07 julho, 2007

Por uma juventude anticapitalista para o PSOL do Rio de Janeiro!

Podemos e devemos construir uma juventude ampla, democrática e anticapitalista, que tenha acordos programáticos específicos sobre os mais diversos temas que afligem a juventude. A juventude do PSOL não deve ser pautada apenas pelas demandas existentes nas frentes em que já atuamos "tradicionalmente", em especial no movimento estudantil: acreditamos que as divergências táticas existentes nas frentes de atuação devem ser tratadas prioritariamente nesses espaços e não no PSOL.

Dessa forma, um dos pontos que devemos avançar é sobre nossa concepção de juventude. A juventude do PSOL deve levar em consideração os anseios e potencialidades da juventude do Rio de Janeiro, que em sua grande maioria encontra-se fora de espaços autônomos de organização política, participando de outros locais de convivência e socialização, como nas igrejas, ONG´s, torcidas organizadas, associações comunitárias, entre outros.

E dentro dessa perspectiva, um tema central é a violência policial e o tráfico de drogas. Em especial na parcela da juventude habitante das favelas, a repressão policial e os confrontos existentes entre estes e facções do tráfico tornou-se um drástico problema cotidiano no Rio de Janeiro, que leva a morte centenas de jovens. É importante lembrar que nenhum jovem de nenhuma comunidade tem em sua casa uma fábrica de armas super modernas ou uma refinaria de drogas, o que tem um alto custo, e devemos portanto debater sobre a questão de quem financia o tráfico e suas mazelas.

O partido de conjunto e em especial a juventude tem a tarefa urgente de construir uma forte campanha contra a redução da maioridade penal, haja vista que se trata de uma contra-ofensiva da burguesia nacional e da mídia, que criminaliza e marginaliza a juventude, como se a juventude fosse a causadora dos problemas sociais e não vítima.

Deve fazer parte da juventude do PSOL a tarefa do combate intransigente à violência policial – que não é fruto de alguma política pública errada ou ineficaz, e sim uma política seletiva de eliminar quem cria problemas a uma determinada ordem de coisas, ao mesmo tempo em que "dá o recado" aos segmentos mais pauperizados da classe trabalhadora, os quais são vistos enquanto inimigos potenciais da ordem estabelecida. Além disso, ao fim de décadas de proibição e de repressão do consumo de drogas, está mais que à vista a falência desta perspectiva.

Entretanto , atualmente a maior expressão do PSOL na juventude é a atuação no movimento estudantil. Nele, lutamos em defesa radical da educação pública, nos colocando contrários à Reforma Universitária encaminhada pelo Governo Lula e em oposição à direção majoritária da União Nacional de Estudantes, braço do Governo no movimento, através da construção da Frente de Oposição de Esquerda, a FOE-UNE e a Frente de Luta Contra a Reforma Universitária;

O novo processo de lutas que se abriu nas Universidades, cujo centro são questões imediatas como assistência estudantil, democracia interna, falta de professores e técnicos, etc, promoveu lutas e vitórias, como no caso da ocupação da Reitoria da Unicamp. A longa ocupação da Reitoria da USP simboliza que começamos a entrar numa fase importante da luta estudantil no Brasil, o que pode ser percebido no caráter massivo e radicalizado da ocupação, das assembléias e atos públicos da greve estudantil. Seguindo esse exemplo, estudantes de outras Universidades vem retomando as mobilizações, como, no caso da Rio de Janeiro, da UFRJ. Mesmo sem o apoio do DCE, mais de 400 estudantes ocuparam a Reitoria e conseguiram importantes vitórias como barrar a aprovação do REUNI, o qual reestrutura as Universidades transformando-se em imensos escolões, duplicando a proporção entre professor-aluno nestas instituições. Nosso partido foi parte de várias dessas ocupações e temos que ver como aproveitamos e impulsionamos com toda força novos processos de luta para derrotar a Contra-Reforma Universitária do Governo Lula.

Também devemos cobrir de solidariedade todos os estudantes em luta que agora sofrem perseguições das reitorias e Governos, com processos administrativos e inquéritos policiais, enquanto os verdadeiros delinqüentes nacionais continuam soltos e sem nenhuma punição, vide o caso dos bezerros de ouro do Senado envolvendo o Presidente da casa Renan Calheiros e o Senador Roriz.

No Rio de Janeiro, em 28 de março, mais de 5 mil estudantes secundaristas ocuparam a Rio Branco lutando contra o fim do passe livre, iniciando uma jornada de lutas contra a máfia do transporte, que querem acabar com esse direito. Na organização dessa mobilização, o núcleo de secundaristas do PSOL teve um papel fundamental, demonstrando assim que os militantes do partido estão em consonância com as aspirações dos estudantes. Achamos que PSOL deve ter papel de destaque nessa luta.

Dessa forma, a Juventude do PSOL deve avançar ainda no debate e atuação sobre as opressões especificas, como o machismo, o racismo e a homofobia, e na ampliação de uma intervenção ecossocialista. Uma juventude que se propõe a abarcar uma visão ampla, que tenha relação com os problemas reais de nossa sociedade, não pode deixar de lado as lutas emancipatórias e ecológicas.

Propostas para o Setorial no Rio de Janeiro:

a) - O I Congresso do PSOL do Rio de Janeiro reconhece o Setorial de Juventude do PSOL como órgão partidário, bem como sua auto-organização (formulação e definições);

b) - Uma forma de iniciarmos a construção do setorial na prática é a construção de grandes campanhas que tenham como norte temas que afligem diretamente a juventude, como a redução da maior idade penal.

c) - Devemos indicar a construção de um Encontro de Fundação do setorial de Juventude do PSOL no Rio de Janeiro, que terá como tarefas: avançar na concepção de juventude do PSOL, apontar as principais frentes de atuação e as tarefas para o Setorial, bem como discutir e encaminhar elementos de organização que colaborem para a intervenção junto aos movimentos sociais;

d) - As deliberações do Encontro de Fundação deverão ser tiradas o mais consensualmente possível, como resultado de intenso debate e acúmulo coletivo da juventude, a exemplo do Encontro Estadual de Juventude do PSOL-SP, realizado no primeiro semestre de 2007;

e) - A data do Encontro de Fundação deverá respeitar a agenda dos movimentos sociais nos quais atuamos (ex: Conune e Conubes), acontecendo prioritariamente antes do Encontro Nacional de Juventude do Partido.

f) - O PSOL precisa garantir através de suas instâncias a estrutura necessária para realização do Encontro da Fundação (ônibus, alojamento, etc);

g) - O Formato deste Encontro e seu regimento interno deve ser deliberado numa plenária de Juventude Estadual do PSOL do Rio de Janeiro, amplamente divulgada, respeitando assim sua auto-organização. Devemos garantir a autonomia do setorial inclusive na construção de propostas alternativas ao que se encaminha sobre o Encontro Nacional. Devemos indicar também, portanto, que esta plenária faça um balanço da deliberação sobre Setorial de Juventude existente no Congresso do PSOL.

30 junho, 2007

UNIDADE DA ESQUERDA: Nem sectarismo, nem conciliação

Ivan Pinheiro (*)

Desde o advento do primeiro governo Lula, a esquerda brasileira está dividida em dois blocos. De um lado, na base de sustentação do governo, PT, PcdoB, PSB, mais CUT, UNE e MST. De outro, PCB, PSOL e PSTU, formando com outras organizações uma frente de oposição de esquerda. No movimento social, desta frente surgiram a Conlutas, num primeiro momento, e a Intersindical, mais recentemente.
Todas essas forças políticas estavam unidas no enfrentamento ao governo FHC e apoiaram Lula, pelo menos no segundo turno de 2002. Com a posse deste, as divergências -- esmaecidas em razão da unidade na luta contra FHC -- passaram a fazer parte do cotidiano. Agora se tratava de governar!
A divergência fundamental entre estes dois blocos diz respeito ao caráter da revolução brasileira. Os que apóiam o governo Lula, e ainda se dizem socialistas, defendem uma etapa nacional-democrá tica, portanto em aliança com a "burguesia nacional", daí decorrendo a opção preferencial pela luta institucional.
Já a oposição de esquerda considera que o capitalismo brasileiro é plenamente desenvolvido e fundamentalmente associado ao grande capital internacional, razão pela qual a revolução brasileira tem hoje caráter socialista. No caso do PCB, isto não significa subestimar as lutas nacionais, democráticas e populares, embora sem considerá-las como uma etapa estanque, mas sim como parte da dialética do processo revolucionário.
A partir da reeleição de Lula, fica cada vez mais claro que se trata de um "novo" governo, mais conservador que o primeiro. Os indícios são muitos, entre os quais destacam-se:
- a enorme base de sustentação, centrada no PMDB e nos partidos conservadores;
- o definhamento da esquerda petista nas direções partidárias, nas bancadas e nos governos estaduais e municipais;
- o agravamento do fisiologismo, da cooptação e da corrupção;
- a retomada do calendário de contra-reformas neoliberais;
- o realinhamento da política externa para o "centro", aproximando- se do governo Bush e se afastando dos governos populares e progressistas da América Latina;
- o fetiche do crescimento a qualquer preço, mesmo que sacrificando direitos sociais e trabalhistas e o meio-ambiente;
- um viés autoritário, marcado pela tentativa de restrição ao direito de greve e pela criminalização de movimentos sociais.
A confiança das massas em Lula é tão grande que lhes deram uma segunda chance, perdoando todas suas vacilações e traições do primeiro mandato, debitadas generosamente na conta das dificuldades por não ter maioria e outras desculpas. Só que agora as massas começam a refletir sobre sua própria experiência. Com o início do processo de desilusão, reanima-se aos poucos o movimento de massas em nosso país.
É nesse quadro que se dá a possibilidade da recomposição da unidade de parte da esquerda brasileira. Pressionados no movimento social, perdendo espaço político, setores sindicais e populares da esquerda governista se aproximam da esquerda oposicionista, daí resultando atos amplos e unitários, como o Encontro Nacional Contra as Reformas, em 25 de março, em São Paulo, alguns atos do Primeiro de Maio e, mais recentemente, as manifestações do Dia Nacional de Luta, em 23 de maio.
A nosso ver, a esquerda oposicionista deve-se comportar com relação a esta tendência de forma equilibrada, pensando grande e longe, ou seja, privilegiando os interesses táticos e estratégicos do proletariado e dos trabalhadores em geral.
Isto significa, em primeiro lugar, reconhecer que é positivo que setores governistas de esquerda se afastem do governo e retornem às lutas populares. Tanto para derrotarmos a agenda de contra-reformas como para a construção do bloco histórico, na perspectiva do socialismo. Sendo assim, devemos tratar esses setores sem sectarismo, respeitando o ritmo e as limitações de cada um. Sem ilusões. Primeiro, porque não são todos os setores da esquerda governista que farão esta inflexão. Segundo, porque alguns deles podem estar fazendo apenas uma manobra tática, para não perderem entidades de massa e/ou se cacifarem na base de sustentação do governo.
Mas também não podemos cair no outro extremo, no outro erro, tão grave quanto o sectarismo: a conciliação. Não podemos fazer de conta que as divergências acabaram. A unidade se faz com luta. Respeitar as limitações não significa aceitar manipulações ou vacilações que, ao invés de ajudar, atrapalham a luta de classe.
É óbvio que cada lado tem que flexibilizar suas posições, sob pena de inviabilizar a unidade de ação. Por exemplo, se os governistas não podem (ainda) aceitar um ato de oposição ao governo, mas podem participar de um ato apenas contra a política econômica, podemos aceitar que este seja o eixo, mesmo sabendo que não existe um "governo bom, com uma política econômica ruim" e que a política econômica não era "do Palocci", como não é "do Meireles", mas do Presidente Lula. Portanto, podemos participar de um ato conjunto na porta do Ministério da Fazenda, mas desde que ali cada um faça o seu discurso com liberdade e que todos se respeitem.
Para dar outro exemplo, a esquerda oposicionista pode e deve participar da campanha pela "anulação do leilão de privatização da Vale do Rio Doce" , hoje hegemonizada por importantes setores de esquerda, que adotam uma postura de independência com relação ao governo Lula. Mas não podemos abrir mão de deixar claras algumas questões a respeito:
- o centro da luta deve ser a mobilização para exigir a convocação de um PLEBISCITO POPULAR pela anulação do leilão da Vale, mas deixando claro que o objetivo da anulação é a REESTATIZAÇÃO da empresa, para colocá-la a serviço dos interesses populares e não os do capital.
- a argumentação central não pode ser que o preço pago no leilão foi baixo; nem o espaço principal da luta pode ser a via judicial. São dois erros, que podem levar a justiça a legitimar o leilão ou a marcar outro ou, ainda, a condenar o consórcio vencedor a pagar uma indenização, para compensar o baixo preço!
- a privatização da Vale foi um ato político, que assumiu também uma forma jurídica. A luta, portanto, deve ser eminentemente política. Deixar a anulação daquele ato político apenas nas mãos da justiça, além da ilusão de classe e dos riscos apontados, significa isentar o governo Lula e o Congresso Nacional da crítica pela omissão e cumplicidade com relação às privatizações da era FHC.
- além do mais, não podemos deixar de lado a luta pelo fim dos leilões da Petrobrás, iniciados por FHC e mantidos por Lula.
Finalmente, ainda sobre o tema da ampliação da unidade, mesmo estimulando- a, em nome dos interesses da classe, não podemos abrir mão da construção e fortalecimento da frente da esquerda oposicionista, até porque as divergências de fundo com a esquerda governista não desapareceram. E a principal delas, como se disse aqui, são as ilusões num projeto nacional-desenvolvimentista e na democracia burguesa.

(*) Ivan Pinheiro é Secretário-Geral do PCB

O Nordeste é Viável sem Transposição e com Ética na Política.

De São João a São Pedro, o Nordeste todo se une em sua maior festa. Coincidente com as colheitas no sertão, é a festa da fartura, da solidariedade e da alegria. Do Nordeste viável, auto-sustentável e soberano. Nós, os movimentos populares e entidades civis da Bacia do Rio São Francisco e de todo o Nordeste, vimos festejar em Cabrobó-PE para mostrar que o Nordeste não precisa deste projeto traiçoeiro chamado “integração de bacias”, a mesma antiga transposição. Acampados em cerca de 2000 pessoas junto ao canteiro de obras, no km 29 da BR 428, vimos exigir a imediata suspensão das ações que dão início às obras da transposição. Em sinal de outro desenvolvimento, voltado para a população e não para o capital, nos irmanamos ao Povo Truká e aos indígenas de todo o Nordeste na retomada desta terra, da Fazenda Mãe Rosa, desapropriada para a transposição, território Truká desde tempos imemoriais.

Água nos açudes e cisternas, caatinga verdejante, comidas de milho, requeijão e paçoca, licores e muito forró ao redor da fogueira... Sinais do Nordeste bonito e viável, evidências do que pode o período chuvoso do semi-árido, se para ele deslocarmos o foco, concentrarmos os esforços, investirmos. Ao optar por obra contra a seca e não a favor do semi-árido e sua dinâmica sócio-ambiental, o governo erra mais uma vez, como tem acontecido historicamente. A proposta de conviver com o semi-árido – esperava-se desse governo – sepultaria a política e a indústria do combate à seca e consolidaria a política do aproveitamento do chuvoso, pois é neste e não na seca que se decide a vida do sertão e do sertanejo. A transposição, barganhada e em nome de uma falsa revitalização das bacias do Nordeste, significa uma “travessia para o passado”. A questão não é doar água ou não, mas qual desenvolvimento, a que preço e para quem. E como enfrentar os limites impostos pelas mudanças climáticas globais, que tendem a diminuir os mananciais do Rio São Francisco e desertificar o semi-árido.

Este é o terceiro acampamento que fazemos, o último em Brasília por uma semana no mês de março, com 740 pessoas. Já se somam quase uma centena de manifestações públicas. Sequer fomos recebidos, muito menos ouvidos ou considerados. Será por que significamos a incômoda verdade sobre esse projeto e o que ele vai trazer de falso desenvolvimento para o Nordeste? Ou é porque vivemos num blefe de democracia? Ditadura de novo, com desenvolvimentismo e até ação do Exército?

O processo transcorrido até aqui não foi democrático nem republicano e desabona o projeto, seus promotores e lobistas: estudos de impacto ambiental formais e incompletos; críticas fundamentadas dos principais especialistas; desrespeito às decisões do Comitê de Bacia; descumprimento do acordo feito com D. Luiz Cappio, ao encerrar a greve de fome, em novembro de 2005, para que houvesse um amplo e sério debate nacional sobre o assunto; incertezas e inverdades quanto as reais motivações do projeto, quanto a seus custos e a quem vai pagar a conta; propaganda enganosa sobre seu alcance, ao manipular a opinião pública e inventar um público beneficiário de 12 milhões de sedentos, na verdade, os que vão pagar a conta dos grandes usos econômicos intensivos em água; irregularidades flagrantes detectadas pelo Tribunal de Contas da União; indícios de corrupção (caso da Gautama, empreiteira candidata ao segundo trecho mais caro da obra); ocultação ao debate público dos projetos de transposição do Rio Tocantins para os Rios São Francisco e Parnaíba; compra descarada de apoio dos políticos do São Francisco, com verbas da revitalização; chantagens de um pseudo-desenvolvimento transmutado em crescimento econômico a qualquer custo e sem futuro... São motivos mais que suficientes para que esse projeto seja arquivado. E que a sociedade cobre essa única atitude digna de um Estado de Direito democrático e republicano.

Transposição não é solução – esta a verdade que não quer calar!
Queremos um programa verdadeiro de convivência com o semi-árido;
Queremos um projeto de desenvolvimento regional que atenda às reais necessidades da população do semi-árido e do São Francisco e não de uma minoria de empresários nacionais e estrangeiros;

Queremos a democratização do acesso à água, com acesso livre da população aos açudes e às adutoras;
Queremos controle social sobre os usos das águas dos açudes e reservatórios geridos com competência;
Queremos destinação prioritária das águas para a agricultura familiar e camponesa;
Queremos a implementação imediata das 530 obras do Atlas Nordeste da ANA – Agência Nacional de Águas para levar água a 34 milhões de habitantes do Polígono das Seca;

Queremos programas que ampliem, divulguem e implantem as mais de 140 tecnologias hídricas, agrícolas e ambientais de convivência com o bioma caatinga e o clima semi-árido;

Queremos reforma agrária ampla e efetiva e regularização dos territórios tradicionais, a começar pelas áreas dos Povos Truká, Tumbalalá, Pipipã e Cambiwá, atingidos pela transposição;

Queremos a suspensão das barragens de Pedra Branca, Riacho Seco e Pão de Açúcar e de Centrais Nucleares na região;

Queremos uma revitalização do Rio São Francisco que seja para valer!

Queremos que o Supremo Tribunal Federal tome finalmente a decisão e que essa seja contrária ao projeto;

Queremos o arquivamento definitivo do projeto de transposição!

CONVIVER COM O SEMI-ÁRIDO É A SOLUÇÃO! SÃO FRANCISCO VIVO – TERRA E ÁGUA, RIO E POVO!


Cabrobó, 26 de junho de 2007.

MST - MPA - MMC - MAB - APOINME - MONAPE - CETA - SINDAE - CÁRITAS - CIMI - CPP - CPT - ASA - AATR - PJMP - CREA/BA - SINDIPETRO AL/SE - CONLUTAS - Federação Sindical e Democrática de Metalúrgicos do Estado de MG - Terra de Direitos - Fórum Nacional da Reforma Agrária - Rede Brasileira de Justiça Ambiental - Fórum Permanente em Defesa do Rio São Francisco / BA - Fórum de Desenvolvimento Sustentável do Norte de MG – Fóruns de Organizações Populares do Alto, Médio, Submédio e Baixo São Francisco - Frente Cearense Por uma Nova Cultura da Água Contra a Transposição - Projeto Manuelzão/MG - STRs, Colônias de Pescadores, Comunidades Ribeirinhas, Indígenas, Quilombolas, Vazanteiras, Brejeiras, Catingueiras e Geraiseiras da Bacia do Rio São Francisco

Rio São Francisco: Carta dos povos Truká e Tumbalalá

Cabrobó, 17 de fevereiro de 2005

Nós, lideranças e comunidade do povo Truká, reunidos na Ilha da Assunção, queremos manifestar nossa indignação com a postura do Governo federal, frente ao debate sobre a transposição do rio São Francisco(nosso rio, nosso alimento e, principalmente, nossa vida, dado por Deus aos nossos antepassados) e o comportamento da Polícia Militar do estado de Pernambuco, que todas as vezes que vamos participar de alguma reivindicação para o nosso povo, fica com carros na entrada da Ilha da assunção, nosso território, bloqueando a passagem, intimidando, constrangendo, insultando e tratando todos nós como bandidos.

Os fatos:

1- Em janeiro deste ano, aconteceu uma audiência pública sobre a transposição, na cidade de Salgueiro, Pernambuco, onde os indígenas Truká e Tumbalalá solicitaram do Governo Federal que fosse realizada uma reunião de esclarecimento a população de Cabrobó, local de onde sairia um dos canais da transposição, para aprofundarmos o debate, e que essa reunião não teria o caráter de audiência pública. Ficou acordado que a reunião ocorreria no dia 17 de fevereiro de 2005.

2- A TV Grande Rio (filiada a Rede Globo), noticiou na noite do dia 16 de fevereiro, portanto às vésperas da reunião, que esta não aconteceria mais, provocando uma desmobilização nas comunidades ribeirinhas e nos povos Truká e Tumbalalá. Para nossa surpresa, alguns indígenas que se encontravam em Cabrobó, no dia 17 de fevereiro, descobriram que o Ginásio Valdemir Jacinto Pereira(Araujão) estava pronto para acontecer a reunião, que muitos diziam ser audiência pública.

3- Logo pela manhã do dia 17 de fevereiro, a cabeça da ponte, na entrada da Ilha da Assunção, estava repleta de policiais abordando e constrangendo os índios que passavam para a cidade, numa atitude desrespeitosa e preconceituosa. Nós perguntamos: por que não se revistou as pessoas da cidade que foram até o ginásio participar da reunião?

Queremos, neste momento, reafirmar nossa disposição em discutir a transposição com a sociedade de Cabrobó e com nossos irmãos Tumbalalá, além de reafirmar que somos contrários a transposição, pois temos várias razões de desconfiar destas propostas:

a) Até hoje, esse governo que ai está nunca atendeu a pauta de reivindicações dos povos indígenas, e quando aparece vem barganhar.

b) Até hoje, esse governo nunca veio até nossa comunidade apresentar a análise de impacto ambiental e social, causada pela transposição.

c) O governo não fala em revitalização do rio, não fala das cidades que o rio banha e que não tem saneamento básico, poluindo o rio, matando nossos peixes, não fala que o rio diminui seu volume de água, a cada dia, ameaçando aqueles que vivem da agricultura e da pesca nas margens do Velho Chico.

d) O governo que enviar água para outros estados, ?para combater a seca?, mas muitos que moram a poucos quilômetros do rio não tem acesso a água deste. Fala que a água é para o consumo humano, mas como será que o povão vai pagar esta água, que segundo os técnicos do próprio governo terá um custo muito alto?

Nós somos contrários a privatização das águas do que resta do São Francisco, porque isso viola o nosso direito a vida, porque não aceitamos vender nossa liberdade, porque não queremos ser cativos de um novo senhor de escravos.

POVO TRUKÁ-PE e POVO TUMBALALÁ-BA

http://www.cimi.org.br/?system=news&action=read&id=1069&eid=341
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2007/06/386492.shtml

25 junho, 2007

Movimento pró-aula: O renasce o fascismo!

A UFS passa por um momento ímpar, uma paralisação de estudantes que lutam por melhorias reais para a universidade e que são solidários aos estudantes prejudicado pelo fechamento do Restaurante e da Biblioteca.

Junto com a greve dos técnicos e apoiados pela assembléia dos professores, o movimento cresce, ganha força e incomoda cada vez mais pessoas, que não tendo a mesma força de organização e peso social do movimento de paralisação inventaram o tal movimento pró-aula.

O primeiro traço fascista desse movimento é buscar a racionalidade (vide texto divulgado pelos murais da UFS) onde ela de fato não existe. Segundo Adorno, A racionalidade fascista consiste muito mais no estabelecimento de um sistema onipotente de poder do que no respeito a algum tipo de “filosofia”. Daí os pró-aulas se consideram os paladinos da verdade, mas como não tem força social alguma buscam as formas de poder constituídas, seja o Reitor, a polícia ou ainda a justiça.

Outro traço fascista desse tal movimento é a máxima nazista de que uma mentira contada várias vezes se torna uma verdade. Como já foi dito, esse tal movimento não tem força social alguma, se compõe de no máximo seis pessoas e por isso a sua trincheira preferida tem sido o orkut, no qual não se cansam de jogar boatos e espalhar mentiras. Rechaçados nas assembléias estudantis e humilhados na assembléia de professores, eles não tem mais como argumentar contra a paralisação e por agora lançam suas calúnias e meias-verdades contra o DCE, que constrói a paralisação mas não a comanda, como eles querem impor por meio de suas mentiras.

Por fim, eles desconsideram toda a forma democrática de construir decisões. |Baseados em legalismos arcaicos e que em nada poderão mudar os rumos das coisas, tentam deslegitimar a maior assembléia estudantil da história da UFS, assembléia na qual eles participaram e foram derrotados. Por isso se apegam a aspectos legais e a autoridades, o que demonstra sua incapacidade de pensar de forma autônoma, de construir algo novo, por fora das imposições que nos oprimem a cada dia.

Esse movimento pró-aula, como todo o fascismo, nasceu para pertencer ao lixo da história, por isso não podemos levar em conta essa meia dúzia de pessoas vaidosas e egoístas.

Aos que são contra a paralisação, sabem pensar e querem manter um diálogo sadio sem a tutela do Reitor, Ministério público e etc, àqueles que pensam de forma autonôma, estamos abertos ao diálogo, basta entrar em contato por email ou ir à UFS todos os dias, pois estamos lá!

Mike Gabriel Almeida Lopes
Estudante de Ciência da Computação/UFS
Diretório Central dos Estudantes/UFS
Construindo a Frente de Paralisação Estudantil
http://paralisacao2007.blogspot.com/

05 maio, 2007

A DECISÃO DE CHAVEZ SOBRE A RCTV – COMO A GLOBO MENTE

Laerte Braga

O sindicato de trabalhadores do canal privado RCTV, na Venezuela, cuja concessão não foi renovada pelo presidente Hugo Chávez, denuncia em nota a pressão e a tensão geradas a partir do dono da empresa, Marcel Granier. A nota chama a direção da rede de tevê de “terrorista”.

É hilário ver a GLOBO através do JORNAL NACIONAL defender a liberdade de imprensa. A rede se caracteriza pela mentira e pela defesa de interesses que não dizem respeito nem ao Brasil e nem aos brasileiros. É a ponta de lança da Roça de Cana entre nós. Sua história foi construída ao longo desses 45 anos em que existe, em cima disso: mentira, farsa, manipulação.

A RCTV foi partícipe do que se chama o “primeiro golpe midiático” do mundo, constatado no documentário de dois cineastas irlandeses “a revolução não será televisionada” . O papel da rede na construção da mentira que derrubou o presidente Chávez em 2002, numa quinta-feira, mas não conseguiu impedir seu retorno no domingo, é confesso e mostrado sem nenhum pudor dos jornalistas que executaram o esquema montado pelas elites venezuelanas e por Houston.

Num determinado momento se mostra com clareza os próprios apresentadores de tele jornais das principais redes privadas da Venezuela, rindo e confessando toda a sorte de truques para tentar derrubar o governo Chávez. As notícias falsas, as armações, como prossegue, ao longo do processo de quatro dias, ignorando a presença de milhões de cidadãos venezuelanos nas ruas exigindo a volta de Chávez.

A GLOBO foi fundada com capitais do grupo TIME/LIFE, do ex-EUA (hoje Texas e estados agregados). Era o nome hoje do grupo TIME/WARNER. O seu papel, desde o primeiro momento ficou muito claro: vender o modo texano de vida para os brasileiros.

Ao longo de sua história não fez outra coisa que não isso. São fartos os exemplos da mentira global. Silenciou por todo o período da ditadura militar da qual era porta-voz e só rompeu com o esquema quando percebeu que o seu ciclo se encerrara.

Enquanto pode serviu. Serviu ao ignorar a campanha das diretas já. Serviu, posteriormente, no chamado processo democrático, a um presidente inventado pela própria rede, Collor de Mello, ignorando as manifestações de rua pelo impedimento do governante corrupto.

E, agora em 2002, usou e abusou de todas as formas possíveis de manipulação para tentar impedir a reeleição do presidente Lula. Mentiu e forjou um dossiê em cumplicidade com um delegado da Polícia Federal e empresários paulistas. Mentiu na tal Caravana da Cidadania mostrando dados falsos que levaram o governador do Paraná, Roberto Requião, a chamar a “jornalista” Miriam Leitão de “irresponsável” por mentiras e notícias falsas. A distinta e veneranda senhora engoliu a afirmação, pois mentiu e o fez deliberadamente.

William Bonner, o robô que apresenta e edita o tele jornal da emissora, carro chefe do jornalismo, JORNAL NACIONAL, chamou de “Homer Simpson” o telespectador brasileiro ao ser questionado por um professor da faculdade de Comunicação da Universidade de Campinas, sobre ignorar notícias que contrariassem os interesses texanos.

A manipulação é característica da rede.

No golpe contra Chávez, em 2002, a veneranda senhora Miriam Leitão passou uma semana em Caracas, duas semanas antes do dito golpe, fazendo uma série de reportagens para o JORNAL NACIONAL, onde se disse que o povo estava contra Chávez. Nem uma palavra sobre Chávez, num domingo, ter sido reconduzido ao poder por força das manifestações populares.

O fato não é isolado e nem é gratuito, como agora, apresenta dados falsos sobre a não renovação das concessões da RCTV, exatamente por Chávez ter tido a coragem de enfrentar golpistas manipuladores da opinião pública, como a GLOBO por aqui.

O governo Chávez não censura, nem violenta a liberdade de imprensa ao cassar os conais da rede RCTV. Exerce o direito legítimo de punir um grupo aliado a grupos anti-nacionais e cuja única preocupação é o golpismo.

Liberdade de imprensa não significa liberdade de mentir, de ignorar fatos, de manipular ou de transformar o tele jornalismo em espetáculo ora deprimente, ora festivo do mundo de plástico que criaram a partir das ranchos texanos.

Não existe revolta por parte dos trabalhadores na RCTV, exceto na elite padrão Miriam Leitão. A nota do sindicato mostra e deixa isso claro. Há um apoio preciso à decisão do presidente Chávez.

O que a GLOBO procura fazer refletir sobre o fato é apenas e tão somente a preocupação da mídia, hoje sob controle dos grupos que dominam países sul-americanos e atendem a interesses do capitalismo, de perder os seus espaços e serem enfrentados sem medos.

Há uma passagem no documentário “a revolução não será televisionada” que mostra isso de maneira clara. É quando na reunião dos opositores de Chávez, num bairro nobre de Caracas, o cidadão que dirige a dita reunião, alerta para os riscos que representam os “empregados domésticos”, ligados a grupos bolivarianos e que seriam “espiões de Chávez”. O preconceito manifesto de forma explícita e vergonhosa, ao vivo, sem disfarces e sem retoques.

O que são os veículos de comunicação em Roça de Cana? A família Marinho, a família Frias, a família Mesquita, a família Civita e mais duas ou três. Canais de tevê e rádio viraram moeda de troca política. Collor, ACM, Sarney, por exemplo, são parceiros da GLOBO nos seus respectivos estados. As tais redes afiliadas. Um sem número de deputados recebeu concessões de rádio e tevê em suas bases, para votar a emenda que permitiu a reeleição de Fernando Henrique Cardoso.

A atitude de Chávez é correta, respeita a liberdade de expressão, mas enfrenta a mentira e a manipulação através de veículos cujos interesses não estão nessa liberdade. Mas nas mentiras das muitas Mirians Leitões espalhadas por toda a América do Sul.

Como são mentirosos os dados GLOBO sobre o fato.

Terminado com o retorno de Chávez o episódio do golpe montado pelas redes privadas de tevê em seu país, dentre elas a RCTV, um dos grandes empresários do setor, Cisneros, esteve no Brasil, tentando apoio para o referendo de agosto daquele mesmo ano, onde o governo Chávez seria julgado. Diga-se de passagem que o referendo, que permite ao povo opinar sobre o seu governo na metade do mandato, foi criação do próprio Chávez.

Por toda a semana que antecedeu o referendo a GLOBO divulgou pesquisas dos tais institutos “sérios e acreditados” afirmando que havia um empate técnico e que crescia o número dos que repudiavam o governo Chávez. Nos dois dias que antecederam a votação mudou o discurso. Ao invés de empate técnico, suspeitas de fraudes a serem cometidas pelo governo e seus partidários.

Terminada a contagem dos votos Chávez foi confirmado com mais de 60% dos votos dos venezuelanos. Jimmy Carter, enviado pelo governo do Texas para dizer que houve fraude não teve alternativa. Diante da lisura do processo de votação foi claro: “o governo foi legitimado pelo povo”.

Por trás de toda essa farsa que a GLOBO tenta transformar em verdade, estão os interesses das principais quadrilhas venezuelanas, parceiras das principais quadrilhas do crime organizado e legalizado. Bancos, grandes empresas multinacionais, a política terrorista e colonizadora de Houston, o mundo segundo a ótica do enviado divino George Bush.

O que Chávez fez ao não renovar as concessões da RCTV foi exercer o direito legítimo de livrar seu país de uma empresa a serviço desses interesses. É o que a GLOBO faz no Brasil.

Um exemplo a mais da manipulação e do comprometimento da GLOBO com grupos que controlam o Estado brasileiro: para noticiar o dossiê e forçar um segundo turno as eleições de 2006, o JORNAL NACIONAL ignorou um acidente, o maior acidente aéreo acontecido no País e noticiado duas horas antes por todas as outras emissoras de tevê, redes nacionais, no então Brasil, hoje Roça de Cana.

Era preciso, àquele momento, cumprir o papel de manipuladora. O acidente era detalhe perto dos interesses que a rede representa. A RCTV é a mesma coisa. O que difere é que Chávez toma atitudes.

30 março, 2007

Os heróis de Lula não morreram de overdose

O segundo mandato de Lula da Silva não começou com uma pancada única como foi em 2003 com a reforma previdenciária. Mas que ninguém se engane, o que estamos assistindo é muito pior e ainda mais perverso. Porque são muitas pancadas, ataques amplos, vários deles com profundas e danosas conseqüências de médio prazo e que não estão sendo sentidas de imediato pelos trabalhadores e o povo porque são feitos no varejo.

Estamos no final do 1º trimestre do ano. Já foram anunciados o PAC e seu conjunto de medidas para tentar regulamentar um grande projeto de parceria público-privado, sem tocar um centavo na remuneração sagrada e orçamentária ao capital financeiro e ainda atirando sobre a classe trabalhadora. Embutidos nesse projeto estão a garfada no FGTS, o arrocho no salário mínimo e o congelamento dos salários dos servidores públicos.

Já fomos devidamente informados do ataque aos rendimentos da poupança, da tentativa de “regulamentar” o direito de greve no setor público, da parceria política e comercial com o governo Bush (o maior terrorista do planeta).

Some-se a isso a esculhambação do “espetáculo do crescimento” de cargos e ministérios para a montagem e acomodação do governo de coalizão.

Quando dava a impressão, após a visita de Bush, que estava esgotada a cota de barbaridades para o 1º trimestre do ano, quando, até pelo instinto humano de não desejarmos ver tantas más notícias em tão pouco tempo, ou por acreditarmos que nada pode ficar mais indecente do que já está, eis que, em uma mesma semana, em um espaço breve de três dias, Lula declara os usineiros como heróis mundiais e reabilita Collor de Melo.

A declaração ao heroísmo dos usineiros ocorreu na mesma semana em que a fiscalização do próprio ministério do Trabalho revelou as condições de semi-escravidão dos trabalhadores das usinas de cana-de-açúcar em São Paulo, condições que já resultaram, por exemplo, em mais de uma dezena de mortes por exaustão!

Até onde irá a arrogância e a estupidez de capataz que o presidente tem demonstrado é uma questão a ser decidida pelos próximos anos. Façam suas apostas. Mas o que é gravíssimo é que estamos diante de um retrocesso histórico, tragicamente patrocinado por um governo oriundo do movimento operário e popular.

Pois, desde que Bush aqui esteve, vai ficando ainda mais claro que, por trás do bonito discurso das fontes alternativas de combustível, nas quais o Brasil, com seu etanol, ocuparia um papel de destaque no cenário internacional, está sendo operada a entrega e associação de setores do agronegócio com empresas norte-americanas para a produção do etanol, às custas de uma super exploração do trabalho, digna de século XVIII.

Quanto à reabilitação política de Collor, bem, dá apenas uma dimensão da perda de caráter e de qualquer padrão moral de coerência e memória histórica do próprio presidente; pior do que isso, representa uma bofetada em dezenas de milhões de homens e mulheres, que não dedicaram décadas de suas vidas para que um projeto de mudanças terminasse em tal grau de rendição e de abjeta revisão histórica.

Tomando a liberdade de parafrasear os versos de Cazuza, os novos heróis de Lula não morreram de overdose, mas, definitivamente, os nossos inimigos estão no poder.

Fernando Silva,
jornalista, membro do diretório nacional do PSOL e do Conselho Editorial da revista Debate Socialista

Leia a íntegra da fala de Fidel Castro sobre biocombustíveis

FIDEL CASTRO
no "GRANMA"

Mais de três bilhões de pessoas estão condenadas a mortes prematuras por fome e sede, em todo o mundo.

Não se trata de um número exagerado; na verdade, é uma estimativa cautelosa. Pensei bastante sobre isso depois da reunião do presidente Bush com as montadoras de automóveis norte-americanas.

No dia 26 de março, a sinistra idéia de converter alimentos em combustíveis se estabeleceu definitivamente como diretriz econômica de política externa para os Estados Unidos.
Um artigo da agência de notícias norte-americanas AP, distribuído a todos os cantos do mundo, afirmava, textualmente:

"WASHINGTON, 26 de março (AP). O presidente George W. Bush elogiou na segunda-feira os benefícios dos automóveis que funcionam com etanol e biodiesel, durante uma reunião com montadoras de automóveis na qual buscou estimular seus planos para combustíveis alternativos.

Bush disse que um compromisso dos líderes da indústria automobilística nacional quanto a duplicar sua produção de veículos acionados por combustíveis alternativos ajudaria a convencer os motoristas a abandonar os motores a gasolina e a reduzir a dependência do país com relação ao petróleo importado.

'Trata-se de um grande avanço tecnológico para o país', disse Bush depois de inspecionar veículos movidos a combustíveis alternativos. 'Se o país quer reduzir o consumo de gasolina, é preciso oferecer ao consumidor a possibilidade de tomar uma decisão racional.'

O presidente instou o Congresso a aprovar em regime acelerado um projeto de lei proposto recentemente pelo governo que disporia o uso de 132 bilhões de litros de combustíveis alternativos no país em 2017, e imporia padrões mais exigentes para o consumo de combustível em automóveis.

Bush se reuniu com o presidente-executivo e do conselho da General Motors, Rich Wagoner; com o presidente-executivo da Ford Motor, Alan Mulally; e com o presidente-executivo do Chrysler Group, Tom LaSorda.

Os participantes da reunião discutiram medidas de apoio à produção de veículos acionados por combustíveis alternativos, metas para desenvolver a produção de etanol com base em materiais como gramíneas e serragem, e uma proposta para reduzir em 20% o consumo de gasolina em prazo de 10 anos.

As discussões se realizaram em um momento de alta nos preços da gasolina. O mais recente estudo da Lundberg Survey sinaliza que o preço médio da gasolina nos Estados Unidos subiu em 1,58 centavo por litro, para US$ 0,69 por litro."

Acredito que reduzir e também reciclar todos os motores que consomem eletricidade e combustível é uma necessidade elementar e urgente para toda a humanidade. A tragédia não consiste em reduzir os gastos com a energia, mas sim na idéia de converter alimentos em combustíveis.

Hoje se sabe com toda precisão que uma tonelada de milho produz uma média máxima de 413 litros de álcool, a depender das densidades.

O preço médio do milho nos portos dos Estados Unidos se eleva a US$ 167 por tonelada; portanto, para produzir 132 bilhões de litros (35 bilhões de galões) de álcool seriam precisos 320 milhões de toneladas de milho.

De acordo com dados da Organização Mundial de Agricultura (FAO), a safra de milho dos Estados Unidos foi de 280,2 milhões de toneladas em 2005.

Ainda que o presidente fale em produzir combustível com base em grama ou lascas de madeira, qualquer pessoa pode compreender que são afirmações desprovidas de realismo. Para compreender basta dizer que 35 bilhões de galões querem dizer 35 seguido por nove zeros!

Virão mais tarde belos exemplos da produtividade por pessoa e por hectare que os experientes e bem organizados agricultores norte-americanos atingiram: o milho convertido em álcool os resíduos de milho convertidos em ração animal com 26% de proteína; o excremento de gado usado como matéria-prima para a produção de gás. Isso, claro, depois de elevados investimentos que só estão ao alcance das empresas mais poderosas, nas quais tudo precisa funcionar na base do consumo de eletricidade e combustível.

Se essa receita for aplicada aos países do Terceiro Mundo, veremos quantas pessoas entre as massas famintas de nosso planeta deixarão de comer milho. Ou algo pior: se financiamentos forem concedidos aos países pobres para que produzam álcool de milho ou de outros alimentos, não restará uma árvore para defender a humanidade contra as alterações climáticas.

Outros países do mundo rico planejam usar não só milho mas também trigo, sementes de girassol, de colza e outros alimentos na produção de combustível. Para os europeus, por exemplo, seria negócio importar toda a soja do mundo a fim de reduzir o gasto com os combustíveis de seus automóveis e alimentar seus animais com os resíduos do cereal, especialmente rico em todos os tipos de aminoácidos essenciais.

Em Cuba, diversos tipos de álcool são gerados como subproduto da indústria açucareira, depois da realização de três extrações, do açúcar ao sumo de cana. A mudança do clima está afetando nossa produção de açúcar. Grandes secas e chuvas recorde se alternam, e isso só permite produzir açúcar durante cem dias com rendimento adequado nos meses do nosso muito moderado inverno, de modo que falta açúcar por tonelada de cana ou falta cana por hectare cultivado devido às prolongadas secas nos meses de semeadura e cultivo.

Na Venezuela, pelo que sei, eles planejam usar o álcool não para exportação, mas sim para melhorar a qualidade ambiental de seus combustíveis. Por isso, independentemente da excelente tecnologia brasileira para a produção de álcool, em Cuba o emprego da tecnologia de produção direta de álcool a partir do sumo da cana não constitui mais que um sonho ou desvario daqueles que se iludem com essa idéia. Em nosso país, as terras dedicadas à produção direta de álcool podem ser muito mais úteis à produção de alimentos para o povo e à proteção do meio ambiente.

Todos os países do mundo, ricos e pobres, sem exceção alguma, poderiam economizar milhões de milhões de dólares em investimento e combustível se simplesmente promovessem a substituição das lâmpadas incandescentes por lâmpadas fluorescentes, algo que Cuba já levou a cabo em todos os domicílios do país. Isso significaria uma forma de resistir à mudança do clima sem matar de fome as massas empobrecidas do mundo.

Como se pode observar, não emprego adjetivos para qualificar o sistema e os donos do mundo. Essa tarefa pode ser perfeitamente realizada pelos especialistas em informação, pelos homens das ciências socioeconômicas e políticas honestos que existem em grande número no mundo e constantemente avaliam o presente e o porvir de nossa espécie. Basta um computador e um número crescente de redes de Internet.
Hoje temos pela primeira vez uma economia realmente globalizada, e uma potência dominante no terreno econômico, político e militar, que em nada se assemelha à Roma dos imperadores.

Alguns se perguntam por que falo de fome e sede. Respondo: não se trata do outro lado da moeda, mas sim das diversas faces de um outro objeto, como um dado que tem seis faces ou um poliedro com muitas faces mais.

Recorro, no caso, a uma agência oficial de notícias, fundada em 1945 e em geral bem informada sobre os problemas econômicos e sociais do mundo: a Telam. Reproduzo textualmente:

"Cerca de dois bilhões de pessoas viverão, dentro de apenas 18 anos, em países e regiões nos quais a água será uma recordação distante. Dois terços da população mundial poderão estar vivendo em lugares onde essa escassez gerará tensões sociais e econômicas de tal magnitude que poderiam levar os povos a guerras pelo precioso ouro azul."

Durante os últimos cem anos, o uso de água aumentou em ritmo mais de duas vezes superior ao do crescimento da população.

Segundo estatísticas do Conselho Mundial da Água (WMC, de sua sigla em inglês), se estima que, em 2015, o número de pessoas afetadas por essa grave situação suba a 3,5 bilhões.

A ONU celebrou em 23 de março o Dia Mundial da Água, conclamando os países a enfrentar a escassez mundial de água sob a coordenação da Organização de Agricultura e Alimentação das Nações Unidas (FAO), com o objetivo de destacar a crescente importância da falta de água em nível mundial, e a necessidade de maior integração e cooperação, que permitam garantir uma gestão sustentável e eficiente dos recursos híbridos.

Muitas regiões do planeta sofrem escassez severa de água, vivendo com menos de 500 metros cúbicos por pessoa/ano. Cada vez mais regiões padecem de falta crônica desse elemento vital.

As principais conseqüências da escassez de água são a quantidade insuficiente desse líquido para a produção de alimentos, a impossibilidade de desenvolvimento, industrial, urbano e turístico, e problemas de saúde."

É isso que a Telam tem a dizer.

Deixo de mencionar nesse caso outros dados importantes, como o derretimento das geleiras na Groenlândia e na Antártida, os danos à camada de ozônio e a crescente presença de mercúrio em muitos peixes de consumo habitual.

Há outros temas que poderiam ser abordados, mas pretendo simplesmente com estas linhas fazer um comentário sobre a reunião do presidente Bush com os executivos que dirigem as montadoras de automóveis norte-americanas.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

15 março, 2007

Juventude e Militância

26/02/2007
Em sua “Carta à Juventude”, composta por apenas três parágrafos, Trotsky trata duas questões de maneira bem breve, porém com muita profundidade: Juventude e Militância. Já no segundo parágrafo desta carta, muitos se confundem quando ele se refere aos “velhos de 20 anos”. Obviamente ele não pretendia estabelecer uma caracterização etária. Mas se referia, na verdade, àquela parcela da juventude que não tem disposição de se entregar, aos jovens sem ânimo, sonhos e sem fé.
Um partido, sindicato, campo político, grupo terrorista ou qualquer outro tipo de organização que pretende mudar a sociedade, não sobrevive sem militância. Sem essas pessoas dispostas a se sacrificarem, capazes de decidirem e certas de que não receberão nada de material em troca, as organizações e organismos não justificam sua existência.
Juventude e militância não são, portanto, termos nominais. Possuem vida, dialética. Muitos se declaram “militantes” ou “revolucionári@ s” apenas por pertencerem a um grupo ou entidade ou por estarem filiados a qualquer partido. Da mesma forma muitos idosos declaram-se “juventude” apontando em suas carteiras de identidade mostrando terem menos de 30 anos.
Durante a revolução russa, muitos jovens assumiram papeis de protagonismo, mesmo antes dos 20 anos. O estado socialista cubano possui em sua gerência e nos ministérios parcelas de jovens da geração pós revolucionária. Os “velhos de 20 anos” eram os que ficavam dentro das salas de aula enquanto a revolução acontecia. Eram os que ficavam em casa guardados por Deus. Eram os homens que não sonhavam com a tal “socialização dos meios de produção”, mas sim com um bom emprego, bem remunerado, uma esposa “politicamente correta” e um automóvel. As “velas de 20 anos” eram as que, ao invés de reivindicarem a emancipação e seus direitos, reivindicavam bons casamentos, marido carinhoso, filhos graciosos e um microondas.
Os partidos socialistas e organizações revolucionárias estão abarrotadas de “velh@s de 20 anos”. Mais precisamente aquel@s “filiados” e “filiadas”. Que optam sempre pelas tarefas mais simples e que não se aprofundam na teoria, ou aqueles esquerdistas que acham que o radicalismo se mede através do discurso “soprano”, enfim, o discurso que dá o tom mais alto. Se reivindicam donos da tradição leninista, mas evitam quase sempre participar das ações combativas e de massa.
Já sobre a militância, na mesma carta Trotsky nos ensina que “o sacrifício somente não é suficiente. É necessário ter uma clara compreensão do curso dos acontecimentos e dos métodos apropriados para a ação”. Eu diria, inclusive, que isso é o mais importante para qualquer militante, e concordo que a compreensão dos acontecimentos e dos métodos de ação, só é obtida através da teoria e da experiência. Decepcionam- se, pois, os meros tarefeiros, bate-estacas ou agitadores! Para todos os herdeiros de Marx, “sem teoria revolucionária, não existe ação revolucionária” .
Sobre experiência, mais uma vez não nos referimos à idade. Muitos velhos de partido ou sindicato ainda não atingiram essa compreensão de que nos referimos. Mas esse tipo de compreensão, experiência e teoria são imprescindíveis à juventude revolucionária. Sob pena de “baterem com a cabeça na parede e converterem- se em burocratas velhos de 20 anos”. Essa tarefa é difícil, mas cabe a nós cumpri-la bem!
É certo que representamos uma parcela da juventude mais resoluta. É certo que as dificuldades da militância hoje são diferentes das de quando Marx escreveu n´O Manifesto Comunista que a liberdade dos jovens está condicionada a sua independência econômica para com os pais e familiares. Ainda hoje temos esse problema, porém uma enorme parcela da juventude já se emancipou economicamente, e hoje luta contra um turbilhão de novos entrepostos: O dinheiro, o capital, trabalho e as usurpações do capitalismo.
Conversando ontem com um amigo anarquista bem eclético, percebia seu desespero em tentar encontrar novas formas de mobilizar as pessoas, atrair os jovens e se comunicar com os vários setores do movimento estudantil. Mas será mesmo esse o nosso maior problema? Acreditar nisso seria subestimar o capital. Seria ainda desconsiderar o elemento mais fundamental dos nosso problemas. O fato das pessoas não quererem nem saber. Centenas de páginas em O CAPITAL problematizam esses fetiches, a aparência, a essência e etc. Mas não entrarei nesse mérito aqui. Não citarei Marx, nem Lênin, nem Trotsky, nem Gramsci e nem o Osvaldo Coggiola (risos). Citarei algo mais poético. Mario Quintana disse uma vez que: “O maior de nossos problemas é que ninguém tem nada a ver com isso”.
Existem vários níveis de comprometimento com essa causa, que não é nossa, mas que abraçamos. Utilizamos cursos de formação, seminários e etc, para tentar produzir e reproduzir organicidade. Porém nesse final de texto abandonarei o meu objetivismo, próprio dos instrumentais que recebemos para analises, para lançar uma afirmação questionadora. Abandono sem remorso, pois abandono ao mesmo tempo a perspectiva da totalidade, para dizer a companheiros, companheiras, camaradas, amigos e amigas: Cabe a cada um decidir a qual nível de comprometimento pertencerá. Cabe a cada um aqui decidir se será parte da solução, ou se será parte do problema. Se seremos velhos de 20, 22, 24 ou 25 anos, ou quem sabe se seremos um dia jovens de 70, 72, 74 e 75 anos.
T.


"Porque metade de mim é o que eu penso, mas a outra metade é um vulcão"
Tadeu Guerzet
Contraponto
Ciências Econômicas
DCE - UFES

13 março, 2007

Direito de greve na mira do governo

“Somente um governo de ex-sindicalistas pode propor restrições ao direito de greve”. Com essa inacreditável declaração, durante visita a Guiana, o presidente Lula reforçou a disposição do governo em regulamentar a greve nos serviços públicos.

Se nessa ocasião Lula estivesse sendo assessorado por algum consultor de um grande grupo capitalista, possivelmente seria aconselhado a não ser tão explícito, a evitar o desgaste com tamanha demonstração de subserviência. Até porque, os verdadeiros interessados na restrição do direito de greve, entendem perfeitamente o papel que ocupa um governo oriundo do movimento popular e da esquerda para manter a agenda do Capital e aprofundá-la.

Houve outras tantas constrangedoras declarações de ministros, como a do também ex-sindicalista Luiz Marinho. Preferimos nesse espaço poupar os leitores delas para irmos diretamente ao debate.

Primeiro: a regulamentação, restrição ou a proibição de greves em alguns setores (como diretamente sugeriu o ministro Paulo Bernardo) sempre foi uma exigência do Capital. Não por acaso, coube a órgãos como a Folha de S.Paulo[1] começar a dar nome aos bois, pedindo a cabeça dos servidores da Anvisa e do INSS.

Rigorosamente, o direito de greve já vem sendo atacado pelo Capital há vários anos

através dos julgamentos de “abusividade”, multas aos sindicatos, interditos proibitórios, determinação de que um percentual da atividade não seja interrompida durante a greve.

Em oposição e em confronto a essa trincheira, a classe trabalhadora levantou as reivindicações de amplo e irrestrito direito de greve, nenhuma intervenção do Estado nos sindicatos, autonomia e liberdade de organização sindical e popular. Bandeiras históricas que ajudaram a produzir os próprios governantes que estão hoje dedicados a limitar o direito de greve... incluindo aqui a própria CUT, que nesse debate, a pretexto de ratificar a Convenção 151 da OIT, aceita “conversar” sobre o direito de greve no setor público.

Segundo: quem é “prejudicado” durante uma greve é o lucro, é o Capital, direta ou indiretamente, mesmo quando a greve ocorre nos serviços públicos, de transporte, incluindo serviços portuários e aeroportuários. O resto é campanha cínica, pois o desmonte dos serviços públicos, dos direitos sociais, as privatizações, o corte de verbas e recursos para áreas sociais, foi o que realmente importou para o Capital e o seu Estado, isso é o essencial para a classe dominante.

Pois sabemos todos que o drama diário da população para ter acesso à saúde e educação dignas, transporte de qualidade com tarifas baratas e tantos outros serviços, não tem nada a ver com a ocorrência de greves dos trabalhadores do setor público.

Terceiro: os socialistas, por princípio, devem se opor a qualquer tipo de regulamentação ou intervenção do Estado capitalista sobre direito de greve e de organização.

Aceitar algum tipo de regulamentação estatal é aceitar reduzir, limitar a força da classe trabalhadora e sua capacidade de ação independente, única possibilidade de fazer frente à classe dominante, de defender seus direitos e construir condições para fazer a relação de forças mudar a seu favor, o que evidentemente não é aceito pelo Capital e o seu Estado, que tratam sistematicamente de impor formas de coerção e tutela sobre a ação dos explorados.

São os próprios trabalhadores que devem ter o direito irrestrito de greve e total soberania para desenvolver a sua ação coletiva e o diálogo com o conjunto da população em relação à prestação dos serviços.

O governo Lula ameaça dar um passo ainda mais lamentável na ofensiva anti-democrática que vem sendo desenvolvida contra as classes trabalhadoras desde o governo Collor: ataques aos direitos sociais dos trabalhadores, criminalização dos movimentos sociais, com alvo nos sem-terra, e, agora, restrição do direito de greve nos serviços públicos.

Este novo fato reforça sobremaneira a necessidade de que uma agenda unificada dos movimentos sindical e popular combativos coloque esses temas em lugar de destaque, com uma enfática defesa do direito irrestrito de greve.

Fernando Silva,

jornalista, membro do diretório nacional do PSOL e do Conselho Editorial da revista Debate Socialista



[1] Editorial FSP em 6/3/2007.

Frente única para despoluir a esquerda

A esquerda socialista brasileira está vivendo em um ambiente hostil. Envenenado pela confusão promovida pelo governo Lula, mas também por nossas próprias fraquezas. A resposta para situações como essas costuma ser a tática da frente única. Mas, há quem defenda esse tipo de tática apenas para poluir ainda mais nosso meio.

O segundo governo Lula deve começar ainda mais conservador que o primeiro. Afinal, f oram feitos vários acordos em busca da reeleição. O mais simbólico foi o que permitiu a adesão do governo Blairo Maggi, governador do Mato Grosso, estado campeão nacional em desmatamento e mundial em queimadas. Mas há outros apoios sintomáticos, como os de Delfim Neto, Maluf, Dornelles, Collor de Mello, família Sarney, Jader Barbalho, Geddel Vieira, entre outros. Para piorar o quadro, o Congresso eleito tem um perfil ainda mais conservador. A pressão por medidas conservadoras vai subir. A perspectiva de o próximo governo depender da bancada do PMDB é sombria para quem luta por transformações sociais.

Por outro lado, o fenômeno que atinge os setores populares sob governos que apóiam é bastante conhecido. Trata-se da constante tensão entre pressionar para ver suas reivindicações atendidas e temer que pressão em demasia acabe enfraquecendo o governo que apóiam. Entre uma e outra atitude a maior tendência é haver mais confusão e paralisia política. E diante disso, a burguesia não ficará parada. Vai tentar atacar ainda mais direitos e conquistas, contando com grande ajuda do governo petista.

Este quadro caracteriza uma situação de enorme defensiva dos trabalhadores e explorados em geral. E nessas situações a tática recomendada é a da frente única. Ou seja, um chamado a todos os setores militantes do País para se unir em torno de tarefas concretas. Por exemplo, a luta pela a anulação das reformas neoliberais e outras medidas de mesmo tipo e contra novos ataques aos direitos da população. Somente no calor dessa batalha é que será possível manter um mínimo de unidade entre os que combatem na mesma trincheira, mesmo que alguns de nós tenham apoiado um governo que não pára de nos atacar. Não se trata de ter esperanças em burocratas, oportunistas e vendidos. Estamos falando de milhares de militantes sociais, cujo horizonte está preso aos limites da disputa institucional. Trata-se de oferecer a eles e elas referências para permanecer em luta, com independência de classe. Não referências retóricas, mas propostas concretas.

Na verdade, muitos setores já vêm defendendo essa tática, mas aplicam algo bastante diferente. Geralmente, o que acontece é um chamado pela unidade em que aqueles que a propõem ficam de olho somente nas diferenças e não no que pode haver de comum entre nós. A frente única funcionaria como um expediente para desmascarar as outras forças políticas, que seriam todas reformistas, oportunistas, capituladoras etc. E não se trata disso. A frente única é uma forma de criar um ambiente favorável para o avanço das lutas. Claro que em seu interior haveria disputa política. Mas tal disputa tem que se dar em torno das formas de fazer avançar a luta e não de auto-construção de correntes, partidos e coletivos a qualquer custo.

Não se trata de ser "bonzinho" ou "conciliador". Trata-se da sobrevivência da esquerda socialista. Nosso hábitat político está seriamente comprometido. Se não há oxigênio suficiente para todos não podemos nos dar ao luxo de poluir ainda mais nosso meio com divergências superficiais. Num contexto de desilusão e hostilidade em relação a partidos políticos somente a atuação comprometida com as causas populares pode começar a recuperar a confiança dos setores em luta nas organizações de esquerda. Aí sim, no calor do combate, podem cair as máscaras de setores burocratizados e oportunistas. Algo que não costuma acontecer apenas através exposições retóricas de divergências para audiências cada vez menores.

Faz parte dessa necessidade de melhorar nossa capacidade de sobrevivência a superação da fragilidade da elaboração teórica da esquerda brasileira. Temos que passar por um balanço rigoroso, incluindo crítica e auto-crítica que avancem para além de "meas culpas" formais. Muitas das análises feitas entre os socialistas estão presas a uma realidade de 20 ou 30 anos atrás. O balanço em relação ao papel do PT e da CUT, por exemplo, tem que sair do campo moral, superando as acusações de traição de "direções vendidas". É preciso estudar e debater fenômenos como a onda de migração dos anos 1970 do campo para as grandes cidades brasileiras, a reestruturação produtiva, a desindustrialização, a mudança do perfil da classe trabalhadora, a ocupação dos latifúndios pelo agronegócio, a questão ambiental, a importância fundamental do machismo na dominação de classe e do racismo na dominação burguesa, a ação sofisticada da grande mídia no sentido de impedir que qualquer informação, debate ou polêmica passe por fora de seus mecanismos, o desmonte do Estado, a ação das ONGs substituindo o Estado e recrutando quadros intelectuais que poderiam estar a serviço dos movimentos e partidos populares, a criminalização da pobreza. Enfim, são inúmeros aspectos da realidade que já receberam atenção de analistas isoladamente, mas não foram sistematizados para sua utilização política-ideológica pelos socialistas.

Frente única tem que expressar a unidade entre o encaminhamento de tarefas concretas junto aos que estão na luta e o debate aprofundado sobre nossos erros, acertos e a realidade que nos cerca. Com a ameaça concreta de novos ataques aos direitos e à organização dos trabalhadores os setores que melhor aplicarem essa tática terão enormes chances de crescerem. Um crescimento que não se daria apesar da situação defensiva da classe, mas como resultado do avanço do nível de consciência e recuperação da ofensiva por parte de seus setores militantes. Um crescimento como resultado da melhoria das condições gerais de nosso "bioma" e não do desempenho de alguns espécimes mais "adaptados" à hostilidade do meio. Não nos interessam águas podres com alguns poucos tubarões sobreviventes. E isso vale para todos os níveis de atuação: sindical, partidário, popular etc. Afinal, os verdadeiros socialistas não vivem em nichos. Fazemos todos parte do mesmo ecossistema.

Sérgio Domingues – janeiro de 2007

Militante do PSoL-RJ e integrante do Coletivo Revolutas