, de outro, juros e lucros. Tem havido melhora de distribuição de renda desde 1998, com Bolsa Família, benefícios da previdência e aumento do salário mínimo. No dia em que isso acabar aumenta a concentração de riqueza. Uma coisa é a distribuição de renda entre trabalhadores, outra entre eles e os capitalistas. Se o Brasil estivesse melhorando, o Bolsa Família estaria diminuindo, porque as pessoas sairiam à medida em que tivessem trabalho e renda própria.

O senhor ainda se considera de esquerda?

- Sim. O grande diferencial desse livro é ter um olhar para a política social e econômica pela esquerda.

A seu ver, quais seriam as alternativas de governo para uma administração de esquerda no Brasil?

O fundamental seria fazer uma revisão dos quatro pilares atuais. O Brasil é um quadrúpede macroeconômico e é preciso cortar suas quatro patas. A primeira coisa que tem de ser feita é reverter a liberalização cambial, financeira e comercial. O Brasil não aguenta essa liberalização toda. Em segundo lugar, o câmbio tem de ser administrado com uma taxa associada a um nível de reservas muito elevado, que reduza a vulnerabilidade externa e mantenha esse preço regulado em um nível realista. Se tivéssemos um dólar a R$ 3, deveríamos ter reservas de US$ 300 bilhões. De onde viria o dinheiro para compor essas reservas? Taxando a exportação de commodities, como na Argentina. Finalmente, a política monetária não pode só ser instrumento de combate à inflação. Pode-se usá-la para combater a inflação, mas não necessariamente a taxa de juros. O ideal é focá-la para o ajuste das finanças públicas e geração de emprego, com um juro real baixo (2%). Posso reduzir demanda e consumo, se aumentar o compulsório e reduzir os prazos de pagamento. Eu combato a inflação, mas descolo essa política da taxa de juros.

22 outubro, 2006

Um argumento crítico sobre o Bolsa Família


Valerio Arcary,
professor do CEFET/SP,
historiador,
é militante do PSTU.


A liberdade implica em poder de escolha por parte do consumidor e, quando confrontado com as necessidades realmente fundamentais, o consumidor não tem qualquer escolha. Normalmente não se“escolhe” entre pão e uma passagem aérea, entre educação básica e um segundo televisor, entre tratamento de saúde e um tapete persa. O dinheiro, enquanto meio para a liberdade do consumidor, é eficiente apenas para a escolha entre bens relativamente supérfluos – dado um alto grau de equidade de renda. Como um meio de se determinar os rumos básicos da alocação social de recursos, é passível de ser tanto injusto como ineficiente.[1]

Ernest Mandel

O Programa Bolsa Família é um programa de transferência de renda que beneficia famílias pobres (com renda mensal por pessoa de até R$ 120,00). Os valores pagos pelo Bolsa Família variam de R$15,00 a R$95,00 por mês, de acordo com a renda da família e o número de crianças. Ao entrar no Bolsa Família a família se compromete a manter suas crianças e adolescentes em idade escolar freqüentando a escola e a cumprir os cuidados básicos em saúde: o calendário de vacinação, para as crianças entre 0 e 6 anos, e a agenda pré e pós-natal para as gestantes e mães em amamentação. Em 2006 foram beneficiados mais de 11 milhões de famílias.

O Bolsa Família foi debatida na campanha eleitoral brasileira como sendo a principal política social do governo Lula. Os partidos que sustentam o governo do PT e os partidos da oposição burguesa disputaram os direitos autorais desta política – os petistas teriam se inspirado na experiência do governo Cristóvão Buarque no Distrito Federal, então ainda no PT, e os tucanos no projeto da prefeitura do PSDB em Campinas no Estado de São Paulo - garantindo todos, energicamente, que ela seria mantida. Esqueceram-se todos de admitir que as políticas sociais compensatórias focadas são um modelo de políticas públicas defendidas pelo Banco Mundial há mais de quinze anos: planos semelhantes foram sendo implantados no México, na Argentina, e no Chile. Em todos estes países as políticas sociais compensatórias criaram um novo modelo de clientelismo político associado ao controle dos cadastramentos e à cooptação dos movimentos sociais.

Reformas são hoje mais difíceis e estão sempre ameaçadas

No Brasil, os 10% mais ricos da população são donos de, pelo menos, mais de 45% do total da renda nacional – os números são aproximativos porque a renda do capital tende a ser subestimada - enquanto os 50% mais pobres – ou seja, mais de 90 milhões de pessoas – ficam com menos de 14% do total da renda nacional. Entre 50% e 70% da população é analfabeta ou não atribui sentido à linguagem escrita. A imensa desigualdade social, a extrema pobreza e a baixíssima escolaridade da maioria da população são a herança que o capitalismo brasileiro deixou para o século XXI.

Os socialistas estiveram sempre de acordo, historicamente, fossem reformistas ou revolucionários, na defesa da luta por reformas. As reivindicações salariais, a defesa do direito ao trabalho para todos, a redução da jornada do trabalho, por exemplo, são bandeiras tradicionais desde a fundação do movimento operário moderno. Suas diferenças se concentraram em apreciações opostas sobre a possibilidade ou não de reformar o capitalismo. Os moderados eram e são mais crédulos, e os radicais mais cépticos. Os gradualistas depositaram confiança na via da colaboração de classes: pactos nos sindicatos, pressões sobre os parlamentos, negociações com os governos. Os revolucionários nunca afirmaram que reformas não eram possíveis, mas repetiram que, em uma época de crise crônica do capital, seriam ainda mais difíceis que no passado, e mais efêmeras. Insistiram na luta de classes para que os trabalhadores desenvolvessem uma experiência prática de que todas as reformas conquistadas pela mobilização estariam sempre ameaçadas, enquanto o capitalismo estivesse de pé. Apostaram na capacidade dos trabalhadores e seus aliados de desenvolverem instinto de poder, e confiassem de que seria indispensável ir além da propriedade privada.

Nos últimos trinta anos, a história vem dando razão aos marxistas revolucionários. O capitalismo passou a atacar, em escala mundial, as reformas conquistadas pelas gerações anteriores. Os reformistas desertaram do campo da defesa das reformas e, para defendê-las, passou a ser necessária determinação revolucionária, até para construir greves por aumento de salários. Reformas progressivas e duradouras só foram conquistadas quando as classes dominantes se sentiram ameaçadas pelo perigo de revoluções, como no pós-guerra.

Reformas progressivas e reformas reacionárias

Os socialistas distinguiam reivindicações progressivas que estendem direitos, das reacionárias que aprofundam injustiças. A reforma agrária é somente uma reforma no acesso à propriedade da terra, porque não ameaça a sobrevivência do capitalismo, mas é uma reforma progressiva. Programas como o ProUni, por exemplo, são reacionários porque transferem verbas públicas para o ensino privado.

Os socialistas não contrapõem os programas sociais universais – como educação, saúde e previdência - aos programas sociais focados, típicos da assistência social que articula uma rede de proteção aos mais vulneráveis, como as crianças, os doentes e os idosos. O Estado deveria desenvolver, simultaneamente, ambos. São os neoliberais que defendem os segundos contra os primeiros, porque os investimentos em universalização de direitos pressupõem recursos muito volumosos, e exigiriam uma forte arrecadação fiscal. Os liberais querem diminuir a carga fiscal e redirecionar os gastos públicos para o pagamento da dívida e para investimentos em infra-estrutura que reativem os negócios.

Os dois principais argumentos críticos às políticas sociais focadas apresentados neste debate têm sido: (a) a desproporção entre o Bolsa Família e o oceano de miséria que há no país, que impede que esta política compensatória garanta, mesmo que em uma longuíssima duração, uma redução significativa da desigualdade, ao contrário do que já foi demonstrado pelo aumento do salário mínimo ou da garantia do pleno emprego; (b) o modelo assistencialista que perpetua a dependência dos beneficiados, e estabelece uma divisão na classe trabalhadora entre os que recebem e os que não recebem sem trabalhar, aceitando a premissa neoliberal que afirma que o Estado não teria a obrigação de garantir trabalho para todos. Estes argumentos são verdadeiros. Apresentaremos neste artigo um terceiro argumento: a distribuição de dinheiro é menos eficaz que a distribuição de produtos e perpetua a mercantilização dos bens mais intensamente necessários.

Desmercantilização dos produtos básicos ou distribuição de dinheiro?

O projeto socialista é a distribuição universal dos bens e serviços mais intensamente sentidos como necessidades básicas. Um processo gradual de redução do uso e, finalmente, eliminação da moeda seria possível, desde que as principais forças produtivas do mundo estivessem ao serviço das necessidades humanas. O projeto socialista não é uma proposta de diminuição do consumo da maioria, mas, ao contrário, a única forma de garantir a sua ampliação. Os socialistas sempre argumentaram que a socialização da propriedade e o planejamento estariam ao serviço da satisfação das necessidades mais sentidas, mas não concluíram que as necessidades individuais deveriam ser reprimidas. A premissa econômico-moral da superioridade do socialismo sobre o capitalismo é que as primeiras devem ter prioridade sobre as segundas. A distribuição gratuita dos bens e serviços mais necessários é uma forma mais racional e econômica de repartição que a entrega de dinheiro – o critério dos projetos de renda mínima - e a venda de mercadorias. Mandel demonstrou este argumento em Socialismo versus Mercado:

A África contemporânea fornece um outro exemplo dessas verdades. Quando a fome devasta o Sahel, quem condenaria a distribuição de alimentos por rações aos famintos como um exemplo de alocação "ditatorial", reduzindo os esfomeados a ''servos" – quando lhes vender comida os faria ''mais livres"? Se uma epidemia grave irrompe em Ban­gladesh, a distribuição controlada de remédios deve ser considerada nociva se comparada com sua compra no mercado? A realidade é que é muito menos custoso e mais razoável satisfazer as necessidades básicas através da distribuição direta – ou redistribuição – do total de recursos disponíveis para elas, e não pelo caminho indireto da alocação por dinheiro no mercado. (grifo nosso)[2]



Mandel nos alerta para uma conclusão muito simples. O planejamento é um mecanismo de regulação mais eficiente do que o mercado para a satisfação das necessidades mais sentidas. Um planejamento à escala mundial poderia garantir a distribuição dos produtos mais indispensáveis à vida para todos os habitantes do planeta. Queremos todos, no essencial, os mesmos produtos. Gastamos nossos recursos na satisfação das mesmas necessidades, sejam elas materiais ou culturais. Não há razão alguma que nos condene a viver em um planeta em que a esmagadora maioria da humanidade só tem pela frente um futuro de privação, ignorância e embrutecimento. O dinheiro só é mais eficaz do que o planejamento, quando pensamos a distribuição dos produtos de consumo idiossincrático que as pessoas, de carne e osso, só se propõem adquirir depois que as necessidades elementares de alimentação, residência, transporte, educação, saúde, previdência e lazer foram satisfeitas. Mais adiante Mandel conclui:

O dinheiro e as relações de mercado, em contraste se consubstanciam como instrumentos de garantia à maior liberdade do consumidor na exata medida em que as necessidades básicas tenham já sido satisfeitas.(...) Se a sociedade democraticamente decide dar prioridade alocativa à satisfação das necessidades básicas, ela automaticamente reduz os recursos disponíveis para a satisfação de necessidades secundárias ou de luxo. Este é o sentido no qual não há escapatória de alguma “ditadura sobre as necessidades”, por tanto tempo quanto as necessidades básicas insatisfeitas não se tornem, por completo, de natureza marginal. Mas é aqui que o argumento político em favor do socialismo se torna mais claro e óbvio. Pois, seria mais justo sacrificar as necessidades básicas de milhões de indivíduos ou as necessidades secundárias de dezenas de milhares? Fazer essa pergunta não equivale a sancionar a frustração das necessidades mais sofisticadas que vêm se desenvolvendo com o avanço da própria civilização industrial. O projeto socialista é o de uma gradual satisfação de mais e mais necessidades, e não uma restrição a requisitas básicos. Marx nunca foi um defensor do ascetismo ou da austeridade..[3]



Não há estudo algum que garanta que a entrega de dinheiro para as pessoas em condição de miséria absoluta, como o Bolsa Família, seja mais eficaz que a distribuição gratuita dos produtos mais intensamente necessários. O próprio governo Lula reconhece que a finalidade desta política social focada – a redução da subnutrição – pode não ser alcançada, se o dinheiro não chegar primeiro às mãos das mães de família. Não é preciso uma especulação muito longa para compreender que o Estado teria condições de compras muito mais vantajosas, por razões de escala, se estivesse disposto a assumir a distribuição direta, estimulando a auto-organização popular da fiscalização do cadastro.

A distribuição indireta pela alocação de dinheiro é justificada, argumentando-se que a corrupção endêmica poderia ser driblada pela entrega do cartão bancário. Mas, os próprios defensores das políticas sociais focadas são obrigados a admitir que o cadastro das famílias alvo do programa pode ser manejado com segundas intenções pelas autoridades locais responsáveis pelo cadastramento. A manipulação política da miséria, por outro lado, não parece ter diminuído com os cartões da Bolsa Família. A corrupção é intrínseca a um sistema social incapaz de diminuir as desigualdades sociais.

Acontece que as premissas ideológicas do liberalismo exigem que o lugar do Estado seja, politicamente, subvertido, em relação à etapa histórica anterior. Os neoliberais não podem admitir a desmercantilização dos produtos mais intensamente necessários à sobrevivência. Não só não estão dispostos à garantir a distribuição gratuita dos alimentos aos famintos ou dos remédios aos doentes, como passam a defender, ostensivamente, a privatização dos serviços públicos universalizados nos países centrais na etapa do pós-guerra. No Brasil, a decadência da saúde pública e as restrições às condições das aposentadorias foram responsáveis pela expansão, a partir dos anos oitenta e noventa, da medicina e da previdência privada. Tony Blair e George W. Bush são, por sua vez, entusiastas defensores que o Estado entregue dinheiro às famílias para que elas escolham aonde os seus filhos queiram estudar na rede pública ou privada. Já o governo Lula defende a anistia fiscal do ensino superior privado em troca de matrículas. Esta regressão social das políticas públicas do capitalismo é uma das caras da barbárie que cresce no mundo.

[1] MANDEL, Ernest, Socialismo versus mercado, São Paulo, Ensaio, 1991, p.54/5/6

[2] MANDEL,Ernest, Ibidem, 1991, p.55.

[3] MANDEL,Ernest, Ibidem, 1991, p.56.




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