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16 fevereiro, 2009

Por que não funcionam os núcleos de base

Os políticos falam todo o tempo de consulta às suas bases. Mas a realidade é que núcleos de base não funcionam em nenhum dos nossos partidos políticos, inclusive os de esquerda.

A experiência do PT, nos anos oitenta, teve vida brevíssima e sofreu o mesmo destino dos soviets na Rússia soviética.

Há uma explicação para isto.

O sujeito leva um tempão para aprender a lidar com o Windows. Se quando ele consegue esse feito, alguém lhe sugere mudar para o Linux, ele reage negativamente.

Este primeiro obstáculo para o funcionamento do núcleo de base é do mesmo tipo que a troca de programa de computador: o militante leva um bom tempo para inteirar-se a respeito da revolução socialista. No partido, ele aprende que esta só acontecerá quando as massas se levantarem, mas que as massas são inconscientes e desorganizadas, movimentando-se em função do estímulo de suas vanguardas. Aprende também que a vanguarda da massa não pode gerar uma consciência política se não for estimulada por uma força externa, surgida entre os dissidentes da burguesia agrupados em um partido: a vanguarda da vanguarda.

O partido tem que funcionar como um exército monolítico, sob o comando de uma direção eleita pelos militantes, mas, uma vez empossada, detentora do poder de dirigir as ações, na base do "centralismo democrático".

Ora, o primeiro requisito para que os núcleos de base funcionem é a mudança radical desse conceito de direção do partido revolucionário. Os núcleos só poderão ser dinâmicos e formadores de quadros socialistas se forem envolvidos permanentemente no processo decisório da agremiação.

Não basta eleger delegados para defender teses e candidaturas em plenárias, conferências e convenções partidárias, que se reúnem de tempos em tempos. A linha política decidida nesses conclaves é executada por meio de uma miríade de decisões particulares, o que abre caminho para distorção da vontade expressa das bases e para a usurpação do poder da base por oligarquias burocráticas. É indispensável, portanto, desenvolver formas de participação mais freqüentes de todos os militantes no processo decisório, se se quiser, de fato, que os núcleos de base funcionem.

É possível fazer funcionar um sistema em que, antes de tomar uma decisão, a direção partidária consulte todos os seus militantes?

Não há condições de responder a essa pergunta sem fazer experiências.

Elas se chocam com o pensamento conservador: "não há necessidade de andar procurando novidades, Lenine já disse tudo".

Este não é, contudo, o único obstáculo à mudança do conceito de direção nos partidos socialistas.

À resistência (aberta ou tácita) da "nomenklatura" soma-se a resistência da própria base, integrada que está por pessoas hereditariamente excluídas da participação em uma atividade que a classe dominante reservou para si. Pessoas dominadas por gerações e gerações tendem a introjetar a subalternidade da classe social à qual pertencem: simplesmente não acreditam que sejam capazes de entender as complexas questões do governo. Para elas, isto é assunto para doutores, advogados, engenheiros, pessoas "estudadas".

Mudar hábitos culturais é processo lento e trabalhoso. Não se completa se não for iniciado. Esta é a grande responsabilidade das lideranças que teimam em reviver o socialismo no século XXI. As derrotas que vêm sofrendo deveriam levá-los a, pelo menos, fazer algumas experiências.


02 janeiro, 2008

O marxismo e a questão cultural

[Publicado originalmente em 1968 como prefácio à obra Literatura e Revolução, de Leon TROTSKY; reeditada em 2007 por Zahar Editores (4ª. ed.)].

Que atitude deve adotar a revolução diante da literatura e a arte? Poderá o proletariado, assumindo a posição de classe dominante na sociedade, criar a sua própria cultura, como o fez a burguesia?

Estes problemas, a que os fundadores do socialismo científico não dedicaram especial atenção, os bolcheviques tiveram de enfrentar, após a tomada do poder, em 7 de novembro de 1917[1]. O torvelinho da revolução envolveu, de uma forma ou de outra, os escritores, poetas e artistas. A torre de marfim desmoronou. A indiferença da arte pura pela participação política manifestou seu verdadeiro sentido de classe. Uma grande parte da intelligentsia não escondia o desprezo e extravasava seu ódio contra os vândalos, os usurpadores, o populacho, em suma, contra os bolcheviques, principalmente contra Lênin e Trotsky. As musas da burguesia e da nobreza, quando não se engajavam na guerra civil, ao lado dos brancos e da Entente, silenciavam, emudeciam, não suportavam as privações, a fome e o frio, a promiscuidade com a plebe. Escritores e poeta ou fugiam para o exterior ou se isolavam, com horror e alheios ao mundo que emergia, como estrangeiros dentro do seu país, os emigrados internos, segundo a expressão com que Trotsky os batizou.

Não lhes restava outro caminho senão buscar o passado. E quanto mais remoto, tanto melhor. Aldanov agarrava-se à Revolução Francesa de 1789. Boris Zaisev ressuscitava as figura do renascimento italiano. E Dmitri Merejkovsky retornava ao Egito dos faraós, à Babilônia e a Mesopotâmia. Outros, como Z. Gippius, L. Andreyev, M. Artsbachev e A Kuprin, simplesmente odiavam. A intelligentsia, comprometida, na sua maioria, com as classes derrubadas pela revolução, mergulhou o Poder Soviético num clima de hostilidade, e entre os anos de 1918 e 1919, a antiga literatura e a antiga arte ruíram com o regime social a que serviam como superestrutura ideológica.

Não se pode dizer, entretanto, que toda a intelectualidade passou para a contra-revolução. Valeri Briusov, Alexandre Blok, Serge Essenin, Maximo Gorki, Vladimir Maiakovsky, Serafimovitch e Natan Altman, entre outros, apoiaram o Governo Soviético. Novas escolas artísticas e literárias, como o futurismo, o imaginismo, o construtivismo, os Irmãos Serapion, os forjadores, floresceram no campo da revolução. Havia, naturalmente, certa ambivalência nas relações entre essas escolas e os dirigentes bolcheviques. Lênin olhava com desconfiança o futurismo. Ainda preferia Tolstói, Puschkin, Checov, Shakespeare, Shiller e Byron. Não porque repelisse as inovações, mas porque desejava uma arte acessível às massas e não apenas para deleite de meia dúzia de intelectuais. “Várias vezes tentei ler Maiakovsky e nunca pude ler mais que três versos: sempre durmo” – comentava.

Não aceitava, por outro lado, a tendência para a criação da cultura proletária, representada pelo Proletkult, que, sob a inspiração de A. Bogdanov e de Lebedev-Polianski, contava com o patrocínio do Comissariado da Instrução, dirigido por A. Lunatcharsky, e a simpatia de Bukharin. Interveio e exigiu que o Congresso do Proletkult, realizado em Moscou (1920), aprovasse uma resolução, por ele próprio redigida, condenando “com a maior energia, como inexata teoricamente e prejudicial na prática, toda tentativa de inventar uma cultura especial, própria”. E, quando o Pravda publicou um artigo em que Pletnev manifestava a sua intenção de estudar ciência proletária. Lênin repreendeu Bukharin por permitir a publicação daquele disparate e escreveu que “o autor não deve estudar ciência proletária, mas, simplesmente, estudar”.

Coube a Trotsky, cujas opiniões coincidiam, de modo geral, com as de Lênin, abordar mais profundamente esses problemas. Não pretendia escrever um livro e sim o prefácio para um volume de suas Obras, que as Edições do Estado lançariam. Era o verão de 1922, e ele, depois de recusar o posto de vice-presidente do Conselho de Comissários do Povo, que Lênin lhe oferecera, partiu de férias para o interior da Rússia. O prefácio cresceu tanto que se converteu num livro e Trotsky só pode terminá-lo no verão seguinte. Assim apareceu Literatura e Revolução. Trotsky não só criticava, do ponto de vista dialético, as principais tendências artísticas e literárias da Rússia pós – revolucionária, seus principais intérpretes, com Biely, Blok, Essenin, Maiakovsky e outros, como estudava, detidamente, a atitude que o Partido Comunista deveria adotar e a questão da cultura proletária.

O Partido Comunista, no seu entender, não deveria interferir nas controvérsias e nas disputas entre as diversas escolas, assumir a posição de um circulo literário, concorrendo com outros, mas salvaguardar os interesses históricos do proletariado, no seu conjunto. Como que prevendo a degenerescência do estalinismo, que, posteriormente, criou uma arte oficial, na verdade acadêmica e burocrática, sob o epíteto de realismo socialista, Trotsky proclamaria: a arte não constitui um terreno onde o Partido possa mandar. O Partido pode e deve conceder um crédito de confiança aos diversos grupos que procurem, sinceramente, aproximar-se da revolução, afim de ajudá-los na sua realização artística.

Significava esse ponto de vista uma concessão ao liberalismo? Não. Ele próprio salientava:

“O Partido, evidentemente, não pode entregar-se ao principio liberal do laissez-passer, mesmo na arte, mesmo por um só dia. A questão é saber quando deve intervir, em que medida e em que caso.”

Ensinava ainda:

O Partido orienta-se por critérios políticos e repele, na arte, as tendências nitidamente venenosas e desagregadoras.”

E mais adiante:

“Se a revolução destrói pontes ou monumentos, quando preciso, ela não hesitará em bater toda tendência artística que, por maiores que sejam as suas realizações formais, ameaçasse introduzir fermentos desagregadores nos meios revolucionários ou jogar, umas contra as outras, as forças internas da revolução, ou seja, o proletariado, o campesinato, os intelectuais. Nosso critério é, decididamente, político, imperativo e intolerante. Daí a necessidade de definir seus limites.”

A ele, porém, como aos fundadores do socialismo científico, repugnava a arte dirigida, instrumento puro e simples de propaganda partidária. A arte, como produto da vida social, reflete, não só pelo conteúdo como pela forma, as realidades de uma época e todas as suas contradições. Não existe, desse modo, arte sem conteúdo ou tendência. Imprimir-lhe, todavia, o caráter de propaganda partidária é convertê-la de sistematização de idéias. E a arte deixa de ser arte.

“O artista” – escrevia Plekhanov[2] – “expressa seu pensamento por meio de imagens, enquanto o publicista comprova suas idéias com argumentos lógicos em lugar de imagens, ou se as imagens, que criou, lhe servem para demonstrar tal ou qual assunto, não se trata de um artista, mas de um publicista, mesmo que escreva, em vez de ensaios e artigos, romances, novelas ou peças de teatro.”

A compreensão da arte dirigida, instrumento de propaganda política, jamais encontrou apoio nas teorias de Marx e Engels. Analisando a tragédia de Lassalle, intitulada Franz Von Sckingen, Marx aconselhou-o a seguir o exemplo de Shakespeare, porque via na “schillerização a transformação dos personagens em simples porta-vozes do espírito do século”, o seu maior defeito[3]. Engels, por sua vez, reiterava:

“Não sou em absoluto adversário da poesia de tendência como tal... Mas creio que a tendência deve surgir da própria situação e da própria ação, sem que seja explicitamente formulada. O poeta não é obrigado a dar pronta aos leitores a futura solução histórica dos conflitos que descreve[4]."

Shakespeare retratou os homens e a sociedade do seu tempo. A agonia de uma classe e a ascensão de outra. As tendências de seus dramas são as tendências do próprio desenvolvimento social de que brotaram. Schiller, ao contrário, transformou o teatro numa tribuna para sustentar suas teses. Estas não apareciam, como em Shakespeare, na medida do real desenrolar dos acontecimentos. O desenrolar dos acontecimentos é que estava em função do ideal, em função de suas teses. Wilhelm Tell consagrava o direito de assassinar tiranos. Por mais nobres que fossem suas atitudes políticas e seus ideais, a intencionalidade prejudicou a grandeza artística de sua obra.

“Quanto mais as opiniões (políticas) do autor ficam escondidas” – ponderava Engels[5] – “tanto melhor para a obra de arte. O realismo de que falo se manifesta mesmo fora das idéias do autor.”

E, anos mais tarde, Lênin repetira o mesmo, a propósito de Tolstói[6]:

“Se estamos diante da de um artista verdadeiramente grande, ele deve refletir, em suas obras, ao menos alguns aspectos essenciais da revolução.”

Essa orientação, contrária a que se transforme a arte em instrumento de propaganda partidária, foi seguida por outros intérpretes do marxismo como Franz Mehring e Rosa Luxemburgo. Rosa Luxemburgo declarou categoricamente:

“Esta novela, sem dúvida, não me agradou tanto como O Homem Rico e não apesar de (sublinhado pela própria R. L.), senão precisamente porque (idem) a tendência social é nesta mais acentuada. Numa novela não busco nunca o fundo, mas, antes de tudo, o seu valor artístico[7].”

A orientação de Trotsky, no que se referia à questão da cultura proletária, também acompanhava a tendência geral do pensamento de Marx e Engels, endossada por Lênin.

“O Marxismo” – dizia Lênin[8] – “conquistou sua significação histórica universal, como ideologia do proletariado revolucionário, porque não rechaçou, de modo algum, as mais valiosas conquistas da época burguesa, mas pelo contrário, assimilou e reelaborou tudo o que houve de valioso em mais de dois mil anos de evolução do pensamento e da cultura da humanidade.”

Lênin considerava ainda “profundamente justas e importantes” as palavras de Kautsky, quando salientava que “não é o proletariado o portador da ciência contemporânea, senão os intelectuais burgueses (sublinhado por K.K.)[9]. E não somente as ciências. As artes também. O proletariado – Explicava Rosa Luxemburgo[10] – “Nada possuindo, não pode, na sua marcha para frente, criar uma cultura nova em folha, enquanto conservar-se nos quadros da sociedade burguesa”. E concluía:

“Tudo o que pode fazer hoje é proteger a cultura da burguesia contra o vandalismo da reação burguesa[11]...”

Mas, uma vez libertado das cadeias do capital, poderia o proletariado criar a sua própria cultura? As condições econômicas, sociais e políticas não o permitiriam. A sua ditadura constituiria um semi-Estado, um Estado em desaparecimento, um regime de transição. Como construir uma cultura e uma arte do proletariado, se, com o estabelecimento de sua ditadura, começaria o processo do seu desaparecimento como classe? A arte e a literatura tomariam, naturalmente, outro cunho, novas formas, durante os anos de poder operário, em via de definhamento. Novas formas, não impostas por decretos nem predeterminadas burocraticamente, mas refletindo, como superestruturas, as situações históricas e o processo social da extinção das classes e, em conseqüência, do Estado.

A burguesia pôde desenvolver uma cultura e uma arte próprias. O destino histórico do proletariado, todavia, é bem diverso. O seu papel, ao assumir o poder, não é organizar outra sociedade de classes e sim acabar todas as classes da sociedade. Explica-se a sua ditadura como um regime de transição, em que, destruindo a burguesia, o proletariado destruirá a si mesmo como classe. Não poderia haver, portanto, uma cultura e uma arte proletárias, precisamente quando todas as classes começam a desaparecer. Não teriam sentido. Nem seriam possíveis. O marxismo jamais pretendeu substituir a dominação de uma classe por outra, mas liquidar com todas. Este o objetivo claro do poder transitório do proletariado. Um poder que definha na razão direta do desaparecimento das classes e, por conseguinte, do proletariado. A condição de existência de uma é a condição de existência da outra.

Rosa Luxemburgo indicava que “a classe operária só poderá criar uma arte e uma ciência própria depois de libertar-se completamente de sua atual situação de classe"[12]. E, criando uma arte e uma ciência próprias, após libertar-se de sua atual situação de classe, estas já não seriam proletárias, mas socialistas. Por isso Trotsky repetia que "a vitória histórica e a grandeza moral da revolução do proletariado consistem na colocação da primeira pedra de uma cultura em que não haverá diferenças de classes e que, pela primeira vez, será verdadeiramente humana”[13].

O livro de Trotsky provocou uma série de controvérsias. Tanto Lunatcharsky como Bukharin continuaram a defender o Proletkult, apesar da oposição de Lênin e das críticas de Trotsky. Lunatcharsky, embora considerasse a obra verdadeiramente notável, chegando mesmo a declarar que subscreveria sem vacilar os pontos de vista de Trotsky quanto ao comportamento do Partido Comunista diante dos intelectuais, principalmente dos paputchiki[14], atacou a sua concepção de cultura proletária. Trotsky, reconhecendo, segundo ele, apenas as culturas do passado – feudal e burguesia – e a cultura do futuro – socialista – apresentava a ditadura do proletariado como um período estéril de realizações artísticas e literárias. Bukharin, por sua vez, argumentava:

“A posição do companheiro Trotsky é errônea por uma simples razão. O companheiro Trotsky, em primeiro lugar, não leva em conta a duração do período da ditadura do proletariado. Em segundo lugar, não leva em conta a desigualdade do desenvolvimento da ditadura do proletariado nos distintos países. Conquistamos o poder. Temos a ditadura do proletariado. Mas temos essa ditadura do proletariado em condições concretas, caracterizadas pelo fato de que se acha rodeada de inimigos. Estamos em presença de um longo caminho da ditadura do proletariado, porque a conquista do poder pelo proletariado, em todos os países, se efetua de modo desigual. Conquistamos o poder num país. Em outros, não. Encontramo-nos diante de uma premissa: o prolongamento do caminho da ditadura do proletariado, o desenvolvimento desigual do movimento operário. Por isso, a literatura, que se forma, geralmente, imagem e semelhança da classe dominante, adquire inevitavelmente, traços específicos. Pode-se dizer o mesmo em outros termos: o companheiro Trotsky, na sua construção teórica, exagera a cadência de desenvolvimento da sociedade comunista ou, em outras palavras, o companheiro Trotsky exagera a rapidez do desaparecimento progressivo da ditadura do proletariado. Daí o seu erro teórico, do qual se deduzem as conseqüências que tirou.”

Se de um lado, Trotsky e Lênin tinham razão no problema da impossibilidade de uma cultura proletária, a previsão de Bukharin, quanto ao ritmo de desenvolvimento da revolução proletária mundial, mostrou-se mais acertada. Não que, depois de 1923, Lênin e Trotsky esperassem a vitória imediata do socialismo na Europa. Perceberam que se iniciava um período de refluxo. Trotsky, quando escreveu Literatura e Revolução, contava com décadas de lutas e, por isso mesmo, argumentava que as energias do proletariado não poderiam voltar-se para as questões da arte e da literatura. Talvez, porém, não imaginasse, àquela época (1923), que o refluxo se manifestasse de forma tão dramática, dentro da própria União Soviética, e as décadas de lutas acumulassem derrotas. E, conseqüentemente, a sua tese implicava certo exagero quanto ao desaparecimento da ditadura do proletariado, como dizia Bukharin.

Mas, se, por um lado, o proletariado, até 1945, não conseguiu nenhuma vitória, conforme Lênin e Trotsky esperavam, não pôde, por outro, criar, dentro da União Soviética, uma literatura e uma arte próprias. As obras do realismo socialista refletiram, pela sua mediocridade, não o desenvolvimento de uma cultura proletária, mas a degenerescência burocrática, que se cristalizou no estalinismo, exatamente por causa da desigualdade do desenvolvimento da ditadura do proletariado nos distintos países, ou, em outras palavras, por causa do atraso da revolução mundial. A literatura e arte daquele período se formaram à imagem e semelhança da burocracia.

As divergências entre Trotsky e Bukharin, no plano da cultura, constituíam apenas um aspecto de um conflito político mais profundo, que se tratava entre as diversas facções do partido Bolchevique e os dois interpretavam. Trotsky, teórico da revolução permanente, defendia o ritmo de coletivização e industrialização da URSS. Bukharin, àquele tempo (1925), situava-se na ala direita, simpatizava com o kulak, o camponês abastado, propugnava pela concessão de incentivos aos agricultores, desejava a industrialização em passos de tartaruga e, finalmente, fornecia a Stálin a munição teórica para a tese do socialismo num só país.

A derrota de Trotsky, após a morte de Lênin (1924), correspondeu, também, o estrangulamento de toda a atividade criadora, existente nos primeiros anos da revolução. A burocracia estendeu a sua teia sobre o terreno das artes e da literatura. Bukharin, que defendera o Proletkult, passou a defender juntamente com Karl Radek[15], a teoria do realismo socialista, que orientou em A. A. Zhdanov o seu máximo expoente:

“O camarada Stálin chamou os nossos escritores de engenheiros da alma humana. Esta definição te um significado profundo. Ele fala da enorme responsabilidade dos escritores soviéticos no que se refere à educação do povo, à educação da juventude. E fala da necessidade de não tolerar a dissipação no trabalho literário (...) Guiado pelo método do realismo socialista, estudando, atenta e conscienciosamente, nossa realidade, esforçando-se para penetrar, mais profundamente, na essência do processo de nosso desenvolvimento, o escritor deve educar o povo e armá-lo ideologicamente (...) Se a ordem social feudal e logo a burguesia, no período de seu florescimento, puderam criar uma arte e uma literatura, que afirmou o estabelecimento da nova ordem e cantou o seu apogeu, nós, que representamos uma nova ordem, a ordem socialista, a encarnação de tudo o que há de melhor na história da civilização e da cultura humana, estamos na melhor das posições para criar a literatura mais avançada do mundo, literatura que deixará muito atrás os melhores exemplos do gênio criador de todos os tempos.”[16]

Estas palavras retratam, fielmente, a mentalidade dominante, na União Soviética e nos países socialistas da Europa oriental, ao tempo de Stálin, mentalidade que, de certa forma, ainda sobrevive. A escola do realismo socialista não conseguiu, entretanto, impor os seus cânones estéreis a todos os países onde a revolução triunfou, depois de 1945. As concepções de Mao Tsé-Tung, pelo menos até a época da revolução cultural, aproximava-se muito mais das posições de Lênin e Trotsky do que das posições do realismo socialista.

“Estudamos o marxismo” – dizia Mao Tsé-Tung[17] – “com o objetivo de aplicar o ponto de vista do materialismo dialético e materialismo histórico na nossa observação do mundo, da sociedade, da arte e da literatura, e não com o objetivo de escrever discursos filosóficos em nossas obras artísticas e literárias. O marxismo abarca o realismo na criação artística e literária, mas não pode substituí-lo, do mesmo modo que abarca as teorias atômicas e eletrônica, na Física, mas não pode substituí-las. Os dogmas e as fórmulas vazias e esquematizadas destruíram, com certeza, nosso impulso criador e, mais ainda, destruiriam, em primeiro lugar, o marxismo.”

Defendia, como Lênin, Trotsky e Rosa Luxemburgo, a preservação da herança cultural da humanidade, contra o esquerdismo artístico e literário:

“Devemos apoderar-nos do rico legado deixado pela arte e pela literatura do passado, tanto na China como do estrangeiro, continuar suas belas tradições. Mas devemos fazê-lo com nossos olhos postos nas grandes massas do povo.”[18]

E insistia:

“Devemos apoderar-nos de todo o belo legado artístico e literário, assimilá-lo em tudo o que é benéfico para nós e elevá-lo como um exemplo, quando tentamos elaborar a matéria-prima artística e literária, proveniente da vida do povo, do nosso próprio tempo e lugar.”[19]

Mao Tsé-Tung, como Trotsky, admitia “a livre competição de todas as variedades de obras artísticas”.

“Devemos rechaçar o sectarismo em nossas críticas artística e literária e, sob o princípio geral de unidade e resistência ao Japão, tolerar todas as obras literárias e artísticas que expressem todo gênero de atitude política.”

Salientava, igualmente, a necessidade de “estabelecer juízos acertados” sobre todas as variedades de obras artísticas, “segundo o critério da ciência da arte”, e mostrava que “as obras de arte, por mais progressistas que sejam, politicamente são impotentes, se carecem de qualidade artística”.[20]

Fidel Castro, em Cuba, permitiu também a mais completa liberdade de criação artística e literária, no campo da revolução, admitindo o florescimento das mais diversas escolas. "Prefiro um bom poema de amor a um mau poema político, porque o mau poema político desserve a revolução" – diria, num discurso dirigido aos intelectuais. A sua luta contra o sectarismo (e ele mesmo ressalta que não se pode confundir sectarismo com radicalismo) tomaria uma amplitude muito maior, na sua política cultural, encarando a revolução como uma escola de pensamento livre, que não precisa de truques nem de fraudes para defender-se.[21]

Os problemas que Trotsky levantou, em Literatura e Revolução, continuam, assim, na ordem do dia. A literatura e a arte serão espelho ou martelo ou, a um só tempo, espelho e martelo. Realista ou abstrata, refletirá, não menos pela sua forma do que pelo seu conteúdo, a necessidade do homem, que deseja a sua emancipação, a angústia do povo que luta para se libertar. A arte será o espelho dessa realidade. E, quando o homem superar a sociedade de classes e a alienação, ela retornará às suas fontes reais na sociedade, às suas raízes humanas. A arte confundir-se-á nas relações concretas do homem com o próprio homem, do homem com a natureza.


por LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA

10 dezembro, 2007

de Mauro Iasi, sobre programa democrático popular

Grifos e comentários do camrada Danilo


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[sobre resoluções do 4º encontro nacional do PT]
"(...) É neste ponto das resoluções que se apresentam certos aspectos que servirão de alicerce para as formulações estratégicas que se seguirão. As resoluções afirmam que a burguesia e o Estado brasileiro não teriam "conseguido resolver as contradições fundamentais do desenvolvimento do conjunto da sociedade"(...). Entretanto, concluem as resoluções:
A superação definitiva da exploração e da opressão sobre o povo brasileiro não se dará com simples reformas superficiais e paliativas, mas sim com a ruptura radical contra a ordem burguesa e a construção de uma sociedade sem classes, igualitária, que, por meio dasocialização dos meios de produção, vise a abundância material para atender às necessidades materiais, sociais e culturais de todos e de cada um de seus membros, ou seja, a construção do socialismo.
Constatando mais uma vez que não haveria condições imediatas para este salto, por não estar "colocada para o conjunto da classe trabalhadora a consciência dessa necessidade", o texto afirma que o desenvolvimento do capitalismo, das classes e da luta entre estas permitiria já um "acúmulo de forças" no sentido de ampliar os espaços democráticos e as conquistas populares que seriam uma espécie de "ponte" e de caminhos que poderiam conduzir a esta meta estratégica socialista.
Notem que se retoma aqui o conceito de "acúmulo de forças" como tarefa imediata, mas enfatiza-se ainda o objetivo estratégico socialista. Outro aspecto é que o texto afirma uma distância entre a percepção consciente da necessidade deste objetivo estratégico socialista por parte daqueles que agora compõem o partido e a consciência do "conjunto da classe".
Este elemento abre a possibilidade de uma reflexão sobre um dos aspectos do movimento da consciência. Bordieu faz uma curiosa distinção entre aquilo que é "dizível" ou indizível no campo político. Para ele:
A fronteira entre o que é polticamente dizível ou indizível, pensável ou impensável para uma classe de profanos determina-se na relação entre o interesse que exprime esta classe e a capacidade de expressão dessses interesses que sua posição nas relações de produção cultural, e por este modo, política, lhe assegura.
Os termos "classes profanas" são utilizados por Bordieu para identificar a diferença entre aqueles "profissionais" que teriam o monopólio do dizer político e aqueles "cidadãos comuns, reduzidos ao estatuto de consumidores" deste bem simbólico. O que nos chama a atenção é que a classe que se moveu concretamente em sua ação prática contra as manifestações da ordem do capital, tornando possível que esta ação se expresse em um partido que agora formula suas estratégias, separa-se agora de seus formuladores que chegam a necessidades que ela própria ainda não coloca para si. São duas as possibilidades de interpretação deste fato. Primeiro que é verdade que, embora mobilizada pelas lutas sociais e mesmo chegando à constatação da necessidade da luta e da organização política, esta classe não alcança imediatamente a necessidade de uma ruptura revolucionária, da mesma forma que o setor de vanguarda tem como tarefa essencial produzir as condições em que seja possível uma correlação de forças mais favorável para ações mais decisisvas nesse sentido. No entanto, a consciência da classe está, neste momento, livre da práxis, se moldando por aquilo que afirma sua expressão política, e pode tomar como sua a consciência deste setor.
A poderosa identidade que está se formando processa-se em parte por aquilo que a classe projeta na liderança, ou, no caso, na orgainzação que ocupa seu lugar, mas esse é o mesmo processo pelo qual esta classe passa a assumir como sua a consciência de sua vanguarda. Há uma homologia clara entre o processo que aqui se verifica e o mecanismo freudo/kleiniano de identidade projetiva/introjetiva. Ao projetar seu ideal de Ego para o objeto externo, abre-se a possibiliade de substituir este ideal pelo objeto[no caso, esse objeto externo seria o que representa politicamete o PT para classe, a identificação da classe com sua representação, seu produto. O ponto central do processo de liderança é produzir uma identificação projetiva (o grupo se vê nas ações do líder/ organização)/ introjetiva (introduz através desa nova relação um novo valor em sua consciência). Na confluência e emergência da luta de classes no fim dos 70 e início dos 80, o setor da classe que inicou o projteo do PT assumiu esse "processo de liderança", ao representar nas lutas travadas naquele momento o papel de líder(esse conceito de líder utilizado por Mauro Iasi é tomado da construção de Freud na tentatvade entender a formação de consciência dos grupos, e dos individuos dentro destes, sendo o líder o ponto de identificação comum de seus mebros, convertendo-o em um ideal de ego comum, partilhado entre todos)] , o que permite, aliás, uma identidade horizontal no grupo que foi analisado. Desse modo, quando a liderança identifica esta ausência de consciência da necessidade de ruptura socialista na consciência imediata do "conjunto" da classe, de certa forma a vanguarda cria e reproduz esta ausência na consciência que ajuda a formar.
Em outras palavras, molda a classe perpetuando esta ausência. A "fronteira do dizível e não dizível", nos termos de Bordieu, não existe como dado empírico, mas é produto da relação entre os interesses e a forma simbólica em que são expressos. É possível supor que, pelo mecanismo descrito, este universo simbólico volte a fonte dos interesses e o molde numa expressão que transforma em "silêncio" parte dos potenciais interesses originais.
(...)Quando encontramos nas resoluções que é necessário criar um partido político, de trabalhadores, anticapitalista e com um horizonte socialista, podemos supor que estes valores não estavam imediatamente "colocados para a consciência do conjunto da classe trabalhadora". Mas o fato de o serem afirmados pela liderança que se apropria da força do grupo, no caso de uma organização que expressa a força de uma classe, faz com que esta classe assuma como seus estes valores. Este fato já é o resultado de uma "concorrência", de fato um equilíbrio no interior do qual a liderança conquistou as consciências dos trabalhadores contra a influência do senso comum, da força inercial das relações dominantes convertidas em idéias.
Na medida em que esta vanguarda constrói o "acúmulo de forças" pela constatação objetiva da ausência para o conjunto da classe da consciência da necessidade da ruptura socialista, impõe este elemento à consciência da classe que se forma. A questão é: por que alguns dos elementos estão colocados, sendo, portanto, dizíveis para classe ou em seu nome, e outros não? [interessante, que o discurso do campo majoriatário(APS, MES) e de outros setores é que o programa de ruptura não dialoga como nível de consciência da classe, e o programa democrático popular se rebaixa para fazer elevar o nível de consciência, e impõe como tarefa permanente o acúmulo de forças, levando a um taticismo absurdo. Acabam criando ilusões na consciência da classe, como temos formulado.]
Evidente que a ação da vanguarda não é o único fator, existe de fato uma correlação de forças, um grau de organização, um poder do inimigo materializado em recursos e instrumentos de domínio que podem e devem indicar objetivamente o ritmo da construção das táticas e da estratégia; porém, como se verá a seguir, a política do "acúmulo de forças" acabará por moldar um comportamento de classe para ações táticas cada vez mais distantes do objetivo estratégico. No entanto, isto ainda não estava colocado nesse momento, a não ser como germe em desenvolvimento. Naquele instante, o núcleo essencial da estratégia, a meta socialista e a necesidade de uma ruptura ainda são afirmados, mesmo constatando que não é "pensável" pelo conjunto do bloco social que o partido representa. Veremos que na seqüência o campo do "não dizível" vai crescer e roubar espaço da substância estratégia da proposta. Em um primeiro momento, trata-se de conjuntura e uma correlação de forças que não permitem fizar para a classe imediatamente o objetivo, depois, tratar-se-á de moldar o propósito pelos limites do "pensável"."

Do Livro "As metamorfoses da consciência de classe - O PT entre a negação e o consetimento". págs 398 a 402.

05 dezembro, 2007

Abaetetuba: convém exercer governos estaduais e municipais?

Por: Plínio de Arruda Sampaio

Conheço a Ana Julia Carepa e sei que ela não compactuou - nem compactuaria - com a monstruosidade cometida contra a jovem L15.

Em Artigo que escrevi para uma revista, culpei a sociedade brasileira pelo crime - uma sociedade que aceita passivamente a “banalização do mal”.

Porém, não é este o objeto deste artigo. Quero examinar o fato sob outro ângulo - um ângulo importante para os partidos de esquerda: qual a racionalidade de exercer cargo executivo nesta conjuntura política?

Assume-se um cargo executivo para realizar um programa - o que depende de autorizações legais, recursos humanos e financeiros.

Na estrutura do Estado brasileiro, a maioria dessas condições depende da esfera federal. Governadores e prefeitos atuam no interior dos parâmetros fixados na órbita federal.

Nas condições atuais, a obediência a esses parâmetros não permitem que esses governadores e prefeitos façam avançar a luta pela implantação do socialismo.

Ora, o que justifica a disputa de espaços na estrutura do estado burguês é essa possibilidade de avanço, se ela inexiste, qual a lógica de assumir um posto executivo?

A experiência dos governos paradigmáticos que alicerçou o crescimento do PC italiano, terminou, como vimos. Além disso, nossos prefeitos e vereadores não disporiam dos recursos de seus congêneres italianos nos anos sessenta.

Porisso, entendo que, enquanto a conjuntura do país não mudar, os partidos de esquerda não devem exercer mandatos executivos. Nosso lugar é no legislativo, a fim de usar a tribuna para dissecar a dominação burguesa e colocar as prerrogativas e imunidades parlamentares a serviço da luta popular.

Entretanto, 2008 está às portas e não teremos como fugir da necessidade de lançar candidatos a Prefeito.

O que foi dito acima deixa ver bem claramente qual deve ser o objetivo de nossas campanhas majoritárias: um palanque de denúncia e de propaganda do socialismo.

Mas isto não quer dizer discurso panfletário ou doutrinário. Precisamos analisar os problemas da cidade e propor as nossas soluções. Nessa hora, entramos em terreno escorregadio, porque, se não tomarmos cuidado, nosso discurso se aproximará muito do discurso dos candidatos da direita e o eleitor não fará a distinção que precisa ser feita entre a nossa mensagem e a deles.

Provavelmente, os problemas que nossos candidatos identificarão serão os mesmos levantados pelos outros candidatos, mas na identificação das causas e nas propostas de solução, as diferenças são substanciais e devem ser recalcadas. Sobretudo, não podemos iludir a população com a idéia de que os problemas podem ser solucionados sem mudança substantiva na ordem capitalista.

O cumprimento desta condição não é fácil, porque não podemos cair no discurso facil da estatização e da coletivização como panaceia para todos os problemas. Este discurso economiza o esforço de examinar os problemas a fundo e de propor soluções efetivas. Para evitar esse perigo, precisamos desenvolver o conceito de solução concreta: solução perfeitamente viável do ponto de vista das condições objetivas (o que tem de ser demonstrado), mas inviáveis no sistema capitalista por causa dos interesses das forças da burguesia nacional e local ( os quais deverão ser identificados e denunciados com nome e sobrenome).

So assim, os eleitores se interessarão pela nossa campanha e passarão a nos olhar, mesmo que ainda não nos dêem o seu voto, com respeito.

Isto é avanço. O outro modo é eleitoralismo. Nossa Conferência eleitoral precisa deixar as duas coisas bem claras.

07 julho, 2007

LUTA POPULAR DESMASCARA A TRANSPOSIÇÃO. E CONTINUA!

Por oito dias, de 26 de junho a 4 de julho, ocupamos a área onde o Governo Federal fez “inaugurar” as obras da transposição de águas do Rio São Francisco para o chamado Nordeste Setentrional. Hóspedes dos índios Truká, éramos ao todo mais de 1.500 pessoas, da bacia do São Francisco e do Nordeste, dos principais movimentos sociais. Protestamos contra esse projeto falacioso, as hidrelétricas e as centrais nucleares programadas para essa região. Defendemos um desenvolvimento verdadeiro, sustentável e soberano para o Nordeste, o São Francisco e o Brasil.

Quando, numa fase de transição, com saída de caravanas para que outras chegassem, éramos em torno de 500 pessoas, sofremos despejo. Em cumprimento da ordem judicial, saímos pacificamente, de cabeça erguida, com o sentimento de vitória. A lei e a justiça quem não está cumprindo é o governo e as elites, no caso da imposição da transposição e em tantos outros casos. As obras iniciadas pelo Exército, que já eram praticamente nenhuma, estão paradas. As irregularidades cometidas pelo Governo começam a aflorar. A sociedade voltou a discutir o assunto, já dado como encerrado, e crescentemente se posiciona de maneira contrária ao projeto, apoiando a nossa luta.

A inestimável riqueza da experiência do acampamento, construído na diversidade dos povos e movimentos sociais, suas manifestações e práticas de trabalho, convivência, educação, arte e religião, atesta o potencial de transformação e libertação do povo brasileiro, quando ele se vê e se assume como é de fato, pluriétnico e multicultural. A convivência com os povos indígenas e comunidades quilombolas e suas demandas históricas revelou que é outro o desenvolvimento que o Brasil precisa, baseado na justiça social e na soberania popular. E a auto e co-gestão do acampamento aponta para a possibilidade do socialismo.

Contra isso se desencadeou a repressão com um aparato policial-militar à semelhança de uma operação de guerra. Porque estávamos confrontando o crescimento econômico assentado em mega-obras, como a transposição, para benefício de uma pequena elite econômica, a base de conluios econômico-político-eleitorais e a custas da exploração do povo e da dilapidação os bens da terra. O contraste com a simplicidade e altivez dos retirantes foi constrangedor. Irônico e trágico que ao mesmo tempo dois caminhões tenham sido assaltados perto dali, na BR 428... O crime prospera na região a despeito da maior presença repressiva do Estado.

Prova de que nossa luta fortaleceu as suspeitas e as resistências foi a mobilização dos governadores dos estados “beneficiários” em defesa ao projeto, numa reaproximação com o projeto político do Presidente Lula e seu governo de coalizão direitista. A campanha que vão desencadear, custeada com dinheiro público, só fará propagar a mentira e a desinformação sobre o projeto. Não dirão, por exemplo, que é o povo quem vai pagar a conta de uma água tão cara, tornada mercadoria, destinada a grandes usos econômicos intensivos em água votados para a exportação.

No Ministério da Integração foi demitido o coordenador Rômulo Macedo, que aqui nos disse estar há 30 anos construindo e defendendo o projeto. Em seu lugar uma pessoa mais próxima ao Ministro Geddel, que faz crescer seu poder dentro do governo, cada vez mais com a sua cara, a cara das elites retrógradas e venais. Por isso, no acampamento, atividade diária era tapar com pás e padiolas o “buraco do Geddel”, o canal inicial do eixo norte, cavado às pressas pelo Exército, para a inauguração encenada semanas atrás.

A imposição do projeto não respeitou os povos indígenas e seus territórios – reconheceu o atual presidente da Funai, anulando o aval dado por seu antecessor. Ao ser criado o Grupo de Trabalho Truká para averiguar e atender a demanda deste povo sobre a área desapropriada, foram paralisadas as ações para a tomada d’água do eixo norte. Em continuidade à luta, na madrugada passada outra fazenda foi retomada pelos Truká na região. O desenvolvimento do Brasil nunca será verdadeiro nem legítimo se não reconhecer os direitos históricos dos povos indígenas.

Nossa luta continua. Estamos no Assentamento Jibóia, do MST, a 10 quilômetros de Cabrobó, para onde viemos ontem em marcha de 13 quilômetros, capitaneados pelos índios Truká e de outros povos da região, num longo toré. Cresce a adesão e o apoio ao nosso movimento. Hoje se juntaram a nós 32 companheiros do Ceará, da região “beneficiária” da transposição. Nossos objetivos foram parcialmente atingidos; a vitória final será quando esse projeto cruelmente anti-povo for arquivado. TRANSPOSIÇÃO NÃO, CONVIVER COM O SEMI-ÁRIDO É A SOLUÇÃO! SÃO FRANCISCO VIVO – TERRA E ÁGUA, RIO E POVO!

Cabrobó, 5 de julho de 2007.


Povos Truká, Tumbalalá, Pipipã, Kambiwá, Pankará, Tuxá, Pankararu, Xukuru, Xukuru-Kariri, Kariri-Xocó, Xocó, Katokinn, Karapotó, Karuazu, Koiupanká, Atikum, Tinguí-Botó - Comunidades Ribeirinhas, Quilombolas, Vazanteiras, Brejeiras, Catingueiras e Geraiseiras da Bacia do Rio São Francisco - MST - MPA - MMC - MAB - APOINME - MONAPE - CETA - SINDAE - CÁRITAS - CIMI - CPP - CPT - CESE - KOINONIA - PACS - ASA - AATR - PJMP - Colônias de Pescadores - STRs - CREA/BA - SINDIPETRO AL/SE - CONLUTAS - Federação Sindical e Democrática de Metalúrgicos do Estado de MG - Terra de Direitos - Fórum Nacional da Reforma Agrária - Rede Brasileira de Justiça Ambiental - Fórum Permanente em Defesa do Rio São Francisco / BA - Fórum de Desenvolvimento Sustentável do Norte de MG - Fóruns de Organizações Populares do Alto, Médio, Submédio e Baixo São Francisco - Frente Cearense Por uma Nova Cultura da Água Contra a Transposição - Projeto Manuelzão/MG.

Por uma juventude anticapitalista para o PSOL do Rio de Janeiro!

Podemos e devemos construir uma juventude ampla, democrática e anticapitalista, que tenha acordos programáticos específicos sobre os mais diversos temas que afligem a juventude. A juventude do PSOL não deve ser pautada apenas pelas demandas existentes nas frentes em que já atuamos "tradicionalmente", em especial no movimento estudantil: acreditamos que as divergências táticas existentes nas frentes de atuação devem ser tratadas prioritariamente nesses espaços e não no PSOL.

Dessa forma, um dos pontos que devemos avançar é sobre nossa concepção de juventude. A juventude do PSOL deve levar em consideração os anseios e potencialidades da juventude do Rio de Janeiro, que em sua grande maioria encontra-se fora de espaços autônomos de organização política, participando de outros locais de convivência e socialização, como nas igrejas, ONG´s, torcidas organizadas, associações comunitárias, entre outros.

E dentro dessa perspectiva, um tema central é a violência policial e o tráfico de drogas. Em especial na parcela da juventude habitante das favelas, a repressão policial e os confrontos existentes entre estes e facções do tráfico tornou-se um drástico problema cotidiano no Rio de Janeiro, que leva a morte centenas de jovens. É importante lembrar que nenhum jovem de nenhuma comunidade tem em sua casa uma fábrica de armas super modernas ou uma refinaria de drogas, o que tem um alto custo, e devemos portanto debater sobre a questão de quem financia o tráfico e suas mazelas.

O partido de conjunto e em especial a juventude tem a tarefa urgente de construir uma forte campanha contra a redução da maioridade penal, haja vista que se trata de uma contra-ofensiva da burguesia nacional e da mídia, que criminaliza e marginaliza a juventude, como se a juventude fosse a causadora dos problemas sociais e não vítima.

Deve fazer parte da juventude do PSOL a tarefa do combate intransigente à violência policial – que não é fruto de alguma política pública errada ou ineficaz, e sim uma política seletiva de eliminar quem cria problemas a uma determinada ordem de coisas, ao mesmo tempo em que "dá o recado" aos segmentos mais pauperizados da classe trabalhadora, os quais são vistos enquanto inimigos potenciais da ordem estabelecida. Além disso, ao fim de décadas de proibição e de repressão do consumo de drogas, está mais que à vista a falência desta perspectiva.

Entretanto , atualmente a maior expressão do PSOL na juventude é a atuação no movimento estudantil. Nele, lutamos em defesa radical da educação pública, nos colocando contrários à Reforma Universitária encaminhada pelo Governo Lula e em oposição à direção majoritária da União Nacional de Estudantes, braço do Governo no movimento, através da construção da Frente de Oposição de Esquerda, a FOE-UNE e a Frente de Luta Contra a Reforma Universitária;

O novo processo de lutas que se abriu nas Universidades, cujo centro são questões imediatas como assistência estudantil, democracia interna, falta de professores e técnicos, etc, promoveu lutas e vitórias, como no caso da ocupação da Reitoria da Unicamp. A longa ocupação da Reitoria da USP simboliza que começamos a entrar numa fase importante da luta estudantil no Brasil, o que pode ser percebido no caráter massivo e radicalizado da ocupação, das assembléias e atos públicos da greve estudantil. Seguindo esse exemplo, estudantes de outras Universidades vem retomando as mobilizações, como, no caso da Rio de Janeiro, da UFRJ. Mesmo sem o apoio do DCE, mais de 400 estudantes ocuparam a Reitoria e conseguiram importantes vitórias como barrar a aprovação do REUNI, o qual reestrutura as Universidades transformando-se em imensos escolões, duplicando a proporção entre professor-aluno nestas instituições. Nosso partido foi parte de várias dessas ocupações e temos que ver como aproveitamos e impulsionamos com toda força novos processos de luta para derrotar a Contra-Reforma Universitária do Governo Lula.

Também devemos cobrir de solidariedade todos os estudantes em luta que agora sofrem perseguições das reitorias e Governos, com processos administrativos e inquéritos policiais, enquanto os verdadeiros delinqüentes nacionais continuam soltos e sem nenhuma punição, vide o caso dos bezerros de ouro do Senado envolvendo o Presidente da casa Renan Calheiros e o Senador Roriz.

No Rio de Janeiro, em 28 de março, mais de 5 mil estudantes secundaristas ocuparam a Rio Branco lutando contra o fim do passe livre, iniciando uma jornada de lutas contra a máfia do transporte, que querem acabar com esse direito. Na organização dessa mobilização, o núcleo de secundaristas do PSOL teve um papel fundamental, demonstrando assim que os militantes do partido estão em consonância com as aspirações dos estudantes. Achamos que PSOL deve ter papel de destaque nessa luta.

Dessa forma, a Juventude do PSOL deve avançar ainda no debate e atuação sobre as opressões especificas, como o machismo, o racismo e a homofobia, e na ampliação de uma intervenção ecossocialista. Uma juventude que se propõe a abarcar uma visão ampla, que tenha relação com os problemas reais de nossa sociedade, não pode deixar de lado as lutas emancipatórias e ecológicas.

Propostas para o Setorial no Rio de Janeiro:

a) - O I Congresso do PSOL do Rio de Janeiro reconhece o Setorial de Juventude do PSOL como órgão partidário, bem como sua auto-organização (formulação e definições);

b) - Uma forma de iniciarmos a construção do setorial na prática é a construção de grandes campanhas que tenham como norte temas que afligem diretamente a juventude, como a redução da maior idade penal.

c) - Devemos indicar a construção de um Encontro de Fundação do setorial de Juventude do PSOL no Rio de Janeiro, que terá como tarefas: avançar na concepção de juventude do PSOL, apontar as principais frentes de atuação e as tarefas para o Setorial, bem como discutir e encaminhar elementos de organização que colaborem para a intervenção junto aos movimentos sociais;

d) - As deliberações do Encontro de Fundação deverão ser tiradas o mais consensualmente possível, como resultado de intenso debate e acúmulo coletivo da juventude, a exemplo do Encontro Estadual de Juventude do PSOL-SP, realizado no primeiro semestre de 2007;

e) - A data do Encontro de Fundação deverá respeitar a agenda dos movimentos sociais nos quais atuamos (ex: Conune e Conubes), acontecendo prioritariamente antes do Encontro Nacional de Juventude do Partido.

f) - O PSOL precisa garantir através de suas instâncias a estrutura necessária para realização do Encontro da Fundação (ônibus, alojamento, etc);

g) - O Formato deste Encontro e seu regimento interno deve ser deliberado numa plenária de Juventude Estadual do PSOL do Rio de Janeiro, amplamente divulgada, respeitando assim sua auto-organização. Devemos garantir a autonomia do setorial inclusive na construção de propostas alternativas ao que se encaminha sobre o Encontro Nacional. Devemos indicar também, portanto, que esta plenária faça um balanço da deliberação sobre Setorial de Juventude existente no Congresso do PSOL.

30 março, 2007

Leia a íntegra da fala de Fidel Castro sobre biocombustíveis

FIDEL CASTRO
no "GRANMA"

Mais de três bilhões de pessoas estão condenadas a mortes prematuras por fome e sede, em todo o mundo.

Não se trata de um número exagerado; na verdade, é uma estimativa cautelosa. Pensei bastante sobre isso depois da reunião do presidente Bush com as montadoras de automóveis norte-americanas.

No dia 26 de março, a sinistra idéia de converter alimentos em combustíveis se estabeleceu definitivamente como diretriz econômica de política externa para os Estados Unidos.
Um artigo da agência de notícias norte-americanas AP, distribuído a todos os cantos do mundo, afirmava, textualmente:

"WASHINGTON, 26 de março (AP). O presidente George W. Bush elogiou na segunda-feira os benefícios dos automóveis que funcionam com etanol e biodiesel, durante uma reunião com montadoras de automóveis na qual buscou estimular seus planos para combustíveis alternativos.

Bush disse que um compromisso dos líderes da indústria automobilística nacional quanto a duplicar sua produção de veículos acionados por combustíveis alternativos ajudaria a convencer os motoristas a abandonar os motores a gasolina e a reduzir a dependência do país com relação ao petróleo importado.

'Trata-se de um grande avanço tecnológico para o país', disse Bush depois de inspecionar veículos movidos a combustíveis alternativos. 'Se o país quer reduzir o consumo de gasolina, é preciso oferecer ao consumidor a possibilidade de tomar uma decisão racional.'

O presidente instou o Congresso a aprovar em regime acelerado um projeto de lei proposto recentemente pelo governo que disporia o uso de 132 bilhões de litros de combustíveis alternativos no país em 2017, e imporia padrões mais exigentes para o consumo de combustível em automóveis.

Bush se reuniu com o presidente-executivo e do conselho da General Motors, Rich Wagoner; com o presidente-executivo da Ford Motor, Alan Mulally; e com o presidente-executivo do Chrysler Group, Tom LaSorda.

Os participantes da reunião discutiram medidas de apoio à produção de veículos acionados por combustíveis alternativos, metas para desenvolver a produção de etanol com base em materiais como gramíneas e serragem, e uma proposta para reduzir em 20% o consumo de gasolina em prazo de 10 anos.

As discussões se realizaram em um momento de alta nos preços da gasolina. O mais recente estudo da Lundberg Survey sinaliza que o preço médio da gasolina nos Estados Unidos subiu em 1,58 centavo por litro, para US$ 0,69 por litro."

Acredito que reduzir e também reciclar todos os motores que consomem eletricidade e combustível é uma necessidade elementar e urgente para toda a humanidade. A tragédia não consiste em reduzir os gastos com a energia, mas sim na idéia de converter alimentos em combustíveis.

Hoje se sabe com toda precisão que uma tonelada de milho produz uma média máxima de 413 litros de álcool, a depender das densidades.

O preço médio do milho nos portos dos Estados Unidos se eleva a US$ 167 por tonelada; portanto, para produzir 132 bilhões de litros (35 bilhões de galões) de álcool seriam precisos 320 milhões de toneladas de milho.

De acordo com dados da Organização Mundial de Agricultura (FAO), a safra de milho dos Estados Unidos foi de 280,2 milhões de toneladas em 2005.

Ainda que o presidente fale em produzir combustível com base em grama ou lascas de madeira, qualquer pessoa pode compreender que são afirmações desprovidas de realismo. Para compreender basta dizer que 35 bilhões de galões querem dizer 35 seguido por nove zeros!

Virão mais tarde belos exemplos da produtividade por pessoa e por hectare que os experientes e bem organizados agricultores norte-americanos atingiram: o milho convertido em álcool os resíduos de milho convertidos em ração animal com 26% de proteína; o excremento de gado usado como matéria-prima para a produção de gás. Isso, claro, depois de elevados investimentos que só estão ao alcance das empresas mais poderosas, nas quais tudo precisa funcionar na base do consumo de eletricidade e combustível.

Se essa receita for aplicada aos países do Terceiro Mundo, veremos quantas pessoas entre as massas famintas de nosso planeta deixarão de comer milho. Ou algo pior: se financiamentos forem concedidos aos países pobres para que produzam álcool de milho ou de outros alimentos, não restará uma árvore para defender a humanidade contra as alterações climáticas.

Outros países do mundo rico planejam usar não só milho mas também trigo, sementes de girassol, de colza e outros alimentos na produção de combustível. Para os europeus, por exemplo, seria negócio importar toda a soja do mundo a fim de reduzir o gasto com os combustíveis de seus automóveis e alimentar seus animais com os resíduos do cereal, especialmente rico em todos os tipos de aminoácidos essenciais.

Em Cuba, diversos tipos de álcool são gerados como subproduto da indústria açucareira, depois da realização de três extrações, do açúcar ao sumo de cana. A mudança do clima está afetando nossa produção de açúcar. Grandes secas e chuvas recorde se alternam, e isso só permite produzir açúcar durante cem dias com rendimento adequado nos meses do nosso muito moderado inverno, de modo que falta açúcar por tonelada de cana ou falta cana por hectare cultivado devido às prolongadas secas nos meses de semeadura e cultivo.

Na Venezuela, pelo que sei, eles planejam usar o álcool não para exportação, mas sim para melhorar a qualidade ambiental de seus combustíveis. Por isso, independentemente da excelente tecnologia brasileira para a produção de álcool, em Cuba o emprego da tecnologia de produção direta de álcool a partir do sumo da cana não constitui mais que um sonho ou desvario daqueles que se iludem com essa idéia. Em nosso país, as terras dedicadas à produção direta de álcool podem ser muito mais úteis à produção de alimentos para o povo e à proteção do meio ambiente.

Todos os países do mundo, ricos e pobres, sem exceção alguma, poderiam economizar milhões de milhões de dólares em investimento e combustível se simplesmente promovessem a substituição das lâmpadas incandescentes por lâmpadas fluorescentes, algo que Cuba já levou a cabo em todos os domicílios do país. Isso significaria uma forma de resistir à mudança do clima sem matar de fome as massas empobrecidas do mundo.

Como se pode observar, não emprego adjetivos para qualificar o sistema e os donos do mundo. Essa tarefa pode ser perfeitamente realizada pelos especialistas em informação, pelos homens das ciências socioeconômicas e políticas honestos que existem em grande número no mundo e constantemente avaliam o presente e o porvir de nossa espécie. Basta um computador e um número crescente de redes de Internet.
Hoje temos pela primeira vez uma economia realmente globalizada, e uma potência dominante no terreno econômico, político e militar, que em nada se assemelha à Roma dos imperadores.

Alguns se perguntam por que falo de fome e sede. Respondo: não se trata do outro lado da moeda, mas sim das diversas faces de um outro objeto, como um dado que tem seis faces ou um poliedro com muitas faces mais.

Recorro, no caso, a uma agência oficial de notícias, fundada em 1945 e em geral bem informada sobre os problemas econômicos e sociais do mundo: a Telam. Reproduzo textualmente:

"Cerca de dois bilhões de pessoas viverão, dentro de apenas 18 anos, em países e regiões nos quais a água será uma recordação distante. Dois terços da população mundial poderão estar vivendo em lugares onde essa escassez gerará tensões sociais e econômicas de tal magnitude que poderiam levar os povos a guerras pelo precioso ouro azul."

Durante os últimos cem anos, o uso de água aumentou em ritmo mais de duas vezes superior ao do crescimento da população.

Segundo estatísticas do Conselho Mundial da Água (WMC, de sua sigla em inglês), se estima que, em 2015, o número de pessoas afetadas por essa grave situação suba a 3,5 bilhões.

A ONU celebrou em 23 de março o Dia Mundial da Água, conclamando os países a enfrentar a escassez mundial de água sob a coordenação da Organização de Agricultura e Alimentação das Nações Unidas (FAO), com o objetivo de destacar a crescente importância da falta de água em nível mundial, e a necessidade de maior integração e cooperação, que permitam garantir uma gestão sustentável e eficiente dos recursos híbridos.

Muitas regiões do planeta sofrem escassez severa de água, vivendo com menos de 500 metros cúbicos por pessoa/ano. Cada vez mais regiões padecem de falta crônica desse elemento vital.

As principais conseqüências da escassez de água são a quantidade insuficiente desse líquido para a produção de alimentos, a impossibilidade de desenvolvimento, industrial, urbano e turístico, e problemas de saúde."

É isso que a Telam tem a dizer.

Deixo de mencionar nesse caso outros dados importantes, como o derretimento das geleiras na Groenlândia e na Antártida, os danos à camada de ozônio e a crescente presença de mercúrio em muitos peixes de consumo habitual.

Há outros temas que poderiam ser abordados, mas pretendo simplesmente com estas linhas fazer um comentário sobre a reunião do presidente Bush com os executivos que dirigem as montadoras de automóveis norte-americanas.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

15 março, 2007

Juventude e Militância

26/02/2007
Em sua “Carta à Juventude”, composta por apenas três parágrafos, Trotsky trata duas questões de maneira bem breve, porém com muita profundidade: Juventude e Militância. Já no segundo parágrafo desta carta, muitos se confundem quando ele se refere aos “velhos de 20 anos”. Obviamente ele não pretendia estabelecer uma caracterização etária. Mas se referia, na verdade, àquela parcela da juventude que não tem disposição de se entregar, aos jovens sem ânimo, sonhos e sem fé.
Um partido, sindicato, campo político, grupo terrorista ou qualquer outro tipo de organização que pretende mudar a sociedade, não sobrevive sem militância. Sem essas pessoas dispostas a se sacrificarem, capazes de decidirem e certas de que não receberão nada de material em troca, as organizações e organismos não justificam sua existência.
Juventude e militância não são, portanto, termos nominais. Possuem vida, dialética. Muitos se declaram “militantes” ou “revolucionári@ s” apenas por pertencerem a um grupo ou entidade ou por estarem filiados a qualquer partido. Da mesma forma muitos idosos declaram-se “juventude” apontando em suas carteiras de identidade mostrando terem menos de 30 anos.
Durante a revolução russa, muitos jovens assumiram papeis de protagonismo, mesmo antes dos 20 anos. O estado socialista cubano possui em sua gerência e nos ministérios parcelas de jovens da geração pós revolucionária. Os “velhos de 20 anos” eram os que ficavam dentro das salas de aula enquanto a revolução acontecia. Eram os que ficavam em casa guardados por Deus. Eram os homens que não sonhavam com a tal “socialização dos meios de produção”, mas sim com um bom emprego, bem remunerado, uma esposa “politicamente correta” e um automóvel. As “velas de 20 anos” eram as que, ao invés de reivindicarem a emancipação e seus direitos, reivindicavam bons casamentos, marido carinhoso, filhos graciosos e um microondas.
Os partidos socialistas e organizações revolucionárias estão abarrotadas de “velh@s de 20 anos”. Mais precisamente aquel@s “filiados” e “filiadas”. Que optam sempre pelas tarefas mais simples e que não se aprofundam na teoria, ou aqueles esquerdistas que acham que o radicalismo se mede através do discurso “soprano”, enfim, o discurso que dá o tom mais alto. Se reivindicam donos da tradição leninista, mas evitam quase sempre participar das ações combativas e de massa.
Já sobre a militância, na mesma carta Trotsky nos ensina que “o sacrifício somente não é suficiente. É necessário ter uma clara compreensão do curso dos acontecimentos e dos métodos apropriados para a ação”. Eu diria, inclusive, que isso é o mais importante para qualquer militante, e concordo que a compreensão dos acontecimentos e dos métodos de ação, só é obtida através da teoria e da experiência. Decepcionam- se, pois, os meros tarefeiros, bate-estacas ou agitadores! Para todos os herdeiros de Marx, “sem teoria revolucionária, não existe ação revolucionária” .
Sobre experiência, mais uma vez não nos referimos à idade. Muitos velhos de partido ou sindicato ainda não atingiram essa compreensão de que nos referimos. Mas esse tipo de compreensão, experiência e teoria são imprescindíveis à juventude revolucionária. Sob pena de “baterem com a cabeça na parede e converterem- se em burocratas velhos de 20 anos”. Essa tarefa é difícil, mas cabe a nós cumpri-la bem!
É certo que representamos uma parcela da juventude mais resoluta. É certo que as dificuldades da militância hoje são diferentes das de quando Marx escreveu n´O Manifesto Comunista que a liberdade dos jovens está condicionada a sua independência econômica para com os pais e familiares. Ainda hoje temos esse problema, porém uma enorme parcela da juventude já se emancipou economicamente, e hoje luta contra um turbilhão de novos entrepostos: O dinheiro, o capital, trabalho e as usurpações do capitalismo.
Conversando ontem com um amigo anarquista bem eclético, percebia seu desespero em tentar encontrar novas formas de mobilizar as pessoas, atrair os jovens e se comunicar com os vários setores do movimento estudantil. Mas será mesmo esse o nosso maior problema? Acreditar nisso seria subestimar o capital. Seria ainda desconsiderar o elemento mais fundamental dos nosso problemas. O fato das pessoas não quererem nem saber. Centenas de páginas em O CAPITAL problematizam esses fetiches, a aparência, a essência e etc. Mas não entrarei nesse mérito aqui. Não citarei Marx, nem Lênin, nem Trotsky, nem Gramsci e nem o Osvaldo Coggiola (risos). Citarei algo mais poético. Mario Quintana disse uma vez que: “O maior de nossos problemas é que ninguém tem nada a ver com isso”.
Existem vários níveis de comprometimento com essa causa, que não é nossa, mas que abraçamos. Utilizamos cursos de formação, seminários e etc, para tentar produzir e reproduzir organicidade. Porém nesse final de texto abandonarei o meu objetivismo, próprio dos instrumentais que recebemos para analises, para lançar uma afirmação questionadora. Abandono sem remorso, pois abandono ao mesmo tempo a perspectiva da totalidade, para dizer a companheiros, companheiras, camaradas, amigos e amigas: Cabe a cada um decidir a qual nível de comprometimento pertencerá. Cabe a cada um aqui decidir se será parte da solução, ou se será parte do problema. Se seremos velhos de 20, 22, 24 ou 25 anos, ou quem sabe se seremos um dia jovens de 70, 72, 74 e 75 anos.
T.


"Porque metade de mim é o que eu penso, mas a outra metade é um vulcão"
Tadeu Guerzet
Contraponto
Ciências Econômicas
DCE - UFES