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05 dezembro, 2007

O Brasil passa por reprimarização

ORNAL DO COMMERCIO – 10.09.07

“O país só tem competitividade em produtos agrícolas e minerais”

Mariana Durãodo

Jornal do Commercio

Da ala dos heterodoxos, Reinaldo Gonçalves lança em duas semanas “A Economia Política do Governo Lula”, livro em parceria com o também economista Luiz Filgueiras. Professor do Instituto de Economia da UFRJ, Gonçalves diz que o trabalho visa a esclarecer a esquerda “perplexa” e todos interessados em entender para onde vai o Brasil.

Para ele, a vulnerabilidade externa do Brasil não diminuiu: a redução que se aponta decorre do contexto internacional , que, caso mude, fará o Brasil piorar mais do que a média dos demais países. O Risco Brasil permanece entre os cinco mais altos do mundo e , com a turbulência de agosto, saiu de 143 pontos para 213 pontos. O Brasil passa por “reprimarização” da pauta de exportações e caminha para uma especialização retrógrada. “O País só tem competitividade em produtos agrícolas e minerais. Há uma desindustrialização relativa ao resto do mundo.”

JORNAL DO COMMERCIO - O livro “A Economia Política do Governo Lula” não poupa críticas à política macroeconômica e social do PT. É possível resumir seus principais pontos de discordância em relação à administração do governo Lula?

REINALDO GONÇALVES - A primeira coisa é que o desempenho macroeconômico é medíocre, não só comparando com outros países, mas com a história do Brasil. Analisamos as principais variáveis macroeconômicas: variação da renda, hiato de crescimento (diferencial entre a variação da renda no Brasil e no mundo), investimento, vulnerabilidade externa, inflação e dívida pública. Comparando o Brasil do governo Lula com o mundo e com os governos republicanos no Brasil (1890-2006), não só ano a ano como os 30 mandatos, o atual governo é medíocre e desfavorável nas quatro primeiras variáveis.

Um ponto agravante é que isso acontece em um contexto internacional extraordinário. Estamos perdendo uma oportunidade histórica ímpar. Pelas escolhas de Lula estamos perdendo um ciclo extraordinário, aproveitado por países como Argentina e Venezuela. A avaliação geral do Governo Lula no livro é feita pelo Índice de Desempenho Presidencial (IDP - criado por Gonçalves e Filgueiras). O IDP médio do presidente Lula (medido de 0 a 100) é de 43,8, abaixo da média do conjunto dos presidentes brasileiros (57,5). No que se refere ao desempenho da economia Lula é o 4º pior presidente da história da República, atrás apenas dos governos Sarney, FHC (segundo mandato) e Collor. Mostramos também que há um desequilíbrio das finanças públicas, com a dívida interna subindo, o que tem a ver com a construção da política monetária, e vamos contra a corrente, dizendo que a vulnerabilidade externa no Brasil não diminuiu.

Então o senhor não reconhece méritos na política de ajuste externo do Governo?

RG - A vulnerabilidade é a probabilidade de um país resistir ou não a choques externos. Nos últimos quatro anos e meio a conjuntura internacional melhorou para o Brasil e o mundo todo, portanto é óbvio que os indicadores conjunturais de dependência externa melhoraram. Criamos, porém, um indicador de vulnerabilidade comparada e de vulnerabilidade de longo prazo, estrutural. Ela leva em conta o que está sendo feito para reduzir sustentavelmente a vulnerabilidade. Na vulnerabilidade comparada, comparamos o Brasil com o resto do mundo. Isso mostra que a melhora dos indicadores de vulnerabilidade externa da economia brasileira, a partir de 2003, decorre do contexto internacional favorável. Todo mundo melhorou, então na verdade o Brasil não melhorou. O Risco Brasil de 2003 a 2007 continua entre os cinco maiores do mundo. Se ele continua entre os cinco maiores, não se pode dizer que melhorou de fato. Se muda esse contexto mundial, ele vai piorar mais que a média. Em agosto, com a crise dos créditos subprime, o risco foi de 143 pontos para 213 pontos. Isso mostra que o País está frágil.

O senhor afirma que o governo optou pela “inserção passiva do país no sistema econômico internacional”. O que isso significa exatamente?

RG - Quando se estuda onde um país se insere no mundo, leva-se em conta as esferas comercial, monetária-financeira, produtiva real e tecnológica. Do ponto de vista comercial, o foco da política de exportação, do investimento em infra-estrutura e das negociações comerciais do Governo Lula hoje são as commodities. O que aprendemos desde sempre é que é preciso fazer um upgrade do comércio e sair de commodities para entrar em bens e serviços, de maior valor agregado. O que está sendo feito hoje é uma volta ao passado, ao açúcar, à borracha. Qual a maior aposta do governo? O etanol, além do minério de ferro, soja, ou seja, está havendo uma “reprimarização” da pauta de exportação. No dia em que esses preços se reverterem, vamos ter um problema sério. Estamos perdendo competitividade em manufaturados, produtos de alta tecnologia. O avanço é baseado em commodities por causa da conjuntura internacional. Estrategicamente é uma política equivocada, tanto do Itamaraty quanto de comércio exterior. A Rodada de Doha só não sai porque os europeus e americanos não estão dispostos a fazer uma abertura maior para os produtos agrícolas. Ela significaria uma abertura ainda maior do País para os produtos industrializados, significaria o Brasil reduzir ainda mais a proporção de seu mercado interno, o setor de serviços e a sua frágil indústria em nome do avanço do agronegócio.

O Brasil caminha então para se especializar na produção de commodities?

RG - Sim. O Brasil caminha para o que chamamos de especialização retrógrada, que envolve a fragilização do aparelho produtivo brasileiro. O País só tem competitividade em produtos agrícolas e minerais, com o esvaziamento da indústria brasileira. Há uma desindustrialização face ao resto do mundo, com a fatia brasileira no conjunto da produção mundial caindo. Além disso, não tem avançado na área de serviços. Isso tem a ver com a expansão do agronegócio, que se alega ser intensivo em tecnologia, o que é bobagem. Esse avanço tecnológico existe, mas se reflete no aumento de produtividade que vaza para o exterior via remessa de lucro das multinacionais e redução de preços.

E a política industrial do Governo Lula?

RG - Ela só existe no papel. O problema na economia é demanda e a política é um estímulo à oferta. Se eu não tenho demanda, para que investir? A política econômica do governo restringe a demanda, tornando a política tecnológica e industrial inócua.

O senhor vê alguma mudança de rumo entre o primeiro e o segundo mandato do governo PT?

RG - A essência da estratégia continua. Nesse último ano e meio tivemos basicamente uma política assentada na expansão do crédito e no assistencialismo, e uma redução de juros mais de quantidade que de qualidade da política monetária. Os pilares da política macroeconômica se mantêm: foco da política monetária no combate à inflação; política de megasuperávit; câmbio flutuante; liberalização cambial. Não mudou nada, só o grau da taxa de juro real e do superávit. Isso é secundário. A questão fundamental é que, ou a gente muda e constrói a política econômica em cima de quatro novos pilares ou mantém o que está aí. Lula levou um susto no ano passado e por isso veio com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que na verdade não muda em nada a natureza da política econômica desse governo, que é um modelo liberal periférico.

No livro, o senhor diz que o governo consolidou esse modelo liberal periférico seguido por Fernando Henrique Cardoso, legitimando a política econômica herdada dele com a ajuda do bom momento da política internacional. Não houve nenhuma evolução?

RG - Muito pelo contrário. Lula aprofundou esse modelo que está fragilizando o Brasil, gerando um esgarçamento do tecido social, degradação das instituições e da consciência política. Está havendo a “africanização” do Brasil, que está cada vez mais parecido com um país da África subsariana. É um país em que a cada semana se tem notícia de uma barbárie, uma matança. Hoje 40 dirigentes políticos de peso são acusados de formar uma quadrilha…

O senhor aponta que, ao contrário do governo FHC, em que as direções sindicais e partidárias eram fortes opositoras, o Governo Lula cooptou boa parte desses antigos atores sociais, hoje ocupando cargos no Estado. Qual a consequência disso para a sociedade brasileira?

RG - Uma herança que será pior que a de Fernando Henrique é a fragmentação que esse governo provocou no movimento social. A CUT (Central Única dos Trabalhadores) hoje não existe, deveria ser fechada. Lula provocou a fragmentação do Movimento dos Sem Terra (MST), considerado o movimento social mais robusto do País. As Organizações Não Governamentais (ONGs) se dividiram entre as que aderiram e as que ficaram perplexas. O que provoca é uma degradação muito grande das instituições, passando pelo próprio PT. Há uma sociedade cada vez mais inerte e bárbara, com o processo civilizatório regredindo.

E como fica a política social, que tem como carro-chefe o programa Bolsa Família?

- Não passa de assistencialismo populista. Não nego que tenha efeitos sobre a distribuição de renda, mas cria condições para a manutenção desse modelo liberal periférico que exclui. A política do Bolsa Família é um instrumento perverso, que combina a flexibilização e precarização do trabalho com as políticas focalizadas e flexíveis de combate à pobreza. No último capítulo do livro fazemos uma análise da distribuição de riqueza e vamos contra a corrente. Existe distribuição de renda, mas ela é intrasalarial. A riqueza está se concentrando, ou seja, os ricos estão mais ricos. A melhora na distribuição pessoal da renda (que exclui juros e lucros) vem acompanhada da piora da distribuição funcional, que coloca de um lado os salários e, de outro, juros e lucros. Tem havido melhora de distribuição de renda desde 1998, com Bolsa Família, benefícios da previdência e aumento do salário mínimo. No dia em que isso acabar aumenta a concentração de riqueza. Uma coisa é a distribuição de renda entre trabalhadores, outra entre eles e os capitalistas. Se o Brasil estivesse melhorando, o Bolsa Família estaria diminuindo, porque as pessoas sairiam à medida em que tivessem trabalho e renda própria.

O senhor ainda se considera de esquerda?

- Sim. O grande diferencial desse livro é ter um olhar para a política social e econômica pela esquerda.

A seu ver, quais seriam as alternativas de governo para uma administração de esquerda no Brasil?

O fundamental seria fazer uma revisão dos quatro pilares atuais. O Brasil é um quadrúpede macroeconômico e é preciso cortar suas quatro patas. A primeira coisa que tem de ser feita é reverter a liberalização cambial, financeira e comercial. O Brasil não aguenta essa liberalização toda. Em segundo lugar, o câmbio tem de ser administrado com uma taxa associada a um nível de reservas muito elevado, que reduza a vulnerabilidade externa e mantenha esse preço regulado em um nível realista. Se tivéssemos um dólar a R$ 3, deveríamos ter reservas de US$ 300 bilhões. De onde viria o dinheiro para compor essas reservas? Taxando a exportação de commodities, como na Argentina. Finalmente, a política monetária não pode só ser instrumento de combate à inflação. Pode-se usá-la para combater a inflação, mas não necessariamente a taxa de juros. O ideal é focá-la para o ajuste das finanças públicas e geração de emprego, com um juro real baixo (2%). Posso reduzir demanda e consumo, se aumentar o compulsório e reduzir os prazos de pagamento. Eu combato a inflação, mas descolo essa política da taxa de juros.

07 julho, 2007

Biocombustível, o mito do biocombustível limpo

Considerado a grande solução para os problemas do aquecimento global, o biocombustível e sua produção foram analisados pelo pós-doutor em química Arnaldo Cardoso. Em um trabalho intitulado “Biocombustível, o mito do biocombustível limpo”, o professor afirma que “esta qualidade da limpeza do álcool ainda está longe de ser real e continuamos emitindo poluentes para a atmosfera e poluindo nossas cidades, campos, rios e florestas”. A IHU On-Line entrevistou, por telefone, o professor Arnaldo Cardoso, para entender suas questões contra o chamado “biocombustível limpo”.

Durante a conversa, Arnaldo diz que não existe biocombustível limpo, mas sim combustível renovável, pois “quando lembramos de algo limpo, lembramos também do que não afeta o meio ambiente. O álcool, que é o combustível mais comum, utilizado em grande escala no Brasil, não é limpo”. Na entrevista, Arnaldo fala ainda dos incentivos governamentais em relação à produção do biocombustível e apresenta algumas alternativas para a questão da poluição.

Arnaldo Alves Cardoso é graduado em química pela Universidade de São Paulo. Na mesma universidade, concluiu seu mestrado e doutorado em química analítica. Na Texas Tech University, nos Estados Unidos, concluiu seu pós-doutorado em 1995. Em 1999, obteve o título de Livre Docência pela Universidade Estadual de São Paulo. Atualmente, Arnaldo trabalha na Sociedade Brasileira de Química e é professor da UNESP. Nesta universidade, desenvolve pesquisas como o desenvolvimento de método analítico para determinação de ozônio no ambiente e estudos sobre compostos de nitrogênio, presentes na atmosfera da região central do Estado de São Paulo. É autor de “Introdução à Química Ambiental” (Porto Alegre, ed. Bookman, 2004).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - O que existe hoje por trás do que se chama de biocombustível limpo?

Arnaldo Cardoso - A questão principal que estamos tentando discutir é que não existe isso que chamamos de biocombustível limpo. O que existe, na verdade, é um combustível renovável, o que é diferente. Quando lembramos de algo limpo, lembramos também do que não afeta o meio ambiente. O álcool, que é o combustível mais comum e utilizado em grande escala no Brasil, não é limpo. Um problema ambiental grave no momento é o aquecimento global, resultado de um acúmulo de gás carbônico na atmosfera. Todo combustível que adiciona gás carbônico na atmosfera está sujando, comprometendo a qualidade da atmosfera, e aumentando, portanto, o efeito estufa.

O álcool tem a seguinte propriedade: ele emite o gás carbônico quando queima o combustível. Só que a cana, quando cresce pelo processo de fotossíntese, retira o seu gás carbônico da atmosfera para transformar-se em uma nova planta. O resultado disso é que a utilização de álcool não acrescenta mais gás carbônico na atmosfera. Sob o aspecto estritamente do gás carbônico, ele pode ser considerado um combustível limpo. Quando se planta a cana, é necessário adicionar fertilizantes que entrem no ambiente e não circulem da mesma forma que o gás carbônico. O álcool, por sua vez, não tem um processo em que seja novamente reciclado.

IHU On-Line - Então, como a questão ambiental é afetada?

Arnaldo Cardoso - É afetada justamente pelo acúmulo de poluição. Se você coloca fertilizante, está modificando o meio ambiente. O álcool, portanto, não pode ser considerado um combustível limpo nem no momento em que se planta a cana. Outro problema é quando o álcool queima, emitindo óxidos de nitrogênio, que são responsáveis pela chuva ácida nas cidades. Mesmo a utilização do álcool, no fundo, em relação a outros poluentes, não pode ser considerada limpa, como afirmei. A imprensa precisa modificar essa forma de chamar o combustível. No momento em que ele é considerado limpo, significa que ao se usar um carro à vontade não se estará afetando o ambiente. Ora, nós temos que lembrar sempre que a utilização do álcool precisa ser feita de forma restrita e economizar combustível, para justamente não afetarmos ainda mais o ambiente. Devemos, também, lembrar que o combustível é apenas renovável.

IHU On-Line - Para o senhor, com o governo incentivando cada vez mais a produção do etanol, que tipo de conseqüência haverá no futuro se a produção e o consumo de álcool for maior do que é hoje o consumo de gasolina?

Arnaldo Cardoso - A questão principal que deve ser encarada por todos é que precisamos mudar nosso conceito de consumo de combustível. É claro que o álcool tem a vantagem de não aumentar o efeito estufa, o que é uma característica relevante, mas não podemos substituir a gasolina pelo álcool. Isso não resolverá o problema do planeta. Precisamos pensar em ter uma contribuição de álcool, aumentar a geração de energia eólica e diversificar as fontes de energia. Da forma que está sendo colocada pelo governo, parece que a salvação do planeta passa pela produção do biodiesel. No meu entendimento, reafirmo que isso não é possível, à medida que ele tem um limite de produção e afeta bastante o meio ambiente, assim como todo combustível. A própria produção de petróleo é altamente prejudicial à vida. Em lugares de onde se extrai petróleo, costuma haver o problema de navios que o despejam em alto-mar. Ou seja, a produção de combustível é sempre danosa, seja do biocombustível, seja do combustível fóssil.

IHU On-Line - O artigo que o senhor escreveu, “O mito do biocombustível limpo”, fala dos graves problemas da emissão de nitrogênio. Que tipos de métodos analíticos para aplicação em várias áreas poderiam suprir essa necessidade do uso de nitrogênio?

Arnaldo Cardoso - O nitrogênio é um dos macroconstituintes dos seres vivos. Sempre que se cria um novo organismo, vai se precisar de todos esses elementos. E caso se queira plantar soja, é preciso adicionar nitrogênio para o crescimento dos vegetais. Assim, passamos a ter uma grande quantidade de nitrogênio no ambiente, mas é impossível segurá-lo só no solo, isto é, apenas no local onde se quer produzir. Parte desse nitrogênio se espalha. Se ele cai numa floresta, facilitará o crescimento de vegetais e modificará a biodiversidade local. As plantas que precisam de mais nitrogênio serão favorecidas, mas outros não terão a mesma facilidade. Com isso, é possível modificar ambientes naturais. O grande problema do nitrogênio é esse.

Quanto à parte de análise química desses compostos de nitrogênio, existe a necessidade, por exemplo, de controlar o pH da chuva. É importante determinar sua acidez e entender se ela origina-se do hidrogênio. É importante, ao mesmo tempo, controlar a concentração de óxido de nitrogênio na atmosfera, porque ele atua como catalisador da formação de ozônio na atmosfera das cidades. Se há muito óxido de nitrogênio, pode-se ter muito ozônio, um composto mais prejudicial à saúde. Para fazer o controle, é necessário se fazer determinações de óxido de nitrogênio.

IHU On-Line - Há pouco tempo, Fidel Castro falou, em um artigo, que os Estados Unidos, para satisfazer a demanda atual de combustível fóssil, necessita destinar 121 % de toda superfície agrícola para a produção de biocombustível do país. Para o senhor, o que os governantes devem fazer para alertar e produzir racionalmente o biocombustível?

Arnaldo Cardoso - A questão é que nós, a meu ver, produziremos tanto biocombustível quanto se produz combustível do petróleo. Buscar essa meta é um grande erro. Para mim, precisamos reduzir a quantidade de combustível. O biocombustível pode fazer parte de uma solução, mas ele não é a solução. Não podemos imaginar jamais em substituir o petróleo por ele. Teríamos que produzir tanto adubo, utilizar tanta terra, que haveria problemas ambientais no futuro. A utilização dessa terra pode provocar problemas ambientais, como já foi observado, a exemplo da chuva ácida e da formação de ozônio. Busca-se o biocombustível para se resolver um problema global, mas a produção e a utilização dele cria problemas de poluição local.

Para termos uma idéia, em São Paulo, segundo dados da Cetesb em relação a 2005, 330.000 toneladas de óxido de nitrogênio foram emitidas por diversas fontes, sendo que 96% foi proveniente de automóveis. É uma quantidade muito grande de óxido de nitrogênio. Sabemos que a maior parte dessa frota é movida a álcool, ou, pelo menos, 25% de gasolina com álcool. Não estamos resolvendo um problema local. A poluição de São Paulo é grande e o biocombustível não vai resolver esse problema. Precisamos caminhar em outra direção, e a solução é consumir menos combustível.

IHU On-Line - O senhor tem alguma alternativa de política pública para reduzir o consumo de combustível?

Arnaldo Cardoso - A política pública é aquela que todo mundo pede. Precisamos programar um transporte público decente, porque ele, no Brasil, é quase impraticável para as pessoas utilizarem. Não só pelo excesso de pessoas transportadas, mas também até pela dificuldade de tempo entre um veículo e outro. Precisamos criar outras alternativas, como o uso de bicicleta, quando possível. Cidades pequenas, planas, precisam de ciclovias. São várias coisas que precisamos fazer, principalmente em relação ao transporte. O Brasil é um dos vilões em termos de gasto de combustível.

IHU On-Line - Temos algum exemplo de um país que tem trabalhado para esta redução?

Arnaldo Cardoso - Os países da Europa sempre tiveram essa preocupação. Darei o exemplo da cidade de onde estou falando: Araraquara. Eu vim de São Paulo em 1987, e o transporte público aqui era todo com ônibus elétricos, ou seja, com emissão praticamente nula de poluentes para a atmosfera. Hoje não existe mais o ônibus elétrico, ou seja, caminhamos em uma direção completamente diferente do que a Europa está fazendo. Em várias cidades da Europa existem bondes circulando. As pessoas precisam se preocupar com esse tipo de coisa. Não é o automóvel que solucionará o problema do transporte. Hoje em dia, é inviável se locomover na cidade com essa quantidade de automóveis. Não conseguimos mais viver em uma cidade grande ou média à custa de um automóvel. Precisamos caminhar em uma outra direção, ou seja, a cidade precisa ser repensada. Na minha opinião, devemos restringir cada vez mais o acesso de automóvel ao centro das cidades. As pessoas precisam parar de fazer tanta academia e andar mais a pé.

O importante é afirmar que o biocombustível deve ser utilizado com moderação, pois não vamos salvar o planeta com ele. É preciso saber que a sua utilização não minimiza o problema de poluição das grandes cidades.




Fonte: http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=7078

Biocombustível, o mito do combustível limpo. Washington Novaes comenta pesquisa de especialista

"Para chamar álcool combustível de limpo é necessário colocar muita sujeira debaixo do tapete", escreve Washington Novaes, comentando o trabalho Biocombustível, o mito do combustível limpo, do professor Arnaldo Alves Cardoso, do Instituto de Química de Araraquara (Unesp), em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, 11-05-2007, sob o título O debate crucial dos próximos anos . Segundo Novaes, "no caso da exportação, iremos arcar com os prejuízos ambientais da produção".

Eis o artigo.

"Quem esteja acompanhando minimamente o noticiário sobre mudanças climáticas sabe que a questão central dos próximos anos e décadas no mundo e no Brasil será a energia - que fontes vamos usar, que vantagens e conseqüências negativas pode ter cada uma delas. O caso do etanol, o álcool da cana-de-açúcar, é uma dessas questões que já ocupam largo espaço na comunicação.

Terá o etanol impacto inflacionário (Estado, 7/5), como temem analistas do Banco de Compensações Internacionais, por aumentar a demanda de milho (ou de cana) e a escassez de terra para outros alimentos? Exigirá a Europa certificação do etanol brasileiro, para evitar ocupação de áreas do Pantanal e da Amazônia pela cana (Estado, 17/4)? Falta-nos um marco regulatório para essa área, como afirma o ex-embaixador nos Estados Unidos Rubens Barbosa (24/4)? A expansão da cana voltou a aumentar o preço das terras e a expulsar para mais longe culturas de alimentos e pecuária (15/4)? O etanol usado como combustível é um risco para a saúde humana (Stanford Report, 15/2)? É insalubre e injusto o regime de trabalho nas culturas de cana, que exige do trabalhador cortar de 10 a 15 toneladas diárias para ganhar entre R$ 24 e R$ 36 diários - obrigando esse cortador a desferir a cada dia milhares de golpes de facão, carregar 800 feixes de 15 quilos, segundo depoimentos?

E a oferta de energia? Precisamos mesmo de megahidrelétricas na Amazônia e em outras partes, com elevados custos financeiros, sociais e ambientais? Ou podemos até reduzir em mais de 30% nosso consumo, com programas eficientes de conservação e eficiência energética, como afirmam alguns estudos de universidades já citados aqui? Se as hidrelétricas não forem licenciadas, teremos de recorrer à energia nuclear (muito mais cara, insegura, sem solução para o problema do lixo nuclear), como ameaça o presidente da República?

Tudo isso está nos jornais e na TV. Mas não está num debate aprofundado de todas essas questões, liderado pelo próprio governo federal, como deveria ser - para que a sociedade pudesse informar-se com segurança, participar, opinar, como deve ser numa democracia. Mesmo no caso do etanol, além das questões mencionadas acima, muitas outras já deveriam estar nessa pauta - como a necessidade de um zoneamento para a expansão; as implicações das monoculturas; a garantia de suprimento (para evitar desabastecimento como em 1989/1990); e outras implicações da cultura da cana na chamada área ambiental e na de saúde.

Um trabalho que chama a atenção para isso é Biocombustível, o mito do combustível limpo, do professor Arnaldo Alves Cardoso, do Instituto de Química de Araraquara (Unesp). Começa ele lembrando que “esta qualidade da limpeza do álcool ainda está longe de ser real e continuamos emitindo poluentes para a atmosfera e poluindo nossas cidades, campos, rios e florestas”. Porque, se o etanol tem um balanço zero no que diz respeito ao efeito estufa (o carbono emitido na queima de combustível volta a se fixar na cana durante o seu crescimento) - e desse ponto de vista é mais adequado que os combustíveis fósseis -, há outros problemas a considerar com elementos incorporados sob a forma de adubo no processo de crescimento da planta (enxofre, nitrogênio, fósforo e potássio).

Enfatiza o estudo que “já dobrou a quantidade de nitrogênio ativo, que tem atividade química e biológica, com potencial para modificar o meio ambiente” (estudos internacionais recentes dizem que o nitrogênio carreado para os oceanos pela dispersão de fertilizantes - 100 milhões de toneladas anuais - já é um dos mais graves problemas para as águas marinhas). Entre outros danos, ele provoca a chuva ácida, a contaminação das águas e prejuízos para a biodiversidade de florestas naturais. E, como é solúvel na água, pode provocar efeitos indesejáveis “a centenas de quilômetros do local onde foi formado”. Além desse arraste para rios e lagos, problemas podem advir da ação de microrganismos no solo, transformando parte do adubo em gases ou de bactérias em raízes de leguminosas, tornando ativo o nitrogênio inerte do ar. E também com a formação de gases nitrogenados na combustão: “A cultura da cana, direta ou indiretamente, atua nesses quatro mecanismos de formação e dispersão de nitrogênio ativo no ambiente, já que a cada ano se utilizam 100 quilos de fertilizantes por hectare.”

Quando ocorre a queima da palha da cana, “só no Estado de São Paulo se emitem por ano cerca de 46 mil toneladas de nitrogênio ativo para a atmosfera”. A elas deve ser adicionado o nitrogênio gerado na combustão do etanol nos motores. Por isso, “todos os rios e lagos do Estado de São Paulo estão recebendo excesso de nitrogênio ativo”, que favorece o crescimento de grandes quantidades de algas e plantas, “e estas em algum momento apodrecerão e morrerão, modificando a qualidade da água. Processo similar pode ocorrer em florestas preservadas”.

Para complicar mais, parte do nitrogênio transforma-se em ácido nítrico e forma a chuva ácida. Pode também catalisar reações atmosféricas, gerando ozônio, “um grande vilão (para a saúde humana) quando formado na baixa atmosfera”. E ainda não é tudo: a queima da palha da cana emite outros gases e material particulado; a queima do álcool emite formaldeído e acetaldeído, vapores tóxicos (embora menos que o monóxido de carbono, o dióxido de enxofre e material particulado dos derivados do petróleo).

Conclui o trabalho que “para chamar álcool combustível de limpo é necessário colocar muita sujeira debaixo do tapete”. Lembrando ainda que, no caso da exportação, “iremos arcar com os prejuízos ambientais da produção”. Por isso, como no caso da matriz energética brasileira, nesta hora crucial, é preciso pôr sobre a mesa também a questão do etanol. É um direito da sociedade.'

22 outubro, 2006

ENTREVISTA – AZIZ AB´SÁBER


‘Temos que continuar a luta, seja qual for o governo’

Professor emérito da Universidade de São Paulo, o geógrafo Aziz Ab´Sáber avalia que as políticas para o meio ambiente no governo Lula foram um ‘fracasso’ e as privatizações nas gestões do PSDB, ‘criminosas’, eventos que reforçam a necessidade de luta por princípios e valores hoje no Brasil.

Antonio Biondi - Carta Maior

SÃO PAULO – O geógrafo Aziz Ab´Sáber, professor emérito da Universidade de São Paulo, é um dos maiores conhecedores da realidade brasileira. Rigoroso planejador, Ab´Sáber é um crítico implacável de qualquer política prejudicial aos interesses do país e que não levem em conta o meio ambiente e o futuro das próximas gerações.

Nesta entrevista à Carta Maior a respeito das perspectivas do Brasil para os próximos anos – e que estão em jogo nas eleições presidenciais –, o professor, autor de dezenas de livros sobre os biomas e sobre a realidade do país, afirma que o a gestão de Marina Silva à frente do MMA foi “o maior fracasso da história do Ministério do Meio Ambiente de todos os tempos”. Sobre o que um possível mandato de Alckmin na presidência reserva para o país, Ab´Sáber considera que “pessoas perigosissímas” podem retornar ao poder com a ascensão do tucano, trazendo de volta as privatizações de grandes empresas nacionais, como a Petrobras, avaliadas como “criminosas” pelo professor.

Na entrevista, Ab´Sáber diz ser fundamental “continuar a luta, seja qual for o governo”. Ele defende que a universidade precisa ser mais ouvida nas decisões e no planejamento do futuro do país, embora saiba que “os planejadores governamentais fazem planos para quatro anos, quando muito na reeleição” e que “eles têm ódio de alguém que pense no futuro a diferentes profundidades de tempo”. Ab´Sáber prevê que os próximos anos serão tempos de luta por valores e princípios, e destaca que, da parte dele, “estou disposto a fazer isso até o último dia de vida”.

Carta Maior – A maioria dos analistas apresenta essa eleição como um momento que coloca em jogo dois projetos distintos, com o Lula de um lado e o Geraldo Alckmin do outro. Para o senhor, dependendo da vitória de um ou de outro, pode haver uma perspectiva diferente, de avanço das questões do desenvolvimento socioambiental? Ou ganhe um, ganhe outro, o meio ambiente vai ser encarado da mesma forma?
Aziz Ab´Sáber – No governo do presidente Lula, o Ministério do Meio Ambiente ficou nas mãos da Marina Silva, que foi uma extraordinária senadora, mas que não tinha um bom conhecimento do Brasil em termos regionais e em termos do setorial de cada região. O ministério ficou na mão de uma pessoa que gostava muito das ONGs [organizações não-governamentais] e que não tinha nenhum respeito pela universidade. O resultado foi o maior fracasso da história do Ministério do Meio Ambiente de todos os tempos, no Brasil e também nas Américas. Então, não quero discutir isso, porque eu gosto muito da Marina, mas minha avaliação é de que ela levou para lá só ONGs e não pessoas que compreendessem e conhecessem o Brasil. Um dia, perguntaram a um deles se ele conhecia a Amazônia e ele disse “Ah, eu conheço, eu estive no Amapá”. E por um acaso eu estava pesquisando no Amapá e sei onde é que ele esteve, em uma reuniãozinha de ambientalistas em uma escolinha lá em Macapá [capital do Amapá]. Isso é conhecer uma região de 4,2 milhões de km2? E, no entanto, pessoas como essa fazem indicações para a ministra sobre o que fazer, como concessões de florestas nacionais para ONGs estrangeiras etc.

CM – O senhor parece bastante preocupado frente ao atual quadro.
Aziz – Ou nós somos independentes e podemos criticar as pessoas de um governo, de outro e até ter receio em relação aos próximos, ou então nós não vamos servir ao Brasil. Fico preocupado com o que pode acontecer nos próximos quatro anos, seja o mesmo governo, seja o outro governo. Eu sei que muitas pessoas que são filiadas ao outro governo pretendem continuar com privatizações. Uma das coisas mais criminosas que foram feitas na história deste país foi a privatização da Vale do Rio Doce no governo do Fernando Henrique. As privatizações do passado foram um momento de idiotice, de pensamento apátrida. Aqueles que têm essas pretensões ‘privatizadoras’ começadas no governo Fernando Henrique e um pouco paralisadas no governo do presidente Lula, essas pessoas são perigosíssimas. Recebi um e-mail esta semana dizendo que o senhor [Luiz Carlos] Mendonça de Barros [ex-ministro das Comunicações do governo FHC], que foi quem defendeu a privatização da Vale do Rio Doce, ele disse que se fosse convidado a figurar em um governo novo em São Paulo e no Brasil, ele ia continuar defendendo a privatização, até mesmo da Petrobras. Meu Deus! É um criminoso. É rigorosamente um criminoso em termos do futuro deste país. Temos hoje governantes de péssimo nível cultural, extremamente eleitoreiros e demagógicos. A figura dos políticos brasileiros está degradada, não só nos meios acadêmicos, mas também nas classes sociais que se valem da intuição para avaliar pessoas.

CM – Professor, o jornalista Washington Novaes escreveu um artigo pouco antes do primeiro turno, perguntando “Em qual país é esta eleição?”. Nele, afirmava que, com todas as questões fundamentais relacionadas à Amazônia, à gripe aviária, à transposição do São Francisco, quase nada se falava disso nas eleições. Neste quadro, o senhor vê alguma chance de a questão ambiental ganhar força nos próximos anos, de se tornar prioritária?
Aziz – Vai depender da exigência e da inteligência brasileira representada por aqueles que conseguiram uma boa cultura e têm um ideário de ética com o futuro. Porque quem faz um projeto está pensando em alguma coisa que vai se implantar ao longo do tempo, que vai ter conseqüências em diversos níveis sociais e ecológicos. Os planejadores governamentais fazem planos para quatro anos, quando muito na reeleição. Eles têm ódio de alguém que pense no futuro a diferentes profundidades de tempo. Eu às vezes tenho vontade de botar as diferentes profundidades de tempo no rosto desses ignorantes. Temos que continuar a luta, seja qual for o governo. Daí porque eu acho que as pessoas que devam figurar nos governos são aquelas que sabem o que é o nacional, o que é o regional, e o que é o setorial nas diferentes regiões e nos diferentes quadrantes delas próprias e, ao mesmo tempo, que tenham uma ética com o futuro, senão não adianta nada.

CM – Algum caminho para fortalecer essa perspectiva?
Aziz – Em relação aos governos que já passaram e que estão passando, trago uma forte crítica cultural, em termos da ausência de planejadores e de planejamento dentro do governo. Nos últimos anos, as grandes coisas eram só, por exemplo, “transpor as águas do São Francisco”. Para quê? Diz que iria resolver o problema de água para todos no Nordeste. Em várias ocasiões eu estive com pessoas que colaboraram com esse plano e eu disse a eles, de público, que era um absurdo imaginar que a Transposição de águas do São Francisco resolveria o problema do Nordeste Semi-Árido. O rio São Francisco destinando águas para todo lado, com tecnologias caras e custosas, ia ser um projeto de planejamento linear, e não aureolar. Temo os planejamentos pontuais, planejamentos lineares e planejamentos aureolares, que envolvem áreas grandes. O pontual é muito interessante politicamente para certas pessoas. Eu vou pegar uma cidadezinha do Nordeste, eu vou dizer que vou melhorar em tudo etcétera, etcétera, e só falo naquela cidade e esqueço a rede urbana total, né? Então, nós estamos em uma situação em pesa a falta de conhecimento dos que ajudam os governos. Eu acreditava que o Lula iria escolher grandes nomes para sua equipe. O Washington Novaes é que deveria estar no Ministério do Meio Ambiente, ele nunca ia concordar em fazer concessões para ONGs estrangeiras e nem tão pouco aprovar projetos que não fossem sérios em termos da defesa dos patrimônios dos biótipos do país.

CM – O senhor falou dos riscos do meio ambiente não ser priorizado. O senhor acha que existe um risco do crescimento a qualquer custo prevalecer, deixando de lado a visão de longo prazo, de futuro de país?
Aziz – Tenho muito medo. Eu estou sabendo, por exemplo, que, aqui no meu Estado, está havendo uma tentativa de revisão de estatutos importantíssimos que deveriam ser históricos em relação a São Paulo, por exemplo o tombamento da Serra do Mar. Estão pensando em transformar a área em parque estadual e, se isso for pensado como um parque no sentido clássico e legal do termo, poderia ter 30% de desmatamento, de resto incontroláveis. Critico rigorosamente aqueles que, em vez de falar no tombamento, pensam no parque estadual da Serra do Mar, que é uma coisa ultrapassada. Não fui quem legalizou o tombamento, mas fui eu que o imaginei e que fiz o tombamento provisório. Enquanto eu estiver vivo, essas pessoas que querem fazer essas bizarrias que cuidem de agüentar críticas e os processos jurídicos que farei, correndo grandes riscos de adquirir novos inimigos.

CM – No artigo de sua autoria “O nacional, o regional e o setorial”, publicado na edição de outubro da revista Scientific American Brasil, o senhor defende que “é preciso se preocupar com as três dimensões de um país para torná-lo viável”. Hoje, no Brasil, já existem gestores públicos capazes de planejar sob essa lógica? O senhor acha que parte do problema de gestão, parte do problema de crescimento do país, se deve à falta de conhecimento que os gestores têm da realidade?
Aziz – Considero normal que os gestores pensem um pouco na sua província, no seu distrito, porque foi lá que eles obtiveram as votações etc. Agora, em termos de um salto cultural e de políticas públicas, de aplicações de ciências e de técnicas, penso que, sem fazer nada de caráter autoritário, teremos de colocar essas idéias na cabeça dos governantes.
Temos que começar a sentir se os governantes estão bem preparados para o nacional, que pressupõe relações internacionais seríssimas, o regional, para um país agigantado, e o setorial, que deve ser examinado para cada sub-setor do país, seja na Amazônia, no Nordeste seco, no Paraná, ou no Rio Grande do Sul. Vai haver muita necessidade de lutar por princípios e valores nos próximos tempos. E eu estou disposto a fazer isso até o último dia de vida. Agora, gostaria que muitas outras pessoas pensassem como a gente.

CM – O senhor tem visto avanços nesse sentido?
Aziz – No decorrer de outubro, tem havido muitas solicitações sobre opiniões a respeito de questões brasileiras fundamentais. Eu entendo que as solicitações de entrevistas, de artigos, representam uma certa confiança em alguém da universidade, não é pessoal. Existe a preocupação de jornalistas e entrevistadores isolados, pessoais, com o ponto de vista dos acadêmicos que representam a universidade brasileira neste começo do terceiro milênio. Eu, apesar destes meus 82 anos, tenho procurado corresponder, sobretudo por meio de pequenos escritos na revista Scientific American Brasil. Quando atingi o número 50, todos artigos foram reunidos num pequeno livro, que valesse mais para os estudantes do que para a comunidade científica, chamado “Escritos ecológicos”. Nesse pequeno livro, em lugar de copiar os artigos que saíram na revista, fiz alguns agrupamentos mais lógicos, dos sobre ecologia, planejamento, os de sugestões muito sutis para governantes... Que nunca ouvem a gente, evidentemente que não ouvem, não estão nem aí para acadêmicos, cientistas, e sobretudo para os planejadores. Eles fazem os projetos deles na base de interesses de alguns e no geral muito mal feitos. Sempre reclamo dessa incapacidade dos políticos de trabalhar com planejadores decentes, honestos e corretos. Não estou dizendo que eu seja o planejador mais destacado, mas entre eles a minha pessoa certamente deveria estar.

CM – O senhor enviou ao presidente Lula sugestões sobre a Amazônia, não?
Aziz – Às vezes, faço algumas bizarrias na revista que podem ser consideradas históricas. Por exemplo, quando o presidente Lula assumiu o governo, uma semana depois eu fiz uma carta longa para ele sobre a Amazônia, dizendo que era necessário que se fizesse no início do governo uma reunião em Brasília com conhecedores da Amazônia, tentando fazer um zoneamento econômico-ecológico mais amplo, para que se soubesse quais eram os quadrantes da Amazônia que precisavam ser conhecidos, de modo a haver planos voltados ao interesse da população e da região em todos os níveis. Eu havia feito aqui no IEA [Instituto de Estudos Avançados da USP] um trabalho sobre zoneamento ecológico-econômico da região, que hoje está republicado no livro “Amazônia – do discurso à práxis”, e insisti na necessidade de haver uma reunião para se discutir o que pesquisar em cada uma das células espaciais que eu havia reconhecido. Em geral, células espaciais de 80 mil a 150 mil km2. É impossível pensar a Amazônia no seu todo, de 4,2milhões de km2, já que as populações se distribuem por quadrantes os mais diferentes. Então, fiz divisões de quadrantes para poder dizer: nós temos que saber o que está acontecendo aqui, o que essa população pensa, quais são as suas expectativas de um novo governo e etc. E mandei para o gabinete do recém-nomeado presidente. Nunca tive nenhuma resposta sobre aquelas idéias. Que eu considero essenciais. Então, peguei aquelas seis ou sete páginas, dividi em duas e publiquei na revista como “Amazônia Brasileira 1” e “Amazônia Brasileira 2”. Mas historicamente, as pessoas precisam saber que isso foi uma carta, que não obtive resposta, então publiquei na revista. E também pro Nordeste eu fiz quase a mesma coisa, mostrando que era preciso conhecer todos os sertões, e não pensar apenas num fato linear como um rio só, pensando que vai resolver o problema de uma área imensa, que é três vezes a área do Estado de São Paulo. Então, eu advogava a idéia de que o nome que o povo deu aos diferentes quadrantes do sertão é que eram importantes como áreas a serem pesquisadas e estudadas. Era uma colaboração bastante objetiva. Então o pequeno livro “Escritos Ecológicos” tem um valor extra para mim porque lá eu coloquei algumas coisas que ninguém quis ler.

CM – São registros históricos.
Aziz – São registros históricos e registros para que outros que venham a ocupar cargos em Brasília e no governo brasileiro possam ter idéias deste tipo, o que sempre duvido, porque nunca ninguém quer saber de nada que parta das universidades ou da inteligência brasileira. Estou convencido disso. Alguém já disse que “acadêmicos não dão votos”. E eles estão pensando nos votos apenas, desde os primeiros dias que assumem os governos. É horrível.

CM – Professor, gostaria que o senhor falasse se imagina um espaço, um órgão que seria o coração do planejamento no Brasil, e de que modo, pensando a médio e longo prazo, o Estado deveria conversar com a iniciativa privada nesse aspecto.
Aziz – Bom, eu devo dizer a vocês que tenho refletido muito sobre a questão do público e privado, e também para poder ter uma idéia, uma avaliação das possibilidades de relação mais íntimas do público e privado, eu tenho procurado saber como é que o privado procede.
Vejo grandes empresas, que possuem um pouco de dinheiro, que fornecem dinheiro para questões culturais, mas que não sabem selecionar os projetos, ou gente que tem uma certa posição pública ou política, e que acabam recebendo ou encaminhando mais recursos para coisas deles próprios e não para coisas do conjunto. É dolorosa! É dolorosa essa relação do público e privado no Brasil. Por isso mesmo temos que revisar essa questão com muito cuidado em termos de estratégias, em termos de ética e em termos de previsão dos impactos das relações público-privado quanto às regiões e em relação aos tempos futuros. Tenho muita desconfiança da relação público-privada cada vez mais fechada. Pelas distorções nas atuais relações, devemos dar a devida importância a esse tema, em termos de ética e de planejamento metódico, integrado, bem feito e bem dirigido. Aqui no Brasil, podemos citar de imediato quais são os grandes ricos que tiveram essa trajetória extraordinária de multiplicação de recursos próprios. E eles sempre se queixam. “Nós fizemos projetos, implantamos e damos muito emprego!”. Então, a palavra emprego aí é muito genérica, porque eles usam muito a mão-de-obra barata, de migrante, de filhos de migrantes, de neto de migrantes e que não tem uma força muito grande para exigir melhores proventos. Realmente, eles cobrem uma parte dos empregos e eu bato palmas para isso. Mas, atenção, isso aí não está resolvendo tudo, porque a massa de gente braçal no Brasil não consegue ter saídas melhores e uma ascensão social mais positiva. De um lado, portanto, está a consciência técnica, científica, ética, social e etc., e do outro lado está a pirâmide social, com uma enorme base, uma base agigantada, que os políticos pretendem sempre desprezar. “Eu vou resolver o problema dessa base”, aí meu Deus, o problema pode ser até insolúvel, porque continuam problemas cada vez maiores em função da multiplicação da população dentro de classes sociais paupérrimas. Favelados e carentes, que formam a massa enorme da população brasileira. Depois temos uma classe média que é variável em cada região, por isso que o regional tem que ser estudado em todos os seus níveis. E em outros lugares você só tem a pobreza, nos altos sertões, né? Tem gente que consegue no período das secas no Nordeste, quando muito, seis dias de trabalho, e ganhando por dia de trabalho quase a mesma coisa que ganham esses pobres coitadinhos desses moços que ficam distribuindo papeletas nos cruzamentos aqui em São Paulo, não mais do que isso. Então, o que eles ganham não dá para manter uma família, e o resultado é que isso dilacera uma família. As senhoras, as mães têm que cuidar dos filhos, arranjar alimento mesmo com a maior dificuldade e sabem que o recebimento por parte dos seus companheiros é muito pequeno, e que ela não pode trabalhar. Além do que sabe também que quando os filhos chegam a uma certa idade migram para uma primeira cidade importante ou mesmo para São Paulo. Tinha que cruzar os problemas das exigências da consciência melhor que o país tem, em relação às expectativas de cada segmento da pirâmide social.

CM – Logo, o que dizer do planejamento e da relação público-privado?
Aziz - Aí vem a minha resposta para o público em particular. Tem que se procurar atender a continuidade e a funcionalidade da vida sócio-econômica e sócio-cultural de todas as parcelas, de todos os níveis da pirâmide social. Não elimino, evidentemente, aquilo que muito genericamente a gente chama de privado, que é o topo da pirâmide social.
No meu modo de entender, tanto a mais pobre das pessoas que estão lá na base da pirâmide, quanto aqueles mais ricos e de famílias mais abastadas e dotadas de condições de vida e de lazer fundamentais, tanto uns como os outros têm que ser atendidos dentro de um conjunto de políticas públicas que privilegie igualmente todas as classes sociais. Tenho uma frase para comigo, que representa um pouco da minha filosofia social, de que “ninguém escolhe o lugar geográfico para nascer, nem o ventre para nascer, nem a condição sócio-econômica do pai e da mãe, nem as condições sócio-culturais da família, nasce onde o acaso determina”. Então eu, que sou cristão, católico, apostólico, romano, me pergunto se Deus – que a gente pensa que está protegendo todo mundo – quis, se deixou alguns nascerem na beira do igarapé nos marginalizados setores da Amazônia, e outros nascerem na rusticidade dos sertões e outros nascerem nas favelas mais trágicas de uma grande metrópole de desenvolvimento desigual. É a grande pergunta que faço a mim mesmo. Então, essa realidade nos obriga a pensar em todos os seres humanos, a pensar no mais modesto dos filhos de seres humanos que estão na periferia de São Paulo, ou nos sertões, ou na Amazônia, ou no Pantanal ou em qualquer outra área, a pensar sobre eles tal como pensamos sobre os grandes ricos de nossas cidades.

CM - Professor, o senhor já definiu em quem vai votar neste segundo turno?
Aziz - No primeiro turno, eu falei claramente em quem eu ia votar [na senadora Heloísa Helena]. Neste segundo turno, eu não posso falar, por ver problemas dos dois lados. Independente de quem ganhar, teremos de cobrar que faça o melhor para o Brasil, para os mais carentes, os mais pobres. Por fim, os dois candidatos que estão no segundo turno deviam deixar de ficar fazendo esgrima com as estatísticas do que cada um fez como governante. É ridículo.





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ENTREVISTA - CHICO DE OLIVEIRA

“Agora voto em Lula”

Para sociólogo filiado ao PSOL, campanha pelo voto nulo é um equívoco. Um futuro governo Alckmin representaria um aprofundamento das privatizações de FHC. No caso de Lula, “apesar de não esperar alterações na política econômica, há espaço para mudanças”, diz ele.

Flavio Aguiar e Gilberto Maringoni - Carta Maior

SÃO PAULO – Chico de Oliveira, 72 anos, é um dos mais respeitados sociólogos brasileiros. Pernambucano de Recife, ele é professor titular aposentado do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da USP e coordenador do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania da mesma faculdade. É autor, entre outros, do hoje clássico “Crítica à Razão Dualista/O ornitorrinco” (Boitempo). Co-fundador do PSOL depois de ter deixado o PT no ano passado, Chico fala nesta entrevista dos impasses do governo Lula, das diferenças de projetos entre as candidaturas do PSDB e do PT e explica porque, depois de votar na senadora Heloísa Helena, agora vai de Lula. A seguir, os principais trechos de sua entrevista.

Carta Maior – O que está em jogo nestas eleições?
Chico Oliveira – Há duas coisas em disputa. Há uma corrida feroz em direção aos fundos que o Estado ainda controla, como os recursos do BNDES e do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador). O BNDES é o maior banco de investimentos do mundo e deixa bem para trás o Banco Mundial. O Estado orienta os fundos de pensão. E há disputa pelos benefícios gerados a partir da dívida pública, que beneficiam cerca de 20 mil famílias, segundo pesquisa do professor Márcio Pochmann, da Unicamp. Essas 20 mil famílias lucram com a dívida pública, mas não a gerem. Que gere é o Estado. A diferença maior entre as orientações de Lula e de Alckmin, em termos amplos, é que o segundo promoveria uma privatização acelerada do que resta de ativos em mãos do estado. Lembremo-nos que, segundo os levantamentos de Aloysio Biondi, em dez anos, entre os governos Collor e FHC, privatizou-se cerca de 15% do PIB.

CM – Mas não há uma continuidade do projeto do governo FHC na gestão Lula? Qual a disputa real?
CO – A continuidade faz parte da disputa pela hegemonia na sociedade. Se nos lembrarmos da lição gramsciana, hegemonia é 80% consenso e 20% violência. Há um projeto em andamento na sociedade, que atrai os setores do topo e os setores miseráveis e o povão. Se Lula tem esse projeto político na cabeça, trata-se de um gênio político. Eu acho que ele não tem, pois age muito mais por intuição do que por planos pré-definidos. Ele atua levando as práticas do movimento sindical para uma esfera maior. Como se trata de disputa de hegemonia e não de uma revolução, é natural que ele não queira acirrar os ânimos em muitas situações de conflito. Ambos – PT e PSDB - têm projetos capitalistas, mas diferentes em sua forma.

CM – A elite não tem como suportar a chegada do povo sequer aos jardins da casa grande, não?
CO – Não, porque construímos um país de desigualdade abissal. Com uma situação dessas, só é possível exercer a dominação de classe sem mediações. Por isso nós tivemos, na média, durante o período republicano, um golpe ou tentativa de golpe a cada três anos. As próprias classes burguesas estão a uma distância muito grande do povo. Nessa situação, o sistema político e os partidos perdem totalmente seu sentido. Isso explica muito a aliança de Lula com Jader Barbalho, os elogios feitos a Delfim Neto e outros. É claro que os movimentos circunstanciais explicam esse tipo de aliança. Mas ela está construída num projeto mais amplo. Talvez o projeto não esteja pré-definido e venha sendo construído pelo Lula intuitivamente. Quando ele afirma ficar chateado pelo fato de os ricos não gostarem dele, está expressando esse projeto de hegemonia, de ligar dois extremos sociais. A aproximação com o Jader está dentro disso.

CM - Como o sr. vê a mudança tática que o Lula fez nas duas últimas semanas de campanha? Ele conseguiu sair do terreno que o Alckmin queria colocar o embate – o do moralismo – e passou para o da política, através do debate das privatizações.
CO – Sem dúvida ele é um tático muito bom, não sei se é um estrategista. Não sei se ele tem, alguma coisa mais consistente por trás. Se tiver, repito, trata-se de um gênio político. Mas acho que tudo funciona através da intuição.

CM – Com tudo isso, por que considerar a possibilidade de se votar em Lula no segundo turno?
CO – Acho que a reeleição é uma nova eleição. Os espaços que tínhamos em 2002, de outra forma, voltam a se apresentar, como a questão das privatizações. Esse era um tema proibido durante o governo Lula e ainda mais na era de FHC. Os que dissentiram foram marginalizados. Por que esse tema volta agora a ser central? Por que se abre uma nova disputa. Por isso, eu considero a possibilidade de se votar em Lula. Várias forças que atuaram dentro do PT voltam a ter chance de disputar esse governo. Estou disposto a voltar a correr esse risco, embora o governo não me agrade, seja capitalista e poderia ter avançado muito mais.

CM – Como o sr. vê a campanha pelo voto nulo?
CO - Acho um equívoco e não por questões morais. Há um espaço que pode se alargar. Há diferenças entre o governo Lula e um possível governo Alckmin. Não espero mudanças na política econômica, ela continuará mesma. Mas há uma pequena chance de mudança. Por isso voto em Lula agora. E devemos usar oportunisticamente o fato de Lula precisar de votos agora, para colocar reivindicações que seu governo soterrou. Temos de atacar pelo lado social.

CM - O sr. filiou-se ao PSOL e seu partido tem outra posição...
CO - Há um equívoco no PSOL neste caso. Votei no primeiro turno em Heloísa Helena. Mas logo ela começou a desandar. Ela perdeu o voto de minha mulher quando, numa entrevista para a Globo disse, sobre o tema do PCC, que multiplicaria por dez o número de prisões. Minha mulher virou-se para mim e disse: “Aqui acabou meu apoio”.

CM – Que mudanças o sr. Espera de um futuro governo Lula?
CO - Se depender apenas das forças que apóiam Lula e da dinâmica que ele ganhou em quatro anos, não haverá mudança. Dependerá de nós, de um impulso vindo de fora.Há uma crença arraigada no Brasil de que é nos manches do estado que as coisas se solucionam. Em parte é verdade. Mas para se realizarem mudanças reais é necessário ativar a sociedade civil. Temos de incentivar muita coisa para influir. Não gosto muito de usar a expressão “movimentos sociais”, porque, fora o MST, não sei onde eles estão. Temos literalmente de encher o saco de um segundo mandato de Lula. Não podemos deixar em paz um próximo governo Lula. Se ele conseguir realizar seu projeto hegemônico com as orientações atuais, o futuro será sombrio. Teríamos de construir uma plataforma mínima, com alguns pontos básicos, como dar ao Bolsa-família o status de emenda constitucional e entrega-la à Previdência social, um dos órgãos públicos mais sérios deste país. Nas privatizações, há que se auditar e reestatizar algumas atividades. Mas eu não quero colocar condicionalidades para a votar em Lula, porque ele não vai ligar para isso. Precisamos é de uma pauta para orientar nossa ação.




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