22 outubro, 2006

DECLARAÇÃO DO P-SOL E PSTU EM MINAS SOBRE O SEGUNDO TURNO DA ELEIÇÃO PRESIDENCIAL

O lançamento da candidatura de Heloísa Helena e a conformação da Frente de Esquerda, envolvendo o P-SOL, PSTU, PCB e PCR, se deu pela convicção destes partidos socialistas de que se fazia necessária ao povo brasileiro a possibilidade de uma alternativa eleitoral às candidaturas neoliberais do PSDB e PT. Apesar das tremendas dificuldades materiais da campanha e do brutal bloqueio da mídia burguesa, quase 7 milhões de brasileiros optaram por nossa candidata e nosso programa. Nossa campanha foi uma tentativa de esclarecimento ao eleitorado que o Brasil necessita de um governo que enfrente os interesses do capital imperialista e afirme a soberania de um projeto de desenvolvimento social; que obrigue as classes proprietárias a arcarem com os custos de um programa de erradicação de miséria e da pobreza em nosso país; que faça de fato a reforma agrária e não deixe uma única família camponesa fora da terra; que amplie ao máximo os mecanismos de controle social sobre as instituições públicas, para assegurar ao povo os direitos que a democracia dos ricos em nosso país teima em cercear.

Não fomos eleitos e o resultado final da votação colocou em disputa no próximo dia 29 os dois candidatos representantes do mesmo programa neoliberal e anti-popular que há doze anos ininterruptos atacam sem vacilar a dignidade de um povo e suas perspectivas de uma existência feliz e solidária.

Pelo que representou essa experiência prática de governo, por seus programas eleitorais apresentados no primeiro turno, por suas declarações e participação em debates, pelas alianças que aglutinaram em torno de si para o segundo turno nenhum dos dois pretendentes à presidência pode merecer a confiança do povo. Vença quem vencer, se sentirão livres desde o primeiro dia de seu governo para aplicar as medidas que os seus patrocinadores (banqueiros e especuladores, grandes magnatas da indústria e do agro-negócio, caciques regionais opressores do povo, lobistas e sanguessugas incrustados já no aparato do estado ou em conexão com o mesmo) esperam deles. Apoiando-se no resultado das urnas, completarão as reformas liberais que já iniciaram, cortando mais direitos previdenciários, trabalhistas e sindicais; priorizando recursos do orçamento público para pagamento da pretensa dívida aos especuladores; privatizando de variadas formas ainda o que resta da capacidade de intervenção estatal no domínio econômico que assegurasse o bem-estar do povo contra os privilégios do capital; orientando a política econômica para a prioridade às exportações em detrimento de um plano de investimento e consumo internos; beneficiando o agro-negócio contra a pequena propriedade, o superlucro dos monopólios contra o emprego, o festim do lucro fácil contra o meio-ambiente, o capital contra o salário. Ao povo, quando começar a vivenciar mais esse capítulo da dominação do capital neoliberal e globalitário, restará a frustração de um voto não correspondido. Mas também manifestará um desejo de luta.

Apoiar esse espírito de resistência é a que se devotarão o PSTU e o P-SOL, fortalecendo, para tanto, juntamente com as demais forças comunistas e socialistas, o instrumento político e social da Frente de Esquerda criado nessas eleições.

Somos oposição ao governo de Lula da Silva ou ao de Geraldo Alckmin para construir, junto à classe trabalhadora, aos movimentos sociais, a todos os segmentos sociais espoliados pela política do próximo governo neoliberal, um movimento capaz de despertar no povo a consciência do enorme potencial revolucionário de mudança que está adormecido dentre dele e que é o único fator de um Brasil para os brasileiros, livre e digno, um Brasil socialista.

Nem Lula, nem Alckmin: no segundo turno digitar 16 ou 50 e confirmar.

Belo Horizonte, 16 de outubro de 2006

Partido Socialismo e Liberdade

Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado

Vanessa Portugal – candidata ao governo de Minas pela Frente de Esquerda Socialista

Maria da Consolação Rocha – candidata ao senado pela Frente de Esquerda Socialista






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Um primeiro balanço ante o segundo turno das eleições

Liga Estratégia Revolucionária – Quarta Internacional


Superando as pesquisas de intenção de voto divulgadas até um dia antes das eleições, o tucano Geraldo Alckmin teve 41,6%, contra 48,6% de Lula e conseguiu empurrar as eleições para o segundo turno. A terceira colocada foi Heloísa Helena com 6,85% e o quarto foi Cristovam Buarque do PDT, com 2,45%.

O crescimento dos tucanos na reta final se deve à classe média de São Paulo, do Sul e do centro-oeste do país. A classe média, principalmente paulista, que votou em Lula em 2002 acreditando na possibilidade de mudanças, frente ao continuísmo e a corrupção do governo Lula, sinalizou uma volta aos seus representantes tradicionais do PSDB. Neoliberalismo por neoliberalismo, vê em Alckmin a possibilidade de um governo “responsável” e “eficiente”. Os votos que quase levaram Lula à vitória no primeiro turno se concentram no norte e nordeste do país, nos estados do sudeste à exceção de São Paulo e nas faixas de menores salários em São Paulo e nos estados do Sul, onde Alckmin ganhou. Essa votação expressiva se deve ao programa “bolsa-familia”, que atinge mais de 11 milhões de famílias, a maioria do nordeste, a programas sociais de baixo alcance como o “Universidade para Todos”, mas de grande repercussão, além de ter investido dinheiro do governo federal numa região sempre relegada como o nordeste.

Os extremos do espectro político nacional saíram debilitados. De um lado o PFL perdeu peso nos estados e amargou uma derrota histórica para o PT na Bahia, tradicional feudo político do coronelista Antônio Carlos Magalhães. Ao mesmo tempo a “bancada da bala”[1] diminui no Congresso nacional. De outro lado, a esquerda também diminuiu. Na bancada petista ganhou peso a ala direita do partido em detrimento da “esquerda petista” que perdeu 6 deputados federais. O PSOL, ainda que conquistou uma considerável votação, não atingiu as expectativas geradas e passou de sete representantes que tinha no Congresso nacional, eleitos ainda pelo PT, a três. O PSTU, dissolvido na Frente de Esquerda praticamente não apareceu como partido e saiu debilitado. O PCO, que já vinha tendo uma política de isolamento da vanguarda, teve a sua candidatura à presidência impugnada numa medida ultra reacionária da burguesia brasileira, e impotente para responder a este ataque, obteve uma votação ínfima, aprofundando seu isolamento.

Voto nulo no segundo turno

A agenda de Lula os trabalhadores já conhecem. Em seu segundo mandato este buscaria aprofundar as reformas neoliberais: a aprovação da segunda fase da reforma da previdência, a aplicação de uma reforma trabalhista, de una reforma tributária e manter uma política favorável aos grandes bancos e multinacionais. Parte importante desta ofensiva patronal é compartilhada por Alckmin. Os trabalhadores não temos nada a ganhar de nenhum destes dois candidatos. Mas objetivamente um triunfo de Alckmin fortaleceria a política imperialista para a América Latina e seria um giro da tendência (iniciada no começo da década) a mudança dos representantes governamentais na região por variantes mais reformistas para um governo dos partidos e variantes tradicionais da burguesia, com conseqüências nacionais e a nível regional pela importância do Brasil.

Lula aplicou seus planos neoliberais se equilibrando entre os distintos setores de uma fracionada burguesia, se apoiando em organizações de massas como a CUT e o MST e acenando com medidas demagógicas ou assistencialistas e no seu carisma e origem social para governar o país. Alckmin se apoiaria muito mais no imperialismo norte-americano, e numa política interna de maior repressão. Seria um aliado estratégico do imperialismo na região para combater governos como o de Chavez e Evo Morales. Na negociação da Petrobras com o governo boliviano, por exemplo, Alckmin já expressou que teria uma linha ainda mais dura que a de Lula.

Na disputa entre Lula e Alckmin, não se trata, para os trabalhadores de escolher o mal menor. Chamamos a votar nulo porque a tarefa que temos pela frente é fazer um setor da poderosa classe operária brasileira avançar na sua independência de classe e preparar assim o terreno para a resistência aos ataques que virão, sejam aplicados por tucanos ou por petistas.

O PT e o movimento operário

O PT conservou os votos na maioria de sua base operária, mas mudou qualitativamente sua relação com ela. Definitivamente não é mais um partido de militância, o que podemos constatar com a ausência de ativismo de organizações como o MST e a baixa votação de importantes sindicalistas da CUT. Isso também se expressa em uma votação mais desconfiada em Lula e no PT e na redução do número de parlamentares da “esquerda petista”. Esse espaço a esquerda no movimento operário que já vinha se mostrando nas eleições sindicais na qual a Conlutas obteve boas votações se confirmou nos processos de luta. Na Volks, por exemplo, cerca de 40% dos operários votou contra o acordo entre Sindicato e patronal em torno das demissões voluntárias. Na atual campanha salarial de bancários, em vários estados os trabalhadores deflagraram greve à revelia do comando nacional dirigido pelo PT.

Infelizmente, esse desgaste petista que abre um espaço claro de influência para a esquerda dentro do movimento operário não se expressou nas eleições.

O que foi a Frente de Esquerda e a candidatura Heloísa Helena?

Se é verdade que a Frente de Esquerda não foi composta diretamente por setores burgueses conformando uma Frente Popular, foi profundamente hegemonizada por setores pequeno-burgueses oportunistas, com o PSTU se diluindo ao não dar uma batalha efetiva por uma Frente Classista. O exemplo mais gritante dessa passividade foi se negar a votar no CONAT um programa e uma política classista para as eleições, como propusemos os trabalhadores de nossa organização para levar a vanguarda expressa nesse congresso à luta pela hegemonia das posições classistas em uma eventual frente contra as posições pseudo anti-neoliberais.

Mas quando começa a campanha é que Heloísa Helena começa a frustrar a expectativa de amplos setores da vanguarda e da militância do próprio PSOL e do PSTU. Optou pelo intelectual desenvolvimentista César Benjamin como vice, buscando a confiança de setores empresariais e acenou a cada aparição pública para a classe média com um discurso moralista de “ética na política”. Longe de partir de se apoiar na pouca base que tinha em setores de vanguarda para buscar criar alguma relação orgânica com setores do movimento de massas e se apresentar como uma verdadeira alternativa para os trabalhadores, Heloísa Helena se descolou o máximo possível desses setores para se apresentar como alternativa....para a classe média e a burguesia “progressista”.

É o que se expressa de maneira dramática para os setores classistas e combativos da Frente de Esquerda com o apoio do burguês corrupto Garotinho, que nem mesmo Alckmin consegue convencer o PSDB sem crises internas de aceitar seu apoio no segundo turno. Depois de dizer-se surpresa, Heloísa Helena afirmou que agradecia “humildemente” porque “todos os apoios são bem vindos” (Folha Online, 28/07). O candidato a vice Cesar Benjamin disse na Folha de S. Paulo (28/07) “acolho e respeito o apoio dele”. Mas essas foram somente algumas das declarações nesse sentido. O mais lamentável é que o PSTU insistia em dizer que “inúmeras respostas foram dadas por Heloísa e outros companheiros, recusando qualquer tipo de acordo com o ex-governador. Somamo-nos a esta recusa”.

Nesse sentido, ao Heloísa Helena colocar como eixo de sua campanha a “redução da taxa de juros” e a “ética na política”, insistia em pouco se diferenciar das candidaturas burguesas de Alckmin do PSDB e Cristovam Buarque do PDT. Tentou apresentar esse programa “viável” para ser implementado nos marcos desse regime carcomido e desgastado pelos escândalos de corrupção. Repetiu mil vezes que iria governar nos marcos da atual Constituição, com esse Congresso de corruptos, que segundo ela se tornaria mais “ético” e permeável à sua capacidade de “diálogo”. Em todas as oportunidades em que foi comparada pela burguesia a Chavez ou Evo Morales, fez questão de se diferenciar....pela direita, não sendo conseqüente sequer com seu perfil “anti-neoliberal”. Para completar, se apresentava como uma candidatura da “mãe cristã”, se colocando inclusive contra a legalização do aborto.

Diante das dramáticas 3600 demissões na Volks de São Bernardo, Heloísa Helena se localizou à direita do governo Lula, da burocracia da CUT e de setores da própria burguesia nacional, criticando a suspensão temporária do empréstimo do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) a esta empresa, defendendo uma política de investimento público para os chamados “setores produtivos”. Em sua proposta para o salário mínimo, chegou a defender dobrar seu mísero valor em 12 anos !!!!

Como se não bastasse, Heloísa Helena pregava uma reforma agrária “pela lei”, como forma de acabar com as ocupações de terra e acalmar os latifundiários, pisando na “bandeira histórica” do movimento camponês que sempre lutou pela reforma agrária “na lei ou na marra”. Defendeu uma “repressão implacável” como medida emergencial para a segurança pública. Por fim, num país onde vivem 6 milhões de árabes, calou-se diante do massacre de Israel contra o povo libanês e palestino.

Não à toa, ao ter como eixo se dirigir somente à pequena burguesia anti-Lula, segundo as últimas pesquisas, dos seus 6,5 milhões de votos, 3,9 milhões vão para Alckmin.

Um PSOL obscurecido

A realidade passou longe dos devaneios de Heloísa Helena de ir para o segundo turno. Contudo, Heloísa Helena teve uma votação expressiva se tornando uma figura pública nacional e o PSOL se projetou nacionalmente. Ainda que o espaço eleitoral de Heloísa Helena seja muito superior ao do PSOL como partido, por exemplo, a votação nacional para deputados federais foi de apenas 1,27%. Pelo caráter pequeno-burguês de sua direção e seu programa, sequer buscou transformar o espaço eleitoral de Heloísa Helena em relações orgânicas com os setores mais avançados do movimento operário.

A campanha hegemonizada pelos setores mais oportunistas do PSOL fortaleceu principalmente correntes reformistas como a APS (Ação Popular Socialista – ex-PT). É o que se expressa na crise aberta frente ao segundo turno no posicionamento do partido com esses setores defendendo abertamente o voto em Lula. De outro lado, o MES de Luciana Genro e a CST de Babá, ainda que se adaptaram completamente durante a formação do PSOL e na escandalosa campanha eleitoral de Heloísa Helena, neste momento defendem o voto nulo. Isso demonstra a falência desse tipo de partido que pretende unificar reformistas e correntes que se proclamam revolucionárias, o que no fim fortalece os primeiros. É o que se pode concluir da resolução aprovada por esse partido de “neutralidade”, ao invés de voto nulo. Ou seja, Heloísa Helena nega-se a chamar o voto nulo para não enfrentar-se com Lula e o PT nem com setores de seu eleitorado que agora vai votar em Alckmin. É neste sentido que aponta a escandalosa resolução publicada pela Executiva Nacional do PSOL em 04 de outubro que simplesmente proíbe seus militantes de se pronunciarem sobre o 2º turno. Segundo esta: “A posição do P-SOL é para os filiados do P-SOL. Nossos filiados, na urna, têm o direito de fazer o que quiserem. Publicamente não podem. Não pode o deputado, a senadora, nem o vereador nem o dirigente sindical. Para estas figuras públicas esta regra é ainda mais importante, porque declarações na imprensa por um lado ou outro serão caracterizadas como campanha, e isso nossa resolução tem caráter proibitivo[2]”. Simplesmente chocante que o partido dos expulsos do PT, que se auto-proclama o “exemplo de pluralismo” tão rapidamente mostre sua verdadeira cara.

PSTU: a inconseqüência na luta por uma política de classe

Nas eleições de 2002 o PSTU chegou a apresentar Lula como candidatura classista[3] e no segundo turno votou na Frente Popular de Lula-Alencar. Hoje, essa inconseqüência na luta por uma verdadeira independência de classe se repete com Heloísa Helena.

É lamentável que a direção do PSTU no Jornal Opinião Socialista, nos discursos e nas dezenas de milhares de panfletos de seus candidatos, no artigo assinado pela LIT do dia 25 de setembro sobre a Frente de Esquerda e na TV apresentava Heloísa Helena como “alternativa para os trabalhadores”, ao mesmo tempo em que para os pequenos círculos na vanguarda através do Opinião Socialista fazia críticas corretas que se levadas a sério liquidavam a política do PSTU de apoio à Heloísa Helena.

Afinal de contas, qual é a posição do PSTU? Acredita que Heloísa Helena é uma pequeno burguesa oportunista e não diz a verdade para a vanguarda e as massas para justificar sua adaptação à Frente de Esquerda, ou acredita que de fato ela é uma “alternativa para os trabalhadores”? O que significa então uma alternativa para os trabalhadores? Uma “caricatura piorada do Lula” como muitos militantes do PSTU dizem? Poderiam apresentar então para a vanguarda ao menos um bom argumento do porque Heloísa Helena é essa alternativa? Se ela é uma alternativa para os trabalhadores, porque respondeu às críticas do PSTU dizendo que “os incomodados que se retirem”. O mínimo que a direção do PSTU deveria fazer depois de ter ajudado a projetar Heloísa Helena como uma das principais figuras públicas nacionais, seria responder a essas questões sem tergiversações...

Como resultado dessa política, o PSTU praticamente desapareceu como partido durante o período eleitoral, condenando a Conlutas a um papel testemunhal na situação. Nem mesmo com sua adaptação à Heloísa Helena e ao PSOL, o PSTU elegeu sequer um parlamentar nem conseguiu projetar alguma figura pública a nível nacional. O PSTU não se construiu na campanha eleitoral e sua marca “contra burguês, vote 16” desapareceu dando lugar à Heloísa Helena “Coração Valente” como “alternativa”. Os dados dessa eleição acabaram castigando a direção do PSTU por sua diluição na Frente de Esquerda.[4]

É preciso abrir a discussão de construção de uma partido revolucionário de trabalhadores

Apesar da forte votação em Lula os últimos meses demonstraram que o giro a direita do PT e de Lula desde 2002 abriram uma oportunidade para a construção de um partido revolucionário em setores de vanguarda dos trabalhadores. O que as eleições demonstraram é que nenhuma das organizações que se reivindicam revolucionárias no Brasil está hoje em condições de organizar esse setor de operários que tem se expressado nos processos de mobilização e de reorganização em ruptura com o petismo. Mais do que nunca é urgente que se abra na vanguarda de trabalhadores e da juventude a discussão da necessidade de formação de um partido revolucionário de trabalhadores. A falta deste partido fez com que nas eleições os operários que a partir da experiência com o governo Lula iniciaram um lento deslocamento à esquerda, não tivessem nenhuma via para se expressar com independência de classe.

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[1] Deputados federais ligados aos órgãos de repressão da política militar e do exército, que expressam a ala mais linha dura da burguesia brasileira e que atuam não só no PFL, mas inclusive em partidos de centro-esquerda como o PDT.
[2] Na íntegra: www.psol.org.br
[3] O PSTU publicou no próprio Opinião Socialista um artigo na campanha eleitoral de 2002 no qual reivindicava a aprovação de uma resolução do Congresso dos metalúrgicos de Minas Gerais que definia o voto em Lula e Zé Maria como duas candidaturas classistas.
[4] Em 2002, o PSTU obteve para deputado federal 159 mil votos, e agora apenas 58 mil. Para senador em 2002 obteve em 19 estados 490 mil votos, agora, em 15 estados, meros 203 mil votos. Em São Paulo, seu candidato ao senado caiu de 113 mil em 2002 para 81 mil





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Um argumento crítico sobre o Bolsa Família


Valerio Arcary,
professor do CEFET/SP,
historiador,
é militante do PSTU.


A liberdade implica em poder de escolha por parte do consumidor e, quando confrontado com as necessidades realmente fundamentais, o consumidor não tem qualquer escolha. Normalmente não se“escolhe” entre pão e uma passagem aérea, entre educação básica e um segundo televisor, entre tratamento de saúde e um tapete persa. O dinheiro, enquanto meio para a liberdade do consumidor, é eficiente apenas para a escolha entre bens relativamente supérfluos – dado um alto grau de equidade de renda. Como um meio de se determinar os rumos básicos da alocação social de recursos, é passível de ser tanto injusto como ineficiente.[1]

Ernest Mandel

O Programa Bolsa Família é um programa de transferência de renda que beneficia famílias pobres (com renda mensal por pessoa de até R$ 120,00). Os valores pagos pelo Bolsa Família variam de R$15,00 a R$95,00 por mês, de acordo com a renda da família e o número de crianças. Ao entrar no Bolsa Família a família se compromete a manter suas crianças e adolescentes em idade escolar freqüentando a escola e a cumprir os cuidados básicos em saúde: o calendário de vacinação, para as crianças entre 0 e 6 anos, e a agenda pré e pós-natal para as gestantes e mães em amamentação. Em 2006 foram beneficiados mais de 11 milhões de famílias.

O Bolsa Família foi debatida na campanha eleitoral brasileira como sendo a principal política social do governo Lula. Os partidos que sustentam o governo do PT e os partidos da oposição burguesa disputaram os direitos autorais desta política – os petistas teriam se inspirado na experiência do governo Cristóvão Buarque no Distrito Federal, então ainda no PT, e os tucanos no projeto da prefeitura do PSDB em Campinas no Estado de São Paulo - garantindo todos, energicamente, que ela seria mantida. Esqueceram-se todos de admitir que as políticas sociais compensatórias focadas são um modelo de políticas públicas defendidas pelo Banco Mundial há mais de quinze anos: planos semelhantes foram sendo implantados no México, na Argentina, e no Chile. Em todos estes países as políticas sociais compensatórias criaram um novo modelo de clientelismo político associado ao controle dos cadastramentos e à cooptação dos movimentos sociais.

Reformas são hoje mais difíceis e estão sempre ameaçadas

No Brasil, os 10% mais ricos da população são donos de, pelo menos, mais de 45% do total da renda nacional – os números são aproximativos porque a renda do capital tende a ser subestimada - enquanto os 50% mais pobres – ou seja, mais de 90 milhões de pessoas – ficam com menos de 14% do total da renda nacional. Entre 50% e 70% da população é analfabeta ou não atribui sentido à linguagem escrita. A imensa desigualdade social, a extrema pobreza e a baixíssima escolaridade da maioria da população são a herança que o capitalismo brasileiro deixou para o século XXI.

Os socialistas estiveram sempre de acordo, historicamente, fossem reformistas ou revolucionários, na defesa da luta por reformas. As reivindicações salariais, a defesa do direito ao trabalho para todos, a redução da jornada do trabalho, por exemplo, são bandeiras tradicionais desde a fundação do movimento operário moderno. Suas diferenças se concentraram em apreciações opostas sobre a possibilidade ou não de reformar o capitalismo. Os moderados eram e são mais crédulos, e os radicais mais cépticos. Os gradualistas depositaram confiança na via da colaboração de classes: pactos nos sindicatos, pressões sobre os parlamentos, negociações com os governos. Os revolucionários nunca afirmaram que reformas não eram possíveis, mas repetiram que, em uma época de crise crônica do capital, seriam ainda mais difíceis que no passado, e mais efêmeras. Insistiram na luta de classes para que os trabalhadores desenvolvessem uma experiência prática de que todas as reformas conquistadas pela mobilização estariam sempre ameaçadas, enquanto o capitalismo estivesse de pé. Apostaram na capacidade dos trabalhadores e seus aliados de desenvolverem instinto de poder, e confiassem de que seria indispensável ir além da propriedade privada.

Nos últimos trinta anos, a história vem dando razão aos marxistas revolucionários. O capitalismo passou a atacar, em escala mundial, as reformas conquistadas pelas gerações anteriores. Os reformistas desertaram do campo da defesa das reformas e, para defendê-las, passou a ser necessária determinação revolucionária, até para construir greves por aumento de salários. Reformas progressivas e duradouras só foram conquistadas quando as classes dominantes se sentiram ameaçadas pelo perigo de revoluções, como no pós-guerra.

Reformas progressivas e reformas reacionárias

Os socialistas distinguiam reivindicações progressivas que estendem direitos, das reacionárias que aprofundam injustiças. A reforma agrária é somente uma reforma no acesso à propriedade da terra, porque não ameaça a sobrevivência do capitalismo, mas é uma reforma progressiva. Programas como o ProUni, por exemplo, são reacionários porque transferem verbas públicas para o ensino privado.

Os socialistas não contrapõem os programas sociais universais – como educação, saúde e previdência - aos programas sociais focados, típicos da assistência social que articula uma rede de proteção aos mais vulneráveis, como as crianças, os doentes e os idosos. O Estado deveria desenvolver, simultaneamente, ambos. São os neoliberais que defendem os segundos contra os primeiros, porque os investimentos em universalização de direitos pressupõem recursos muito volumosos, e exigiriam uma forte arrecadação fiscal. Os liberais querem diminuir a carga fiscal e redirecionar os gastos públicos para o pagamento da dívida e para investimentos em infra-estrutura que reativem os negócios.

Os dois principais argumentos críticos às políticas sociais focadas apresentados neste debate têm sido: (a) a desproporção entre o Bolsa Família e o oceano de miséria que há no país, que impede que esta política compensatória garanta, mesmo que em uma longuíssima duração, uma redução significativa da desigualdade, ao contrário do que já foi demonstrado pelo aumento do salário mínimo ou da garantia do pleno emprego; (b) o modelo assistencialista que perpetua a dependência dos beneficiados, e estabelece uma divisão na classe trabalhadora entre os que recebem e os que não recebem sem trabalhar, aceitando a premissa neoliberal que afirma que o Estado não teria a obrigação de garantir trabalho para todos. Estes argumentos são verdadeiros. Apresentaremos neste artigo um terceiro argumento: a distribuição de dinheiro é menos eficaz que a distribuição de produtos e perpetua a mercantilização dos bens mais intensamente necessários.

Desmercantilização dos produtos básicos ou distribuição de dinheiro?

O projeto socialista é a distribuição universal dos bens e serviços mais intensamente sentidos como necessidades básicas. Um processo gradual de redução do uso e, finalmente, eliminação da moeda seria possível, desde que as principais forças produtivas do mundo estivessem ao serviço das necessidades humanas. O projeto socialista não é uma proposta de diminuição do consumo da maioria, mas, ao contrário, a única forma de garantir a sua ampliação. Os socialistas sempre argumentaram que a socialização da propriedade e o planejamento estariam ao serviço da satisfação das necessidades mais sentidas, mas não concluíram que as necessidades individuais deveriam ser reprimidas. A premissa econômico-moral da superioridade do socialismo sobre o capitalismo é que as primeiras devem ter prioridade sobre as segundas. A distribuição gratuita dos bens e serviços mais necessários é uma forma mais racional e econômica de repartição que a entrega de dinheiro – o critério dos projetos de renda mínima - e a venda de mercadorias. Mandel demonstrou este argumento em Socialismo versus Mercado:

A África contemporânea fornece um outro exemplo dessas verdades. Quando a fome devasta o Sahel, quem condenaria a distribuição de alimentos por rações aos famintos como um exemplo de alocação "ditatorial", reduzindo os esfomeados a ''servos" – quando lhes vender comida os faria ''mais livres"? Se uma epidemia grave irrompe em Ban­gladesh, a distribuição controlada de remédios deve ser considerada nociva se comparada com sua compra no mercado? A realidade é que é muito menos custoso e mais razoável satisfazer as necessidades básicas através da distribuição direta – ou redistribuição – do total de recursos disponíveis para elas, e não pelo caminho indireto da alocação por dinheiro no mercado. (grifo nosso)[2]



Mandel nos alerta para uma conclusão muito simples. O planejamento é um mecanismo de regulação mais eficiente do que o mercado para a satisfação das necessidades mais sentidas. Um planejamento à escala mundial poderia garantir a distribuição dos produtos mais indispensáveis à vida para todos os habitantes do planeta. Queremos todos, no essencial, os mesmos produtos. Gastamos nossos recursos na satisfação das mesmas necessidades, sejam elas materiais ou culturais. Não há razão alguma que nos condene a viver em um planeta em que a esmagadora maioria da humanidade só tem pela frente um futuro de privação, ignorância e embrutecimento. O dinheiro só é mais eficaz do que o planejamento, quando pensamos a distribuição dos produtos de consumo idiossincrático que as pessoas, de carne e osso, só se propõem adquirir depois que as necessidades elementares de alimentação, residência, transporte, educação, saúde, previdência e lazer foram satisfeitas. Mais adiante Mandel conclui:

O dinheiro e as relações de mercado, em contraste se consubstanciam como instrumentos de garantia à maior liberdade do consumidor na exata medida em que as necessidades básicas tenham já sido satisfeitas.(...) Se a sociedade democraticamente decide dar prioridade alocativa à satisfação das necessidades básicas, ela automaticamente reduz os recursos disponíveis para a satisfação de necessidades secundárias ou de luxo. Este é o sentido no qual não há escapatória de alguma “ditadura sobre as necessidades”, por tanto tempo quanto as necessidades básicas insatisfeitas não se tornem, por completo, de natureza marginal. Mas é aqui que o argumento político em favor do socialismo se torna mais claro e óbvio. Pois, seria mais justo sacrificar as necessidades básicas de milhões de indivíduos ou as necessidades secundárias de dezenas de milhares? Fazer essa pergunta não equivale a sancionar a frustração das necessidades mais sofisticadas que vêm se desenvolvendo com o avanço da própria civilização industrial. O projeto socialista é o de uma gradual satisfação de mais e mais necessidades, e não uma restrição a requisitas básicos. Marx nunca foi um defensor do ascetismo ou da austeridade..[3]



Não há estudo algum que garanta que a entrega de dinheiro para as pessoas em condição de miséria absoluta, como o Bolsa Família, seja mais eficaz que a distribuição gratuita dos produtos mais intensamente necessários. O próprio governo Lula reconhece que a finalidade desta política social focada – a redução da subnutrição – pode não ser alcançada, se o dinheiro não chegar primeiro às mãos das mães de família. Não é preciso uma especulação muito longa para compreender que o Estado teria condições de compras muito mais vantajosas, por razões de escala, se estivesse disposto a assumir a distribuição direta, estimulando a auto-organização popular da fiscalização do cadastro.

A distribuição indireta pela alocação de dinheiro é justificada, argumentando-se que a corrupção endêmica poderia ser driblada pela entrega do cartão bancário. Mas, os próprios defensores das políticas sociais focadas são obrigados a admitir que o cadastro das famílias alvo do programa pode ser manejado com segundas intenções pelas autoridades locais responsáveis pelo cadastramento. A manipulação política da miséria, por outro lado, não parece ter diminuído com os cartões da Bolsa Família. A corrupção é intrínseca a um sistema social incapaz de diminuir as desigualdades sociais.

Acontece que as premissas ideológicas do liberalismo exigem que o lugar do Estado seja, politicamente, subvertido, em relação à etapa histórica anterior. Os neoliberais não podem admitir a desmercantilização dos produtos mais intensamente necessários à sobrevivência. Não só não estão dispostos à garantir a distribuição gratuita dos alimentos aos famintos ou dos remédios aos doentes, como passam a defender, ostensivamente, a privatização dos serviços públicos universalizados nos países centrais na etapa do pós-guerra. No Brasil, a decadência da saúde pública e as restrições às condições das aposentadorias foram responsáveis pela expansão, a partir dos anos oitenta e noventa, da medicina e da previdência privada. Tony Blair e George W. Bush são, por sua vez, entusiastas defensores que o Estado entregue dinheiro às famílias para que elas escolham aonde os seus filhos queiram estudar na rede pública ou privada. Já o governo Lula defende a anistia fiscal do ensino superior privado em troca de matrículas. Esta regressão social das políticas públicas do capitalismo é uma das caras da barbárie que cresce no mundo.

[1] MANDEL, Ernest, Socialismo versus mercado, São Paulo, Ensaio, 1991, p.54/5/6

[2] MANDEL,Ernest, Ibidem, 1991, p.55.

[3] MANDEL,Ernest, Ibidem, 1991, p.56.




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Sociedade Civil contra Medida Provisória de Lula ampliando áreas para plantio de transgênicos

Segue abaixo carta que entidades da sociedade civil encaminharam ao Presidente Lula criticando a tentativa obtusa do governo de cooptar votos do agronegócio através da liberação do plantio de transgênicos no entorno de áreas de conservação. Caso essa medida seja efetivada, o governo estará dando demonstração de que não leva a sério as leis que ele próprio criou.

18 de outubro de 2006.

Excelentíssimo Senhor Presidente
Luis Inácio Lula da Silva
Senhor Presidente,

Conforme noticiado nos jornais de ontem e hoje (17 e 18/10), o Governo pretende publicar ainda esta semana uma Medida Provisória modificando o art. 11 da lei 10.814/2004 que proíbe o cultivo de soja transgênica nas zonas de amortecimento das Unidades de Conservação, diminuindo de 10 km para apenas 500m a distância do plantio de transgênicos dos limites das Unidades de Conservação.

Se a notícia for verdadeira, mais uma vez, o Governo Lula estará cedendo diante as ilegalidades cometidas por produtores rurais e por transnacionais de biotecnologia e demonstrando a falta absoluta de firmeza com o cumprimento das normas de biossegurança no Brasil. Esta atitude, mais uma vez põe em dúvida o compromisso do Governo com a construção de uma Política de Biossegurança séria.
Como se sabe, este dispositivo legal, já considerado válido pela Justiça Brasileira, foi inserido na lei 10.814/2004 em virtude do fato da soja transgênica ter sido cultivada no Brasil a partir do contrabando praticado por agricultores e incentivado pela Monsanto.

Este fato, e a edição das medidas provisórias 113 e 131, liberando o cultivo e a comercialização da soja transgênica geraram uma situação de total desregulamentação do plantio de soja transgênica, prejudicando os agricultores convencionais, agroecológicos e orgânicos, que passaram a sofrer contaminação de sua produção, principalmente no Rio Grande do Sul. A estes agricultores, aos consumidores e ao setores da sociedade preocupados com a introdução dos transgênicos na agricultura brasileira, o Governo não se preocupou em dar respostas tão efetivas.

Agora, mais uma vez, os produtores rurais e uma transnacional de biotecnologia -- a Syngenta -- que mantinha um campo experimental na zona de amortecimento do Parque Nacional do Iguaçú, pressionam o governo brasileiro a "afrouxar" as normas de biossegurança, como ocorreu pouco antes do primeiro turno das eleições, quando o Presidente Lula reuniu-se com produtores rurais da região Oeste do Estado do Paraná .

Nesta ocasião, o Presidente mais uma vez não se preocupou em ouvir os agricultores que apóiam medidas firmes de biossegurança, que sejam capazes de preservar a biodiversidade agrícola, uma das maiores riquezas da agricultura brasileira.

Os movimentos sociais e organizações da sociedade civil desde logo se manifestam contra mais esta atitude de ceder aos interesses de setores do agronegócio e das transnacionais de biotecnologia, que estão consolidando uma cultura de desrespeito às normas de biossegurança no Brasil. Não nos furtaremos de nos manifestar publicamente contra esta medida, se ela for realmente confirmada pelo Governo.


Assinam esta Carta:

Movimento dos Pequenos Agricultores - MPA
Movimento Sem Terra - MST
Movimento de Mulheres Camponesas - MMC
Fórum Brasileiro de Organizações Não-Governamentais e Movimentos Sociais - FBOMS
Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar - FETRAF/SUL
Rede Ecovida de Agroecologia
Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa - AS-PTA
Associação de Agricultura Orgânica - AAO
Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor - IDEC
Greenpeace - Brasil
Terra de Direitos





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ENTREVISTA – AZIZ AB´SÁBER


‘Temos que continuar a luta, seja qual for o governo’

Professor emérito da Universidade de São Paulo, o geógrafo Aziz Ab´Sáber avalia que as políticas para o meio ambiente no governo Lula foram um ‘fracasso’ e as privatizações nas gestões do PSDB, ‘criminosas’, eventos que reforçam a necessidade de luta por princípios e valores hoje no Brasil.

Antonio Biondi - Carta Maior

SÃO PAULO – O geógrafo Aziz Ab´Sáber, professor emérito da Universidade de São Paulo, é um dos maiores conhecedores da realidade brasileira. Rigoroso planejador, Ab´Sáber é um crítico implacável de qualquer política prejudicial aos interesses do país e que não levem em conta o meio ambiente e o futuro das próximas gerações.

Nesta entrevista à Carta Maior a respeito das perspectivas do Brasil para os próximos anos – e que estão em jogo nas eleições presidenciais –, o professor, autor de dezenas de livros sobre os biomas e sobre a realidade do país, afirma que o a gestão de Marina Silva à frente do MMA foi “o maior fracasso da história do Ministério do Meio Ambiente de todos os tempos”. Sobre o que um possível mandato de Alckmin na presidência reserva para o país, Ab´Sáber considera que “pessoas perigosissímas” podem retornar ao poder com a ascensão do tucano, trazendo de volta as privatizações de grandes empresas nacionais, como a Petrobras, avaliadas como “criminosas” pelo professor.

Na entrevista, Ab´Sáber diz ser fundamental “continuar a luta, seja qual for o governo”. Ele defende que a universidade precisa ser mais ouvida nas decisões e no planejamento do futuro do país, embora saiba que “os planejadores governamentais fazem planos para quatro anos, quando muito na reeleição” e que “eles têm ódio de alguém que pense no futuro a diferentes profundidades de tempo”. Ab´Sáber prevê que os próximos anos serão tempos de luta por valores e princípios, e destaca que, da parte dele, “estou disposto a fazer isso até o último dia de vida”.

Carta Maior – A maioria dos analistas apresenta essa eleição como um momento que coloca em jogo dois projetos distintos, com o Lula de um lado e o Geraldo Alckmin do outro. Para o senhor, dependendo da vitória de um ou de outro, pode haver uma perspectiva diferente, de avanço das questões do desenvolvimento socioambiental? Ou ganhe um, ganhe outro, o meio ambiente vai ser encarado da mesma forma?
Aziz Ab´Sáber – No governo do presidente Lula, o Ministério do Meio Ambiente ficou nas mãos da Marina Silva, que foi uma extraordinária senadora, mas que não tinha um bom conhecimento do Brasil em termos regionais e em termos do setorial de cada região. O ministério ficou na mão de uma pessoa que gostava muito das ONGs [organizações não-governamentais] e que não tinha nenhum respeito pela universidade. O resultado foi o maior fracasso da história do Ministério do Meio Ambiente de todos os tempos, no Brasil e também nas Américas. Então, não quero discutir isso, porque eu gosto muito da Marina, mas minha avaliação é de que ela levou para lá só ONGs e não pessoas que compreendessem e conhecessem o Brasil. Um dia, perguntaram a um deles se ele conhecia a Amazônia e ele disse “Ah, eu conheço, eu estive no Amapá”. E por um acaso eu estava pesquisando no Amapá e sei onde é que ele esteve, em uma reuniãozinha de ambientalistas em uma escolinha lá em Macapá [capital do Amapá]. Isso é conhecer uma região de 4,2 milhões de km2? E, no entanto, pessoas como essa fazem indicações para a ministra sobre o que fazer, como concessões de florestas nacionais para ONGs estrangeiras etc.

CM – O senhor parece bastante preocupado frente ao atual quadro.
Aziz – Ou nós somos independentes e podemos criticar as pessoas de um governo, de outro e até ter receio em relação aos próximos, ou então nós não vamos servir ao Brasil. Fico preocupado com o que pode acontecer nos próximos quatro anos, seja o mesmo governo, seja o outro governo. Eu sei que muitas pessoas que são filiadas ao outro governo pretendem continuar com privatizações. Uma das coisas mais criminosas que foram feitas na história deste país foi a privatização da Vale do Rio Doce no governo do Fernando Henrique. As privatizações do passado foram um momento de idiotice, de pensamento apátrida. Aqueles que têm essas pretensões ‘privatizadoras’ começadas no governo Fernando Henrique e um pouco paralisadas no governo do presidente Lula, essas pessoas são perigosíssimas. Recebi um e-mail esta semana dizendo que o senhor [Luiz Carlos] Mendonça de Barros [ex-ministro das Comunicações do governo FHC], que foi quem defendeu a privatização da Vale do Rio Doce, ele disse que se fosse convidado a figurar em um governo novo em São Paulo e no Brasil, ele ia continuar defendendo a privatização, até mesmo da Petrobras. Meu Deus! É um criminoso. É rigorosamente um criminoso em termos do futuro deste país. Temos hoje governantes de péssimo nível cultural, extremamente eleitoreiros e demagógicos. A figura dos políticos brasileiros está degradada, não só nos meios acadêmicos, mas também nas classes sociais que se valem da intuição para avaliar pessoas.

CM – Professor, o jornalista Washington Novaes escreveu um artigo pouco antes do primeiro turno, perguntando “Em qual país é esta eleição?”. Nele, afirmava que, com todas as questões fundamentais relacionadas à Amazônia, à gripe aviária, à transposição do São Francisco, quase nada se falava disso nas eleições. Neste quadro, o senhor vê alguma chance de a questão ambiental ganhar força nos próximos anos, de se tornar prioritária?
Aziz – Vai depender da exigência e da inteligência brasileira representada por aqueles que conseguiram uma boa cultura e têm um ideário de ética com o futuro. Porque quem faz um projeto está pensando em alguma coisa que vai se implantar ao longo do tempo, que vai ter conseqüências em diversos níveis sociais e ecológicos. Os planejadores governamentais fazem planos para quatro anos, quando muito na reeleição. Eles têm ódio de alguém que pense no futuro a diferentes profundidades de tempo. Eu às vezes tenho vontade de botar as diferentes profundidades de tempo no rosto desses ignorantes. Temos que continuar a luta, seja qual for o governo. Daí porque eu acho que as pessoas que devam figurar nos governos são aquelas que sabem o que é o nacional, o que é o regional, e o que é o setorial nas diferentes regiões e nos diferentes quadrantes delas próprias e, ao mesmo tempo, que tenham uma ética com o futuro, senão não adianta nada.

CM – Algum caminho para fortalecer essa perspectiva?
Aziz – Em relação aos governos que já passaram e que estão passando, trago uma forte crítica cultural, em termos da ausência de planejadores e de planejamento dentro do governo. Nos últimos anos, as grandes coisas eram só, por exemplo, “transpor as águas do São Francisco”. Para quê? Diz que iria resolver o problema de água para todos no Nordeste. Em várias ocasiões eu estive com pessoas que colaboraram com esse plano e eu disse a eles, de público, que era um absurdo imaginar que a Transposição de águas do São Francisco resolveria o problema do Nordeste Semi-Árido. O rio São Francisco destinando águas para todo lado, com tecnologias caras e custosas, ia ser um projeto de planejamento linear, e não aureolar. Temo os planejamentos pontuais, planejamentos lineares e planejamentos aureolares, que envolvem áreas grandes. O pontual é muito interessante politicamente para certas pessoas. Eu vou pegar uma cidadezinha do Nordeste, eu vou dizer que vou melhorar em tudo etcétera, etcétera, e só falo naquela cidade e esqueço a rede urbana total, né? Então, nós estamos em uma situação em pesa a falta de conhecimento dos que ajudam os governos. Eu acreditava que o Lula iria escolher grandes nomes para sua equipe. O Washington Novaes é que deveria estar no Ministério do Meio Ambiente, ele nunca ia concordar em fazer concessões para ONGs estrangeiras e nem tão pouco aprovar projetos que não fossem sérios em termos da defesa dos patrimônios dos biótipos do país.

CM – O senhor falou dos riscos do meio ambiente não ser priorizado. O senhor acha que existe um risco do crescimento a qualquer custo prevalecer, deixando de lado a visão de longo prazo, de futuro de país?
Aziz – Tenho muito medo. Eu estou sabendo, por exemplo, que, aqui no meu Estado, está havendo uma tentativa de revisão de estatutos importantíssimos que deveriam ser históricos em relação a São Paulo, por exemplo o tombamento da Serra do Mar. Estão pensando em transformar a área em parque estadual e, se isso for pensado como um parque no sentido clássico e legal do termo, poderia ter 30% de desmatamento, de resto incontroláveis. Critico rigorosamente aqueles que, em vez de falar no tombamento, pensam no parque estadual da Serra do Mar, que é uma coisa ultrapassada. Não fui quem legalizou o tombamento, mas fui eu que o imaginei e que fiz o tombamento provisório. Enquanto eu estiver vivo, essas pessoas que querem fazer essas bizarrias que cuidem de agüentar críticas e os processos jurídicos que farei, correndo grandes riscos de adquirir novos inimigos.

CM – No artigo de sua autoria “O nacional, o regional e o setorial”, publicado na edição de outubro da revista Scientific American Brasil, o senhor defende que “é preciso se preocupar com as três dimensões de um país para torná-lo viável”. Hoje, no Brasil, já existem gestores públicos capazes de planejar sob essa lógica? O senhor acha que parte do problema de gestão, parte do problema de crescimento do país, se deve à falta de conhecimento que os gestores têm da realidade?
Aziz – Considero normal que os gestores pensem um pouco na sua província, no seu distrito, porque foi lá que eles obtiveram as votações etc. Agora, em termos de um salto cultural e de políticas públicas, de aplicações de ciências e de técnicas, penso que, sem fazer nada de caráter autoritário, teremos de colocar essas idéias na cabeça dos governantes.
Temos que começar a sentir se os governantes estão bem preparados para o nacional, que pressupõe relações internacionais seríssimas, o regional, para um país agigantado, e o setorial, que deve ser examinado para cada sub-setor do país, seja na Amazônia, no Nordeste seco, no Paraná, ou no Rio Grande do Sul. Vai haver muita necessidade de lutar por princípios e valores nos próximos tempos. E eu estou disposto a fazer isso até o último dia de vida. Agora, gostaria que muitas outras pessoas pensassem como a gente.

CM – O senhor tem visto avanços nesse sentido?
Aziz – No decorrer de outubro, tem havido muitas solicitações sobre opiniões a respeito de questões brasileiras fundamentais. Eu entendo que as solicitações de entrevistas, de artigos, representam uma certa confiança em alguém da universidade, não é pessoal. Existe a preocupação de jornalistas e entrevistadores isolados, pessoais, com o ponto de vista dos acadêmicos que representam a universidade brasileira neste começo do terceiro milênio. Eu, apesar destes meus 82 anos, tenho procurado corresponder, sobretudo por meio de pequenos escritos na revista Scientific American Brasil. Quando atingi o número 50, todos artigos foram reunidos num pequeno livro, que valesse mais para os estudantes do que para a comunidade científica, chamado “Escritos ecológicos”. Nesse pequeno livro, em lugar de copiar os artigos que saíram na revista, fiz alguns agrupamentos mais lógicos, dos sobre ecologia, planejamento, os de sugestões muito sutis para governantes... Que nunca ouvem a gente, evidentemente que não ouvem, não estão nem aí para acadêmicos, cientistas, e sobretudo para os planejadores. Eles fazem os projetos deles na base de interesses de alguns e no geral muito mal feitos. Sempre reclamo dessa incapacidade dos políticos de trabalhar com planejadores decentes, honestos e corretos. Não estou dizendo que eu seja o planejador mais destacado, mas entre eles a minha pessoa certamente deveria estar.

CM – O senhor enviou ao presidente Lula sugestões sobre a Amazônia, não?
Aziz – Às vezes, faço algumas bizarrias na revista que podem ser consideradas históricas. Por exemplo, quando o presidente Lula assumiu o governo, uma semana depois eu fiz uma carta longa para ele sobre a Amazônia, dizendo que era necessário que se fizesse no início do governo uma reunião em Brasília com conhecedores da Amazônia, tentando fazer um zoneamento econômico-ecológico mais amplo, para que se soubesse quais eram os quadrantes da Amazônia que precisavam ser conhecidos, de modo a haver planos voltados ao interesse da população e da região em todos os níveis. Eu havia feito aqui no IEA [Instituto de Estudos Avançados da USP] um trabalho sobre zoneamento ecológico-econômico da região, que hoje está republicado no livro “Amazônia – do discurso à práxis”, e insisti na necessidade de haver uma reunião para se discutir o que pesquisar em cada uma das células espaciais que eu havia reconhecido. Em geral, células espaciais de 80 mil a 150 mil km2. É impossível pensar a Amazônia no seu todo, de 4,2milhões de km2, já que as populações se distribuem por quadrantes os mais diferentes. Então, fiz divisões de quadrantes para poder dizer: nós temos que saber o que está acontecendo aqui, o que essa população pensa, quais são as suas expectativas de um novo governo e etc. E mandei para o gabinete do recém-nomeado presidente. Nunca tive nenhuma resposta sobre aquelas idéias. Que eu considero essenciais. Então, peguei aquelas seis ou sete páginas, dividi em duas e publiquei na revista como “Amazônia Brasileira 1” e “Amazônia Brasileira 2”. Mas historicamente, as pessoas precisam saber que isso foi uma carta, que não obtive resposta, então publiquei na revista. E também pro Nordeste eu fiz quase a mesma coisa, mostrando que era preciso conhecer todos os sertões, e não pensar apenas num fato linear como um rio só, pensando que vai resolver o problema de uma área imensa, que é três vezes a área do Estado de São Paulo. Então, eu advogava a idéia de que o nome que o povo deu aos diferentes quadrantes do sertão é que eram importantes como áreas a serem pesquisadas e estudadas. Era uma colaboração bastante objetiva. Então o pequeno livro “Escritos Ecológicos” tem um valor extra para mim porque lá eu coloquei algumas coisas que ninguém quis ler.

CM – São registros históricos.
Aziz – São registros históricos e registros para que outros que venham a ocupar cargos em Brasília e no governo brasileiro possam ter idéias deste tipo, o que sempre duvido, porque nunca ninguém quer saber de nada que parta das universidades ou da inteligência brasileira. Estou convencido disso. Alguém já disse que “acadêmicos não dão votos”. E eles estão pensando nos votos apenas, desde os primeiros dias que assumem os governos. É horrível.

CM – Professor, gostaria que o senhor falasse se imagina um espaço, um órgão que seria o coração do planejamento no Brasil, e de que modo, pensando a médio e longo prazo, o Estado deveria conversar com a iniciativa privada nesse aspecto.
Aziz – Bom, eu devo dizer a vocês que tenho refletido muito sobre a questão do público e privado, e também para poder ter uma idéia, uma avaliação das possibilidades de relação mais íntimas do público e privado, eu tenho procurado saber como é que o privado procede.
Vejo grandes empresas, que possuem um pouco de dinheiro, que fornecem dinheiro para questões culturais, mas que não sabem selecionar os projetos, ou gente que tem uma certa posição pública ou política, e que acabam recebendo ou encaminhando mais recursos para coisas deles próprios e não para coisas do conjunto. É dolorosa! É dolorosa essa relação do público e privado no Brasil. Por isso mesmo temos que revisar essa questão com muito cuidado em termos de estratégias, em termos de ética e em termos de previsão dos impactos das relações público-privado quanto às regiões e em relação aos tempos futuros. Tenho muita desconfiança da relação público-privada cada vez mais fechada. Pelas distorções nas atuais relações, devemos dar a devida importância a esse tema, em termos de ética e de planejamento metódico, integrado, bem feito e bem dirigido. Aqui no Brasil, podemos citar de imediato quais são os grandes ricos que tiveram essa trajetória extraordinária de multiplicação de recursos próprios. E eles sempre se queixam. “Nós fizemos projetos, implantamos e damos muito emprego!”. Então, a palavra emprego aí é muito genérica, porque eles usam muito a mão-de-obra barata, de migrante, de filhos de migrantes, de neto de migrantes e que não tem uma força muito grande para exigir melhores proventos. Realmente, eles cobrem uma parte dos empregos e eu bato palmas para isso. Mas, atenção, isso aí não está resolvendo tudo, porque a massa de gente braçal no Brasil não consegue ter saídas melhores e uma ascensão social mais positiva. De um lado, portanto, está a consciência técnica, científica, ética, social e etc., e do outro lado está a pirâmide social, com uma enorme base, uma base agigantada, que os políticos pretendem sempre desprezar. “Eu vou resolver o problema dessa base”, aí meu Deus, o problema pode ser até insolúvel, porque continuam problemas cada vez maiores em função da multiplicação da população dentro de classes sociais paupérrimas. Favelados e carentes, que formam a massa enorme da população brasileira. Depois temos uma classe média que é variável em cada região, por isso que o regional tem que ser estudado em todos os seus níveis. E em outros lugares você só tem a pobreza, nos altos sertões, né? Tem gente que consegue no período das secas no Nordeste, quando muito, seis dias de trabalho, e ganhando por dia de trabalho quase a mesma coisa que ganham esses pobres coitadinhos desses moços que ficam distribuindo papeletas nos cruzamentos aqui em São Paulo, não mais do que isso. Então, o que eles ganham não dá para manter uma família, e o resultado é que isso dilacera uma família. As senhoras, as mães têm que cuidar dos filhos, arranjar alimento mesmo com a maior dificuldade e sabem que o recebimento por parte dos seus companheiros é muito pequeno, e que ela não pode trabalhar. Além do que sabe também que quando os filhos chegam a uma certa idade migram para uma primeira cidade importante ou mesmo para São Paulo. Tinha que cruzar os problemas das exigências da consciência melhor que o país tem, em relação às expectativas de cada segmento da pirâmide social.

CM – Logo, o que dizer do planejamento e da relação público-privado?
Aziz - Aí vem a minha resposta para o público em particular. Tem que se procurar atender a continuidade e a funcionalidade da vida sócio-econômica e sócio-cultural de todas as parcelas, de todos os níveis da pirâmide social. Não elimino, evidentemente, aquilo que muito genericamente a gente chama de privado, que é o topo da pirâmide social.
No meu modo de entender, tanto a mais pobre das pessoas que estão lá na base da pirâmide, quanto aqueles mais ricos e de famílias mais abastadas e dotadas de condições de vida e de lazer fundamentais, tanto uns como os outros têm que ser atendidos dentro de um conjunto de políticas públicas que privilegie igualmente todas as classes sociais. Tenho uma frase para comigo, que representa um pouco da minha filosofia social, de que “ninguém escolhe o lugar geográfico para nascer, nem o ventre para nascer, nem a condição sócio-econômica do pai e da mãe, nem as condições sócio-culturais da família, nasce onde o acaso determina”. Então eu, que sou cristão, católico, apostólico, romano, me pergunto se Deus – que a gente pensa que está protegendo todo mundo – quis, se deixou alguns nascerem na beira do igarapé nos marginalizados setores da Amazônia, e outros nascerem na rusticidade dos sertões e outros nascerem nas favelas mais trágicas de uma grande metrópole de desenvolvimento desigual. É a grande pergunta que faço a mim mesmo. Então, essa realidade nos obriga a pensar em todos os seres humanos, a pensar no mais modesto dos filhos de seres humanos que estão na periferia de São Paulo, ou nos sertões, ou na Amazônia, ou no Pantanal ou em qualquer outra área, a pensar sobre eles tal como pensamos sobre os grandes ricos de nossas cidades.

CM - Professor, o senhor já definiu em quem vai votar neste segundo turno?
Aziz - No primeiro turno, eu falei claramente em quem eu ia votar [na senadora Heloísa Helena]. Neste segundo turno, eu não posso falar, por ver problemas dos dois lados. Independente de quem ganhar, teremos de cobrar que faça o melhor para o Brasil, para os mais carentes, os mais pobres. Por fim, os dois candidatos que estão no segundo turno deviam deixar de ficar fazendo esgrima com as estatísticas do que cada um fez como governante. É ridículo.





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ENTREVISTA - CHICO DE OLIVEIRA

“Agora voto em Lula”

Para sociólogo filiado ao PSOL, campanha pelo voto nulo é um equívoco. Um futuro governo Alckmin representaria um aprofundamento das privatizações de FHC. No caso de Lula, “apesar de não esperar alterações na política econômica, há espaço para mudanças”, diz ele.

Flavio Aguiar e Gilberto Maringoni - Carta Maior

SÃO PAULO – Chico de Oliveira, 72 anos, é um dos mais respeitados sociólogos brasileiros. Pernambucano de Recife, ele é professor titular aposentado do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da USP e coordenador do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania da mesma faculdade. É autor, entre outros, do hoje clássico “Crítica à Razão Dualista/O ornitorrinco” (Boitempo). Co-fundador do PSOL depois de ter deixado o PT no ano passado, Chico fala nesta entrevista dos impasses do governo Lula, das diferenças de projetos entre as candidaturas do PSDB e do PT e explica porque, depois de votar na senadora Heloísa Helena, agora vai de Lula. A seguir, os principais trechos de sua entrevista.

Carta Maior – O que está em jogo nestas eleições?
Chico Oliveira – Há duas coisas em disputa. Há uma corrida feroz em direção aos fundos que o Estado ainda controla, como os recursos do BNDES e do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador). O BNDES é o maior banco de investimentos do mundo e deixa bem para trás o Banco Mundial. O Estado orienta os fundos de pensão. E há disputa pelos benefícios gerados a partir da dívida pública, que beneficiam cerca de 20 mil famílias, segundo pesquisa do professor Márcio Pochmann, da Unicamp. Essas 20 mil famílias lucram com a dívida pública, mas não a gerem. Que gere é o Estado. A diferença maior entre as orientações de Lula e de Alckmin, em termos amplos, é que o segundo promoveria uma privatização acelerada do que resta de ativos em mãos do estado. Lembremo-nos que, segundo os levantamentos de Aloysio Biondi, em dez anos, entre os governos Collor e FHC, privatizou-se cerca de 15% do PIB.

CM – Mas não há uma continuidade do projeto do governo FHC na gestão Lula? Qual a disputa real?
CO – A continuidade faz parte da disputa pela hegemonia na sociedade. Se nos lembrarmos da lição gramsciana, hegemonia é 80% consenso e 20% violência. Há um projeto em andamento na sociedade, que atrai os setores do topo e os setores miseráveis e o povão. Se Lula tem esse projeto político na cabeça, trata-se de um gênio político. Eu acho que ele não tem, pois age muito mais por intuição do que por planos pré-definidos. Ele atua levando as práticas do movimento sindical para uma esfera maior. Como se trata de disputa de hegemonia e não de uma revolução, é natural que ele não queira acirrar os ânimos em muitas situações de conflito. Ambos – PT e PSDB - têm projetos capitalistas, mas diferentes em sua forma.

CM – A elite não tem como suportar a chegada do povo sequer aos jardins da casa grande, não?
CO – Não, porque construímos um país de desigualdade abissal. Com uma situação dessas, só é possível exercer a dominação de classe sem mediações. Por isso nós tivemos, na média, durante o período republicano, um golpe ou tentativa de golpe a cada três anos. As próprias classes burguesas estão a uma distância muito grande do povo. Nessa situação, o sistema político e os partidos perdem totalmente seu sentido. Isso explica muito a aliança de Lula com Jader Barbalho, os elogios feitos a Delfim Neto e outros. É claro que os movimentos circunstanciais explicam esse tipo de aliança. Mas ela está construída num projeto mais amplo. Talvez o projeto não esteja pré-definido e venha sendo construído pelo Lula intuitivamente. Quando ele afirma ficar chateado pelo fato de os ricos não gostarem dele, está expressando esse projeto de hegemonia, de ligar dois extremos sociais. A aproximação com o Jader está dentro disso.

CM - Como o sr. vê a mudança tática que o Lula fez nas duas últimas semanas de campanha? Ele conseguiu sair do terreno que o Alckmin queria colocar o embate – o do moralismo – e passou para o da política, através do debate das privatizações.
CO – Sem dúvida ele é um tático muito bom, não sei se é um estrategista. Não sei se ele tem, alguma coisa mais consistente por trás. Se tiver, repito, trata-se de um gênio político. Mas acho que tudo funciona através da intuição.

CM – Com tudo isso, por que considerar a possibilidade de se votar em Lula no segundo turno?
CO – Acho que a reeleição é uma nova eleição. Os espaços que tínhamos em 2002, de outra forma, voltam a se apresentar, como a questão das privatizações. Esse era um tema proibido durante o governo Lula e ainda mais na era de FHC. Os que dissentiram foram marginalizados. Por que esse tema volta agora a ser central? Por que se abre uma nova disputa. Por isso, eu considero a possibilidade de se votar em Lula. Várias forças que atuaram dentro do PT voltam a ter chance de disputar esse governo. Estou disposto a voltar a correr esse risco, embora o governo não me agrade, seja capitalista e poderia ter avançado muito mais.

CM – Como o sr. vê a campanha pelo voto nulo?
CO - Acho um equívoco e não por questões morais. Há um espaço que pode se alargar. Há diferenças entre o governo Lula e um possível governo Alckmin. Não espero mudanças na política econômica, ela continuará mesma. Mas há uma pequena chance de mudança. Por isso voto em Lula agora. E devemos usar oportunisticamente o fato de Lula precisar de votos agora, para colocar reivindicações que seu governo soterrou. Temos de atacar pelo lado social.

CM - O sr. filiou-se ao PSOL e seu partido tem outra posição...
CO - Há um equívoco no PSOL neste caso. Votei no primeiro turno em Heloísa Helena. Mas logo ela começou a desandar. Ela perdeu o voto de minha mulher quando, numa entrevista para a Globo disse, sobre o tema do PCC, que multiplicaria por dez o número de prisões. Minha mulher virou-se para mim e disse: “Aqui acabou meu apoio”.

CM – Que mudanças o sr. Espera de um futuro governo Lula?
CO - Se depender apenas das forças que apóiam Lula e da dinâmica que ele ganhou em quatro anos, não haverá mudança. Dependerá de nós, de um impulso vindo de fora.Há uma crença arraigada no Brasil de que é nos manches do estado que as coisas se solucionam. Em parte é verdade. Mas para se realizarem mudanças reais é necessário ativar a sociedade civil. Temos de incentivar muita coisa para influir. Não gosto muito de usar a expressão “movimentos sociais”, porque, fora o MST, não sei onde eles estão. Temos literalmente de encher o saco de um segundo mandato de Lula. Não podemos deixar em paz um próximo governo Lula. Se ele conseguir realizar seu projeto hegemônico com as orientações atuais, o futuro será sombrio. Teríamos de construir uma plataforma mínima, com alguns pontos básicos, como dar ao Bolsa-família o status de emenda constitucional e entrega-la à Previdência social, um dos órgãos públicos mais sérios deste país. Nas privatizações, há que se auditar e reestatizar algumas atividades. Mas eu não quero colocar condicionalidades para a votar em Lula, porque ele não vai ligar para isso. Precisamos é de uma pauta para orientar nossa ação.




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MANIFESTO DE APOIO AOS RODOVIÁRIOS

Movimento Passe Livre – Aracaju (MPL-Aju)

Diante dos últimos acontecimentos e cientes dos problemas que envolvem o Sistema de Transporte Público de nosso país, o Movimento Passe Livre – Aracaju, em público, manifesta por meio deste, apoio total e irrestrito à paralização dos trabalhadores rodoviários. Reafirmamos nosso interesse em unir forças na luta pela melhoria do Sistema de Transporte que hoje obriga o trabalhador a exercer uma carga excessiva de atividades, com baixa remuneração (com atrasos no pagamento e perda de poder aquisitivo), frota em péssimas condições de uso, ausência de direitos trabalhistas e outros problemas diários.

Além disto, a vida do usuário é posta em risco quando o trabalhador não possui as condições mínimas para o exercício de suas funções, ou seja, todos os dias. Com isso, o Movimento Passe Livre busca uma nova concepção de transporte público e conclama a sociedade sergipana para uma mobilização coletiva em prol da solução nos atuais problemas do transporte público e propõe uma união, junto aqueles que hoje manifestam-se por melhorias que beneficiem a todos que dependem direta ou indiretamente do Sistema de Transporte Público de Aracaju.

Movimento Passe Livre – Aracaju,

Aracaju, 19 de outubro de 2006.





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Todo apoio aos trabalhadores do transporte público de Aracaju

O DCE-UFS, Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal de Sergipe, não poderia deixar de expressar seu total apoio aos protestos e paralisações que os trabalhadores do transporte público estão promovendo diante do grau de exploração, abusos e desrespeitos que vêm sofrendo.
Não podemos admitir esta super-exploração do trabalhador que se expressa através dos baixos salários, do atraso no pagamento de salários, da longa duração da jornada de trabalho, do excesso de atividades, da sucateada frota de ônibus, descumprimentos dos direitos trabalhistas, da pressão dos empresários, etc.
A justa luta dos trabalhadores rodoviários também é uma luta dos usuários, inclusive da juventude. Por isso é fundamental o apoio, a união e a luta de todos aqueles setores que são explorados pelas empresas e pelo atual Sistema de Transporte de Aracaju.
Neste momento de mobilização, o DCE-UFS se soma aos trabalhadores e reafirma que só a união e a luta coletiva trarão conquistas.



Não à exploração dos trabalhadores do transporte público!
Por tarifas de ônibus justas!
Pelo Passe-Livre Estudantil!


DCE-UFS “Gestão Amanhã há de ser outro dia”




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Somos irmãos

EVO MORALES

Com toda a sinceridade, quando penso no Brasil, penso num irmão maior, num povo alegre que, como o boliviano, quer viver bem

OUVI DIZER que os meios de comunicação brasileiros disseram que a Bolívia teria "humilhado" o Brasil. Pode o povo irmão boliviano humilhar o povo irmão brasileiro? É aceitável que, em pleno século 21, estejamos pensando em termos de "humilhação", de "submetimento" ou de "subordinação" quando os destinos de todos os povos sul-americanos estão indissoluvelmente ligados para derrotar a fome, o esquecimento e o colonialismo externo?
Devo lhes dizer com toda a sinceridade que, quando penso no Brasil, penso em um irmão maior, em um povo alegre e dinâmico que, como o boliviano, quer "viver bem", quer acabar com a pobreza e quer ser dono de seu futuro.
Quando, no dia 1º de maio, decretamos a nacionalização de nossos hidrocarbonetos, o fizemos para recuperar um recurso natural que foi inconstitucionalmente privatizado pelos governos neoliberais. Para a Bolívia, não existe futuro sem a recuperação do controle sobre todos os nossos recursos naturais e as empresas estatais privatizadas. Não queremos fazê-lo de maneira negativa, atropelando ou ofendendo. Por isso, propusemos a renegociação de novos contratos com todas as empresas estrangeiras, para que os ganhos sejam distribuídos de maneira mais justa e eqüitativa.
Não queremos abusar de ninguém, não queremos nos aproveitar de ninguém... só o que nós queremos é um trato justo, para que não sobrem migalhas em nosso país e para que possamos começar a construir um amanhã diferente.
Se cheguei à Presidência de meu país, foi graças à luta de muitos anos de meu povo pela nacionalização de nossos recursos naturais. Por isso, a primeira coisa que fiz no governo foi satisfazer esse anseio, atender a esse clamor. Sei que alguns poderosos se sentiram surpreendidos, contrariados e incomodados. Sinto muito, mas já era de começar a chover para todos.
A nacionalização dos hidrocarbonetos na Bolívia não tem porque provocar incertezas no Brasil. Mesmo nos momentos mais difíceis de nossa história, nós mantivemos nossas exportações de gás ao Brasil, e vamos continuar fazendo o mesmo. As modificações que estamos negociando não têm porque afetar o consumidor brasileiro, já que são extremamente pequenas, levando em conta que a receita da Petrobras em 2005 foi 24 vezes maior que todas as exportações mundiais da Bolívia no mesmo ano.
Em meus oito meses de governo, aprendi que os grandes ricos e os novos conquistadores não dão a cara a tapas para enfrentar o povo. Não! O que fazem é provocar disputas entre pobres, para nos enfraquecer, para nos desunir, para nos distanciar uns dos outros. Por isso, me entristece muito quando procuram distanciar e provocar um confronto entre os povos irmãos da Bolívia e do Brasil.
Eles, os que sempre estiveram em cima, sabem que em nossa união está a força, que, juntos, somos invencíveis. Por isso a insídia, por isso a mentira, por isso a calúnia. Por isso essa retórica que procura nos converter em seres egoístas que pensamos apenas em nós mesmos, em nosso bem-estar individual, nos esquecendo de que compartilhamos um mesmo continente, um mesmo planeta.
A sorte do Brasil é a sorte da Bolívia, da Argentina, do Uruguai, do Paraguai e de todos os países da região. Em nossos tempos, já não podemos pensar unicamente em termos de país. Juntos, precisamos nos apoiar, precisamos colaborar, precisamos nos compreender uns aos outros.
Entre povos irmãos, precisamos compartilhar, e não competir, precisamos nos complementar e fortalecer nossa unidade sul-americana. Essa é nossa agenda para a próxima reunião da Comunidade Sul-Americana de Nações que terá lugar em Cochabamba, Bolívia.

EVO MORALES AYMA é o presidente da Bolívia.



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15 outubro, 2006

DEBATE ELEITORAL E AS PERSPECTIVAS PARA OS SOCIALISTAS

Roberto Leher

A arrogância das certezas e dos juízos definitivos não é compatível com o espírito científico. Há mais de meio milênio William Shakespeare com seu desconcertante senso crítico alertava que “Há mais coisas entre o céu e a terra (...) do que sonha a nossa vã filosofia" (Ato I - Cena V: Hamlet). O debate sobre o voto no segundo turno, se em Lula da Silva ou nulo (este texto assume como obviamente fora de questão o voto em Alckmin), salvo honrosas exceções, parece ter enredado por um caminho irracionalista – a certeza dogmática do posicionamento correto: quem não vota em Lula da Silva é pequeno burguês e apóia o retrocesso neoliberal - que terá graves implicações políticas para as lutas pela emancipação social.



Após a “surpresa” de que haverá um segundo turno, a rede web está congestionada de tanta mensagem comparando o desempenho de Lula da Silva vis-à-vis ao de Cardoso, obviamente mostrando como os indicadores do representante do PT são superiores aos do PSDB. Em que pese graves erros metodológicos, como os que sustentam que o neoliberalismo de Lula da Silva foi capaz de alterar o ponteiro da desigualdade social no país (dando razão aos adeptos do neoliberalismo de que a macroeconomia neoclássica é capaz de promover a justiça social), tema a que voltarei adiante, surpreende que o “metro” da análise do governo Lula da Silva seja o metro das políticas neoliberais.



Aqui, diferente do problema teórico e metodológico da desigualdade social, a questão é outra: a maior vitória que os dominantes podem ter é justamente quando os de baixo pensam conforme os seus parâmetros. Gramsci nos ensinou com os conceitos de hegemonia e transformismo que uma hegemonia é dominante quando é capaz de incluir em seu sistema de pensamento o ponto de vista inclusive de setores outrora em oposição e, não menos importante, assimilar os quadros políticos mais destacados das forças adversárias ao seu sistema político.

Nessa perspectiva, quando o metro do acerto ou do erro de Lula da Silva é tomado emprestado do neoliberalismo de Cardoso estamos diante de uma derrota intelectual, pois, ao não reivindicarmos outras perspectivas fora do marco neoliberal, estamos reconhecendo que afinal Thatcher tinha razão quando afirmava que “Não Há Alternativa” (TINA, por sua sigla em inglês) ou, tão terrível quanto, que o ideólogo do Departamento de Estado dos EUA, Francis Fukuyama, expressava uma verdade quando asseverava a tese do fim da história.

E pior, causa profunda apreensão o fato de que parte significativa da intelligentsia da esquerda insista em separar o econômico do político e o econômico do social, sob a fórmula: “a política econômica do governo é péssima, mas a política externa e a área social são excelentes ou se não merecedoras de tal adjetivo, ao menos são avanços inquestionáveis etc. Ellen Wood em um extraordinário livro[1] nos mostra que a dominação burguesa por meios “democráticos” tem sido possível justamente devido à disjunção das esferas econômica e política, possibilitando que a democracia econômica tivesse sido suprimida em favor da “democracia” política. É essa concepção que justifica a autonomia do Banco Central frente à soberania popular, por exemplo (situação que ocorreu tanto no governo Cardoso como no de Lula da Silva). Essas análises têm e terão repercussões muito graves, pois, nesse caminho, a esquerda perderá o que restou de patrimônio teórico, anunciando derrotas muito duradouras e de conseqüências imprevisíveis.



Se não adotarmos como metro a agenda (e os parâmetros a ela associados) de Cardoso (e do neoliberalismo em geral), podemos pensar em alguns elementos que poderiam ser definidores de distinções que poderiam justificar o voto em Lula da Silva ou, alternativamente, o voto nulo.

Grande parte das manifestações a favor do voto “útil” reconhece que o governo de Lula foi ruim, mas, independente dessa avaliação, destacados movimentos avaliam que, ainda assim, cabe reivindicar e avalizar, em seus próprios nomes, um novo mandato para Lula da Silva. Buscando incorporar as contribuições sérias ao debate, como a de representantes de movimentos sociais ou de intelectuais de fato comprometidos com o socialismo, podemos destacar alguns pontos que poderiam servir de referência para julgar se o governo de Lula da Silva pode servir de aresta para potencializar as lutas futuras e com isso justificar o voto “útil” em um novo mandato para o governo atual.



Com efeito, conforme o controverso editorial do Brasil de Fato (11.10.2006), parece haver consenso de que “Um balanço dos quatro anos de mandato do presidente Lula deixa um decepcionante saldo para a classe trabalhadora, sobretudo no que diz respeito à economia” (...), contudo, partindo novamente da disjunção acima apontada (entre o econômico e o político e social) o referido Editorial assevera que “Hoje, o inimigo principal é o bloco que se aglutina em torno da candidatura Geraldo Alckmin. É este, portanto, que deve ser derrotado nas atuais eleições. Assim, votar Lula, mesmo sem qualquer ilusão no que diz respeito à sua política econômica, é um dever de todos nós que constituímos a classe trabalhadora e o povo brasileiro”.



Uma síntese dos argumentos a favor do voto em Lula da Silva não poderia deixar de incluir as seguintes questões:



1. O fato de que inimigo principal é o bloco que se aglutina em torno da candidatura Geraldo Alckmin.

2. Embora a sua política econômica seja ruim, o governo promoveu avanços na área social, em particular no programa bolsa família, na educação e na questão agrária.

3. O ponteiro da desigualdade social se moveu pela primeira vez, em benefício dos trabalhadores.

4. A política externa se afastou dos EUA, contribuiu para inviabilizar o ALCA e teve papel decisivo no fortalecimento de um novo pólo de feições terceiro-mundistas.

5. As privatizações foram interrompidas e o Estado está sendo reorganizado.

6. O governo dialogou com os movimentos sociais e com os sindicatos, abandonando a repressão e incentivando a participação social.



Não é propósito deste texto elaborar uma análise pormenorizada desses seis itens. As indicações a seguir apresentadas são preliminares e certamente mereceriam cada uma delas um extenso estudo. A primeira questão, por ser mais abrangente será examinada com mais vagar.

1. Quem são os dominantes e como eles têm se manifestado na eleição. É certo que Alckmin reuniu os dominantes para o seu bloco e Lula da Silva está somente amparado no povo ou em uma burguesia desvinculada do imperialismo?

Afirmar que o inimigo principal é o bloco que se aglutina em torno de Alckmin é asseverar que o bloco que sustenta Lula da Silva é composto por inimigos secundários. Essa afirmação é sumamente grave. Considerando o imperialismo como uma categoria explicativa do capitalismo de hoje, é inaceitável a afirmação de que o capital financeiro, o agronegócio e o setor exportador de commodities são inimigos secundários, menos letais do que os reunidos em torno de Alckmin. Vejamos com mais detalhes a questão.



Não houve nenhuma reversão na tendência de fortalecimento das frações burguesas mais internacionalizadas, ao contrário, no período de Lula da Silva a participação do setor mais internacionalizado conheceu extraordinário fortalecimento. No período Cardoso, para cada R$ 100,00 gerado na economia, R$ 14,50 dependiam da dinâmica externa da economia, no governo Lula da Silva este valor subiu para R$ 47,00, conforme aponta o economista Reinaldo Gonçalves. Esse quadro aponta para um agravamento da condição capitalista dependente.



Não é causal que no momento de maior crise do governo, quando o publicitário da Campanha de 2002 afirmou que o financiamento da campanha foi parcialmente proveniente de recursos de paraísos fiscais localizados fora do país, o que legalmente poderia abrir caminho para o impeachment, os EUA saíram em defesa do governo Lula da Silva. Não apenas declarações de apoio de Condoleezza Rice, mas uma visita emergencial do ex-Secretário do Tesouro dos EUA, John Snow, indicaram que o afastamento de Lula da Silva não teria o apoio da Casa Branca, situação esperada caso Lula da Silva contrariasse Washington, como ocorreu com Hugo Chaves ou com Allende e Jango. Lideranças empresariais de porte como Antônio Ermínio de Moraes, entidades como a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) e os representantes do agronegócio e proeminentes lideranças do PSDB, como o governador de Minas Gerais saíram em defesa do governo. O ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, um dos organizadores dos contatos que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva manteve com investidores em Nova York com representantes de empresas como Citigroup, Ford, Fedex, Shell, Lucent Technologies e Microsoft, sustentou que a crise política não atrapalha o “vigor” da economia brasileira.



De fato, a evidência mais importante de que os senhores do mundo querem Lula da Silva foi a visita emergencial do ex-secretário do Tesouro dos EUA, John Snow, que chegou ao país quando o governo Lula parecia se desfazer, reunindo a Câmara Americana de Comércio, as financeiras e os bancos. Snow fez elogios ao presidente Lula e ao ex-Ministro da fazenda e afirmou que enquanto a estabilidade econômica for mantida, o governo e os investidores não devem se preocupar com as denúncias de corrupção e a crise política que atinge o país. Afirmou, ainda, que o então ministro da Fazenda “reflete o compromisso do país com boas políticas” e “uma boa economia é aquela na qual o capital circula livremente”. Defendeu a retomada da criação da área de livre comércio das Américas (ALCA), citando o acordo dos países da América Central e do Caribe (Cafta) que, segundo ele, daria outro ímpeto as negociações da Alca[2] .

Grandes empresários fizeram tensas reuniões para discutir saídas para blindar a economia. Uma das saídas apontadas seria costurar um acordo político que interrompesse a “onda de denuncismo”.[3] O presidente do Bradesco e da Febraban, Márcio Cypriano, foi na mesma linha: as denúncias de corrupção política não podem parar o Brasil[4].

Os adeptos da tese de um suposto golpe da direita contra Lula da Silva reivindicam a fala do ex-presidente Cardoso que propôs que Lula deveria anunciar que não se candidataria em 2006 e a repugnante virulência da revista Veja, um periódico semanal de direita que representa parte do PSDB e é muito vinculada à frações do capital estrangeiro. Contudo, a tese do impeachment de Lula da Silva e as denúncias contra Meirelles não tiveram o aval do sistema Globo, o maior do país, cuja tevê (TV Globo) é líder inconteste de audiência, bem como de nenhum grande periódico do país, distintamente de Collor de Mello, por exemplo.



As críticas laterais ao governo Lula feitas pelos grandes meios de comunicação se concentraram nas denúncias epidérmicas de corrupção, sempre blindando a área econômica e o próprio Lula da Silva. Certamente, os dominantes sabem que quanto mais frágil e debilitado, mais Lula irá abraçar a causa do grande capital (ver proposta do ex-ministro Palocci de provocar uma drástica queda no que restou das barreiras alfandegárias no país, acima inclusive dos marcos da OMC ou a proposta de déficit nominal zero de Antônio Delfin Neto que sustenta que Lula da Silva a apóia, sem ser desmentido pelo governo).



As críticas do PSDB e do PFL – junto com Veja – ecoam o sentimento de uma parte da burguesia, justo hoje a mais débil (a base do setor do agronegócio e setores do comércio e do setor exportador, justo os setores atingidos pela política macroeconômica de Lula da Silva que manteve juros estratosféricos e, com isso, apreciou o Real, reduzindo a competitividade das exportações e abriu o mercado do país aos produtos chineses quebrando setores internos). Contudo, as frações mais perniciosas seguem com Lula da Silva (como as representadas pela Câmara Americana de Comércio, os bancos, os fundos de pensão, as financeiras e os mega exportadores de commodities e do agronegócio que promovem saqueio ao meio ambiente (minérios etc.) e hiper exploram o trabalho, como o agronegócio ligado ao álcool e parte significativa da soja).



Evidentemente, Lula da Silva não é uma escolha dos dominantes, mas uma contingência que, entretanto, é muito útil ao capital. Caso fosse Cardoso ou um representante do tucanato, a sangria das verbas públicas para o capital rentista, representada por um milhar de famílias, seria objeto de maior contestação, assim como o seriam as contra-reformas da previdência, a lei de falência, as parcerias público-privadas, a concessão de áreas petrolíferas às corporações multinacionais etc.



O governo de Lula da Silva, “o suposto governo social e amigo dos movimentos sociais”, foi sumamente generoso com a banca. A Dívida Líquida do Setor Público (que soma as dívidas externa e interna) subiu de 29,35% para 51,87% do PIB entre 1995 e 2004. Do início de 2003, até julho deste ano, foi repassado para os credores o montante de R$ 493 bilhões de juros da dívida pública (e que, até o fim de 2006, vai ultrapassar os R$ 511 bilhões propiciados pelo 2º Governo FHC).



Para fazer esses repasses para o setor rentista, a área social e os investimentos em infra-estrutura tiveram de ceder grande parte de seus orçamentos, por meio de mecanismos como a manutenção (e, tudo indica que em um possível segundo mandato, a ampliação) da desvinculação de receitas da União que retira 35% dos recursos educacionais (ao retirar 20% da receita de impostos vinculados) e do estabelecimento de metas elevadíssimas de superávit primário. Em grandes números, podemos acompanhar como os superávits fiscais primários cresceram a partir da crise de 1998: de 3,75% do PIB (R$ 165 bilhões durante o 2º Governo FHC) para 4,25%, a meta acertada com o FMI no governo Lula (que, na prática, realizou superávits de 4,3% em 2003, 4,6% em 2004 e 4,8% em 2005, transferindo, como decorrência, R$ 303,6 bilhões aos banqueiros, até julho deste ano, como pagamento de parte dos juros[5]). E essa situação somente tende a piorar, pois o valor que está sendo “economizado” pelo Superávit Primário, a cada ano, não é suficiente para pagar o total dos juros da dívida. Em 2004, por exemplo, o Governo Federal tinha de pagar R$ 79 bilhões em juros da dívida. Como o superávit primário federal foi de R$ 52 bilhões, o esforço fiscal só permitiu pagar 65% do custo da dívida pública. Mantida essa política está claro que tanto Alckmin quanto Lula da Silva vão promover gigantesco ajuste nas contas públicas para elevarem ainda mais o superávit primário.



Ao examinarmos quem são os credores da dívida interna podemos entender porque o capital rentista não pode se opor ao governo Lula da Silva:

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• Banco nacionais e estrangeiros - 49% (títulos indexados a mais alta taxa de juros do mundo)

• Fundos de investimentos - 27%

• Fundos de pensão - 17%

• Empresas não financeiras - 6%

• Outros- 1%



Fonte: Boletim da Auditoria da Dívida n. 15 (outubro de 2006)

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Cabe observar que somente entre dezembro de 2005 e julho de 2006, a dívida interna cresceu de R$ 1,002 trilhão para R$ R$ 1,109 trilhão (11% ou R$ 107 bilhões em apenas 7 meses!). Considerando que os recursos do Estado estão direcionados para manter esse ciclo satânico, é compreensível o apoio do setor financeiro a um novo mandato para Lula da Silva.



A melhor síntese sobre o posicionamento do setor financeiro foi elaborada por Olavo Setúbal, o patriarca do grupo Itaú, fundador do Banco e Presidente do Conselho Administrativo do Itaúsa, holding que controla este banco:



Havia uma grande dúvida se o PT era um partido de esquerda, e o governo Lula acabou sendo um governo extremamente conservador... A visão era que o Lula iria levar o país para uma linha socialista. O sistema financeiro estava tensionado, mas, como ele [Lula] ficou conservador, agora está para ganhar novamente a eleição e o mercado está tranqüilo… Não tem diferença do ponto de vista do modelo econômico. Eu acho que a eleição do Lula ou do Alckmin é igual… Os dois são conservadores. Cada presidente tem suas prioridades, mas dentro do mesmo leque de premissas econômicas. Acho que o Lula vai conservar a premissa de superávit primário, de metas de inflação e tudo o mais. São evoluções que estão consolidadas no Brasil e serão mantidas por qualquer presidente. (Olavo Setúbal, entrevista para o jornal Folha de São Paulo em 13/08/2006).



Diferente do setor financeiro, o agronegócio parece estar dividido entre os dois candidatos com a base a favor do PSDB e os mega-projetos a favor do candidato do PT. Com efeito, o mapa dos votos no primeiro turno nos corredores do agronegócio foi um duro recado ao governo que terá de fazer novas concessões para o setor. Ao longo de todo o seu mandato, Lula da Silva teve como ministro Roberto Rodrigues, a mais expressiva liderança do setor, fez importantes concessões ao setor, como a liberação dos transgênicos, a destituição da direção da EMBRAPA antes favorável majoritariamente à pequena e média agricultura, o re-escalonamento da dívida do setor e a manutenção de elevadas isenções fiscais (Lei Kandir); contudo, a apreciação do Real em virtude da elevada taxa de juros e a concentração dos empréstimos oficiais (com juros subsidiados) em pouco mais de 15 grandes empreendimentos[6] levou a base do setor a ver o governo como um aliado pouco confiável. O próprio Rodrigues preferiu se afastar do ministério. Para reverter essa avaliação, o governo solicitou o governador eleito de Mato Grosso, Blairo Maggi, que intercedesse a favor da campanha de Lula da Silva junto as lideranças do setor. A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, garantiu o financiamento de medidas para o agronegócio que totalizam R$ 4 bilhões para minorar os efeitos do câmbio negativo.



O setor exportador de commodities segue unido em torno do ministério de Furlan e, a despeito das críticas à apreciação do Real e da concorrência chinesa em manufaturas, obteve ganhos importantes como isenções tributárias e mecanismos favoráveis para as transações com a moeda estrangeira quando das exportações (podendo manter 30% da receita de exportações no exterior) e, ao menos o setor mais internacionalizado, tem sinalizado com manifestações de apoio a um novo mandato do petista.



Examinando a questão de modo mais global, é possível sustentar que as frações mais internacionalizadas seguem apoiando Lula da Silva, em especial no setor financeiro e no saqueio à natureza (reprimarização da economia). O instrumento de chantagem dos especuladores, o risco-país, segue baixando mesmo com as pesadas crises de legitimidade do governo Lula da Silva, caindo para níveis significativamente do que os de Cardoso.



Embora revestido de um discurso latino-americano, o engajamento do mandato de Lula da Silva na Iniciativa para a Integração da Infra-Estrutura Regional da América do Sul – a materialização do ALCA no território – segue consistente, como se depreende do projeto de parceira público-privada, dos empréstimos do BNDES para os mega-projetos, das concessões de vastos territórios na Amazônia, a permissão de mega-projetos de produção de celulose nas reservas aqüíferas do país (em especial a Guarani) e das concessões de áreas petrolíferas às corporações multinacionais.



Em suma, existem fortes elementos que corroboram que o imperialismo ainda vê em Lula da Silva um aliado útil, visto que, estando no governo, Lula da Silva é uma garantia de que o transformismo da CUT manterá a central dócil ao capital e às reformas que desmontam os direitos sociais. Tarso Genro, quando presidente do PT, pediu moderação nas críticas mais duras ao PT, lembrando que, sem este partido, as lutas de classes estariam muito mais aguçadas e abertas e que o PT é um fator importante para a própria governabilidade.



A afirmação de que a direita está apenas com Alckmin merece, pois, sérios reparos. Se examinarmos do ponto de vista dos setores dominantes, veremos que as principais frações estão com Lula da Silva. A leitura de que a direita está com Alckmin devido a atuação dos personagens sinistros da direita pode ocultar o movimento real dos setores dominantes, pois, embora seja certo que Bornhausen, Antônio Carlos Magalhães e outros personagens de igual quilate estão sustentando o discurso direitista tucano, não devemos confundir os personagens da direita com os setores dominantes, como Marx nos mostra magistralmente no 18 Brumário. Ademais, no varejo da política, os personagens sinistros tendem mais para Lula da Silva, a exemplo de Antonio Delfim Neto, Maluf, Dornelles, Collor de Mello, Sarney e família, Jader Barbalho, Geddel Vieira, entre outros, mas isso é o varejo.

2. Apesar da política econômica, o governo promoveu avanços na área social

A padrão de acumulação em curso requer a reprimarização do país e a sangria do ciclo satânico da dívida já indicado. Nos últimos anos o país regrediu em termos de questões muito relevantes para a esquerda, como o trabalho infantil[7] . O desemprego segue em padrões elevadíssimos e os novos empregos somente confirmam o padrão de acumulação por “despossessão” a que se refere David Harvey: os empregos
criados nos últimos dois anos são basicamente precários - 64% com rendimentos de até um salário mínimo e nenhum saldo positivo do emprego com rendimento acima de três salários mínimos[8].

Fonte: Reinaldo Gonçalves, 2006

O bolsa-família – um programa resultante da unificação de programas sociais do governo anterior destinado as famílias que possuem renda per capita inferior a R$ 120,00, destina de R$ 15,00 a R$ 91,00 por família, conforme a renda – é um programa de alívio à pobreza (Banco Mundial) que não altera a condição de miséria, servindo para manter os miseráveis vegetativamente vivos, fora do mundo do trabalho regulamentado, compreendendo tão somente repasses de cerca de R$ 8,3 bilhões para atender a 11,118 (milhões) de moradias (julho 06). Por não ser um direito social, presta-se a grossa manipulação política, nos mesmos moldes dos programas criados no México pelo PRI e seguidos pelo governo Fox (PAN): os governos sempre difundem que se perderem a eleição, o benefício será retirado, quase que obrigando os miseráveis a votar no governo, o que explica a reeleição de diversos governos na região. O corte de renda da focalização gera uma situação absurda e profundamente injusta, conforme reconhece o PNUD[9]: se em vez de R$ 120,00 o corte fosse R$ 125,00 o programa teria de atender a mais 1 milhão de famílias. Assim, o que poderia diferenciar esse programa dos de alívio à pobreza do Banco Mundial, a sua universalização como um direito da seguridade social, como preconizou corretamente Francisco de Oliveira, sequer foi esboçado pelo atual governo.

Educação.



Indicadores da CEPAL/ IUS-UNESCO, 2003 confirmam que o Brasil gasta apenas 3,8% do PIB. A UNESCO recomenda nunca menos de 6% e o PNE aprovado no parlamento determina a aplicação de 7% do PIB na educação pública. A exemplo de Cardoso que vetou o aumento das verbas educacionais, também Lula da Silva, a despeito de seu Programa de governo que prometia a retirada do veto, não retirou o veto de Cardoso à ampliação das verbas dos atuais 3,8% do PIB para 7%, conforme aprovado no Plano Nacional de Educação (PNE), o que permitiria bases econômicas para transformar a educação pública brasileira superando, após meio século de barbárie educacional, o apartheid educacional existente no país. A União aloca tão-somente o equivalente a 0,8% do PIB na educação pública.



Na educação básica compete a União suplementar as verbas dos estados e municípios, atualmente por meio do Fundef. A União vem se desobrigando de sua função suplementar em termos de financiamento ao ensino fundamental. A Emenda Constitucional no 14 abriu caminho para o afastamento da União de seu dever de assegurar a educação básica a todos. Somente a não correção do valor do FUNDEF provocou um calote da União de R$ 12,8 bilhões no período 1998-2002 (Cardoso). Lula da Silva logrou o mesmo calote em apenas 3 anos (2003-2005). Embora tenha corrigido o valor do per capita em 10% (2005/2006), o ajuste que não foi suficiente para repor as sucessivas burlas ao valor do per capita. A redução nos gastos é de tal ordem que, com o per capita adotado, apenas 2 estados receberão suplementação da União.



Por isso não pode causar surpresa o aumento do número de jovens fora da escola:

Fonte: Reinaldo Gonçalves, 2006



José Marcelino Rezende Pinto assinala que essa escola contribui para excluir o negro e o pobre. Assim é que, segundo os dados do Saeb (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica) de 2001, os negros que representavam 11,3% dos participantes do exame na 4ª série do Ensino Fundamental caíam para 6,4% na 3ª Série do Ensino Médio, ou seja, ocorre um branqueamento das turmas ao longo da trajetória escolar. A política de cotas do governo Federal simplesmente ignora essa questão, mantendo a lógica da focalização no sistema de ingresso, sem sequer arranhar o problema disjunção entre a educação básica e a superior e, pior, reservando as piores instituições para os negros (Prouni).

Atualmente, 12% da população brasileira é analfabeta e existem 37 milhões de brasileiros acima de 15 anos e com menos de 4 anos de escolaridade. Reunindo todas as experiências de educação de jovens, o número não ultrapassa 2,5 milhões, ou seja, sequer 10% dos cidadãos pouco ou nada escolarizados têm esse direito (precariamente) atendido. Cabe lembrar que somente no ocaso do primeiro mandato Lula da Silva enviou ao parlamento a proposta de um novo fundo (FUNDEB) que se viesse lastreado por recursos federais significativos poderia alterar esse estado de coisas. Mas também aqui é possível afirmar que com o superávit primário acima de 4,5% do PIB nada mudará. Caso a verba prevista para o primeiro ano de vigência do novo Fundo seja realmente de R$ 1,7 bilhão, o per capita teria de ser diminuído.



A principal peça publicitária do governo em matéria educacional, o PROUNI, parte de uma falsidade: a afirmação de que sua motivação foi a regulamentação da “filantropia”. Inicialmente, cabe lembrar que a CF Federal não determina que o Estado assegure isenções fiscais para as Privadas confessionais, filantrópicas e comunitárias, apenas autoriza as referidas isenções. Por que, no lugar de institucionalizar essas isenções que não são compulsórias, o governo simplesmente não as extinguiu (dada a “pilantropia”) já que, para isso, seria necessária apenas uma lei ordinária? Ou, uma hipótese mais conciliadora, por que o governo não se limitou a regulamentar a filantropia de modo mais rigoroso?



Ao contrário do discurso oficial, o PROUNI não regulamenta apenas a contrapartida das instituições às quais a Constituição permitiu (e não determinou) a isenção fiscal, como as 400 instituições ditas filantrópicas, comunitárias e confessionais, mas, também, as 1450 instituições empresariais (com fins lucrativos). O PROUNI incluiu, de contrabando na legislação, algo que a Carta de 1988 não admitiu: o repasse de verbas públicas para as instituições empresariais. A contrapartida às isenções tributárias que podem corresponder a 25% da arrecadação das empresas educacionais inicialmente foi de 25% das vagas na forma de bolsas integrais, quando editou a medida provisória este percentual baixou para 10% e, finalmente, quando a lei foi votada as bolsas integrais despencaram para 4,25%!



O programa de crédito aos estudantes na forma de empréstimos (FIES) vem recebendo forte incremento por meio da alocação crescente de verbas públicas no programa que beneficia as privadas. Recentemente, o governo resolveu subsidiar os juros pagos pelos estudantes em detrimento de ampliar as verbas das instituições públicas. As mudanças incluem juro zero para parte dos alunos beneficiados pelo programa de Financiamento Estudantil (Fies), nas palavras de um dirigente empresarial da educação: “Não vou discutir o momento em que isso foi divulgado, para não ganhar caráter eleitoral. Do ponto de vista da educação, é uma medida boa, que atende a uma reivindicação antiga do segmento”, afirma o presidente do Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior do Estado de São Paulo (Semesp), Hermes Figueiredo, sobre a mudança no Fies.



No caso das universidades federais o padrão de financiamento não foi alterado, o projeto de expansão prevê recursos irrisórios, os concursos seguem abaixo das aposentadorias impulsionadas por Cardoso e Lula da Silva em suas contra-reformas da previdência, tornando as novas universidades e campi uma vaga promessa para o futuro. Caso se confirme o aumento da Desvinculação de Receitas da União de 20% para 30% o aprofundamento da privatização estará perigosamente no horizonte.



Questão agrária



A reforma agrária (associada a uma nova política agrária) não avançou no governo Lula. De início, houve esperança na concretização da aspirada reforma agrária. Foi encomendada uma proposta de Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA). Seu objetivo era desencadear o tão necessário processo de mudança estrutural em favor das populações vulneráveis ao modelo vigente e reverter o processo de concentração fundiária. Conforme análise de dirigentes do MST as expectativas de que Lula da Silva alteraria o padrão de reforma motivaram as lutas pela terra. De fato, o número de famílias acampadas subiu de 60 para 120 mil apenas no primeiro ano de governo Lula da Silva. O plano de reforma agrária, construído sob a coordenação de Plínio de Arruda Sampaio, previa como meta emergencial o assentamento de um milhão de famílias em 4 anos de governo (dos cerca de 5 milhões de famílias sem terra). Lula da Silva arbitrou em apenas 400 mil famílias as metas de seu governo. Apesar das evidências em contrário, o governo afirma que assentou 230 mil famílias! Contudo, examinando a situação no final de 2005, o MST constata que 100 mil famílias ainda estão sob a lona, aguardando o acesso a terra (algumas há seis anos). O geógrafo Bernardo Mançano (UNESP), com base nas informações do Banco de Dados de Luta pela Terra, comprova que nos três anos do governo Lula apenas 25% das famílias assentadas o foram em terras desapropriadas, o restante foi redistribuição de assentamentos em áreas públicas. O latifúndio permaneceu intocado (em virtude de sua aliança com o agronegócio).



3. Desigualdade social

Se o padrão de renda dos trabalhadores sequer recupera os valores da história recente e o desemprego segue em níveis elevadíssimos, como pode ter havido, de fato, redução da desigualdade social?


Fonte: Reinaldo Gonçalves, 2006

Existem vários problemas metodológicos nas pesquisas sobre a redução da desigualdade de renda, referentes: à composição do índice de GINI (que possui significados diferentes na América Latina, África e Ásia, algo que por definição não deveria ocorrer); às pesquisas do PNAD/IBGE não podem aferir a renda real dos ricos (que estão remetendo vultosas somas ao exterior por meios “informais”) e que, portanto, não podem ser declaradas no censo; ao corte do número de pobres e miseráveis que, por estar relacionado ao valor do dólar, flutua com a variação cambial, reduzindo o número de pobres e miseráveis com a apreciação da moeda nacional, e ao próprio tratamento matemático dos dados estatísticos, conforme análise de Cláudio Considera (O Globo, 6/10/06, p.7). A comparação com o governo Cardoso, como já sublinhado neste texto, não é explicativa da situação social. Está claro que a redução do número de indigentes do período Cardoso (7,5 milhões em função da bolha do plano Real) ou de Lula da Silva (2,65 milhões) não altera a questão, pois, a linha que separa os miseráveis e os pobres dos demais segmentos da população é fluída e arbitrária como vimos na questão do valor para uma família ser habilitada ao programa bolsa-família em que míseros R$ 5,00 poderia incluir mais 1 milhão de famílias no programa! A menor redução do número de miseráveis no governo Lula da Silva quando comparada à de Cardoso não significa que o neoliberalismo de Cardoso tenha sido melhor do que o de Lula da Silva. As flutuações em torno da linha da miséria ou da pobreza não significam o fim da miséria como, aliás, a existência do programa bolsa-família o comprova.

4. Política externa independente

Muitos dos mais ásperos críticos do governo de Lula da Silva sustentam que existe uma ilha programática em seu governo: a política externa. Entre os indicadores que sustentam essa avaliação, são citados: o posicionamento no G-21, a ajuda a Chaves no contexto do golpe contra o seu governo, a autonomia frente aos EUA e o afastamento do país do ALCA.

Com efeito, a afirmação do G-21, por ocasião da Reunião da OMC em Cancún (2003), foi considerada um novo marco da política externa mundial. A grande mídia atribuiu o impasse da Reunião à posição do G-21, liderado pela Índia e Brasil – que teria ressuscitado o espírito de (um idealizado) Bandung e de um não menos idealizado “terceiro-mundismo”, enchendo de esperanças intelectuais e analistas pouco atentos aos verdadeiros objetivos da política de comércio externo brasileira, centrada no agronegócio e na reprimarização.



O G-21 reuniu aliados muito estreitos dos EUA, como Chile e México, todos insatisfeitos com a proposta conjunta dos EUA e UE – que carecia de proposições concretas para a agricultura. Mas é preciso examinar com mais vagar as vozes que puderam externar o seu descontentamento: o agribusiness ou a agricultura camponesa?



É certo que a tríade pretendia cindir os países “em desenvolvimento” em “subdesenvolvidos” e “miseráveis”, impondo um retrocesso em relação ao conceito de “Rodada do Desenvolvimento” anunciada em Doha. Mas o G-21 realmente significa uma oposição aos interesses das corporações? Durante a Conferência o G-21 foi a voz d´ África cujo comércio exterior, excluindo a África do Sul, representa menos de 1% do comércio mundial, equivalendo a pequena Finlândia, ou foi a pauta dos países de grupo de Cairns (os países de fora da tríade que lideram o agronegócio)?



Como observaram Walden Bello & Aileen Kwa (2004), a tática dos EUA frente ao G-21 mudou. Concluindo que grandes reuniões fortaleceram os países pobres, em especial quando acompanhadas de enormes manifestações, os EUA e a UE apostaram no grupo das “5 partes interessadas” (P-5) para fazer um acerto pelo alto em nome dos setores internacionalizados dos EUA, da UE, da Austrália, do Brasil e da Índia. Com essa iniciativa, os EUA e a UE venceram uma batalha extremamente importante, após duas derrotas (Seattle e Cancun), recolocando nos trilhos os TLC, objetivando avanços na redução das tarifas para produtos não agrícolas (NAMA, em sua sigla em inglês).



Ao inserir o Brasil e a Índia, em abril de 2004, no seleto grupo das “5 partes interessadas” (P-5) – sem a presença dos países pobres (cerca de 100 países estavam ausentes da reunião do Conselho Geral) e dos alterglobalistas –, a reunião em Genebra garantiu a assinatura de um acordo correspondente a uma Declaração ministerial (porém sem Conferência Ministerial), que expressava o ponto de vista do agribusiness, mas não da pequena agricultura e muito menos da agricultura camponesa.



Zoellick, ex-secretário de comércio estadunidense, regressou aos EUA eufórico, afirmando que o acordo foi uma arrasadora vitória das empresas estadunidenses e que este era apenas o primeiro passo para a abolição das tarifas alfandegárias aos produtos industrializados do país. Nas palavras da Associação Nacional de Fabricantes de Estados Unidos, "este é um grande logro e uma grande vitória para a OMC, os Estados Unidos e a economia mundial” (Bello & Kwa, 2004). O agronegócio brasileiro venceu, afinal obteve a promessa da redução gradual dos subsídios dos EUA e da UE; contudo, a indústria, os serviços, e a propriedade intelectual dos países capitalistas dependentes seguirão estrangulados pelo poderio das corporações. Nos termos de Pascoal Lamy, diretor-geral da OMC, o ganho agrícola brasileiro não será gratuito, o Brasil terá de oferecer maior acesso a bens industriais e serviços para obter contrapartida: “É uma negociação. A UE, os EUA, o Japão e a Coréia do Sul terão de convencer seus produtores rurais a aceitar muitos cortes, mas precisam convencê-los de que é um jogo em que todos ganham.”[10]



A reação dos países pobres foi fortalecer o G-33 – que persiste na defesa de salvaguardas especiais para proteger a pequena agricultura – e o G-90 – criado com forte protagonismo africano organizado contra os temas de Singapura. Em suma, o que esses países anunciam e denunciam é que os interesses do agronegócio não são coincidentes com os da quase totalidade de 1,3 bilhão de pequenos agricultores e camponeses dos países capitalistas dependentes, como dramaticamente revela o caso dos plantadores de algodão da África. As distorções da Rodada Uruguai seguem intactas.



Por ocasião do golpe de Estado contra Aristide, EUA e França se viram diante da possibilidade de terem de enfrentar mais uma frente militar, no Haiti, uma considerada hipótese negativa, em virtude do agravamento da situação no Iraque e no Afeganistão. Daí, novamente, os “capacetes azuis” foram vistos como uma alternativa. Seja porque viu na ocupação do Haiti uma oportunidade para pleitear uma vaga no Conselho de Segurança da ONU (vista como uma oportunidade do país aumentar a sua influência no mundo e, quiçá, de fazer bons negócios), seja, menos crível, por acreditar no “humanismo militar” difundido por Clinton (na antiga Iugoslávia), o fato é que as forças armadas brasileiras estão sustentando um regime que colocou no cárcere milhares de democratas, como a cantora Sò Anne (Irmã Anne), encarcerada na Penitenciária de Pétionville, Haiti, desde 24 de maio de 2004, fazem vista grossa às perseguições e assassinatos da polícia nacional, utilizada como braço armado do atual regime contra todos os suspeitos de apoiarem Aristide e, recentemente, atuaram diretamente na região miserável de Cité Soleil, em Porto Príncipe, provocando morte de crianças e mulheres desarmadas. Longe de restabelecer a democracia, as eleições presidenciais foram adiadas por três vezes, fortalecendo o regime de intervenção estadunidense liderado por Latortue e apoiado pelas “forças de paz”. A situação segue instável, a miséria campeia mas o esforço de Lula da Silva de difundir a idéia de um humanismo militar segue com a promoção de jogos de futebol e o envio de bandas de hip-hop ao país (gerando também nesse campo divisões no movimento nacional, visto que parte das bandas considerou inaceitável cumprir esse papel).

Em relação ao ALCA, cabe registrar que as lutas continentais foram cruciais para impedir a sua efetivação, mas Lula da Silva sempre manteve uma postura ambígua. Em 2003, contrariando as expectativas dos movimentos sociais latino-americanos Lula da Silva assumiu o calendário que previa o ALCA em 2005. Após uma década de resistências, em Mar del Plata, grandes protestos foram realizados, impondo o esgotamento das possibilidades do acordo ser efetivado no prazo previsto. Mas não foram apenas os protestos que frearam o ALCA, também importantes setores econômicos nos EUA não queriam o ALCA ou nenhum outro grande acordo que envolva a redução de subsídios e proteção aos seus mercados. Ate mesmo o CAFTA, um acordo em tudo mais favorável aos EUA do que o ALCA foi aprovado no parlamento estadunidense por um único voto de diferença.

No plano político não é secundário a postura de Lula da Silva frente a Bush.. Após ser alvo de fortes protestos em Mar del Plata, inclusive com falas duras de Chaves e Kirchner contra Bush, Lula da Silva o acolheu no dia seguinte em seu espaço privado, oferecendo um churrasco, promovendo diversas entrevistas falando da colaboração entre os dois países etc. Já no início do governo, a diplomacia deixou de apoiar Cuba na A Comissão de Direitos Humanos da ONU que aprovou uma emenda latino-americana na qual se insta o governo de Cuba a colaborar com o Alto Comissariado para os Direitos Humanos. A resolução adotada, a duodécima sobre Cuba aprovada na Comissão, recebeu 24 votos a favor – dois a mais que o ano passado -, 20 contra, enquanto que 9 países preferiram abster-se (entre eles o Brasil)·.

5. Recuperação do Estado

Após o plano diretor da reforma do Estado, a medida sistêmica mais importante para diluir o público e o privado foi a lei de PPP que está na raiz do IIRSA. A concessão de terras amazônicas, de áreas petrolíferas e de bacias aqüíferas não demonstra uma especial preocupação com a soberania do país e com o próprio Estado. O governo seguir repassando vultosos repasses para ONG e tem subsidiado fortemente a educação privada (FIES, PROUNI). Em que pese a realização de concursos em alguns setores do Estado, a sua dimensão social segue espremida pelo superávit primário. As grandes empresas públicas como a Petrobrás seguem sendo desnacionalizadas em virtude do crescente controle acionário por parte de corporações e investidoras estrangeiras.

Um breve exame da execução orçamentária de 2005 atesta o pouco que é destinado a área social e de investimentos no mundo do trabalho.

(divulgado no Boletim da Auditoria da Dívida n. 15, outubro de 2006)



6. Diálogo com os movimentos sociais

O diálogo com os movimentos não tem respeitado a autonomia diante do governo, a relação esperada é de subserviência e lealdade. Poucas foram as entidades que lograram diálogo com o governo sem perder a autonomia. O mais importante desses movimentos foi o MST que, lastreado em forte mobilização das bases (marchas, ocupações, atos em bancos etc), logrou abrir espaços de diálogo sem perder a autonomia; contudo, como se depreende da situação da reforma agrária e da política para a agricultura camponesa, esses diálogos não modificaram a posição do governo frente ao agronegócio e tampouco abriu perspectivas favoráveis para a reforma agrária. A principal Central sindical brasileira, a CUT, não manteve uma relação de diálogo, mas de simbiose com o governo: inúmeros quadros da CUT migraram para o governo e em um momento de crise o próprio presidente da Central saiu diretamente deste cargo para o de ministro do trabalho, objetivando reunir uma base de apoio que opere a favor do bloco de poder por meio do transformismo. A situação de colaboração foi evidente no apoio às contra-reformas da previdência, trabalhista e sindical (estas últimas não chegaram a termo em virtude da crise no governo). Vale lembrar que essas contra-reformas no mundo do trabalho objetivavam implementar uma contra-reforma sindical que hipertrofiaria o andar de cima da burocracia sindical (as confederações e federações) em detrimento dos sindicatos de base e uma contra-reforma trabalhista que sobrepõe o “negociado” ao legislado.

O transformismo em curso na CUT está levando a uma homogeneização política da Central que teve início antes do governo Lula da Silva, mas que se intensificou no último quadriênio. Em síntese, é possível indicar as seguintes mudanças estruturais na Central:

a) As mudanças na sistemática de escolha de delegados encolheram a participação da base e extinguiram a participação das oposições sindicais, ampliando a participação das confederações.

b) Já no governo Cardoso a CUT apoiou a primeira geração da reforma da previdência por meio de declarações do ex-presidente Vicente Paulo da Silva (Vicentinho). Na mesma época destacados ex-dirigentes já estavam empenhados na criação de fundos de pensão, a exemplo de Luiz Gushiguen que oferecia consultoria para a criação de fundos de pensão.

c) Já na condição de presidente da República, por duas vezes Lula da Silva interferiu na escolha do novo presidente da CUT.

1. 8o Congresso, 2004 – escolha de Luis Marinho em detrimento de J. Felício (Secretario Geral)
2. 9o Congresso (2006)- o eletricitário Arthur Henrique em detrimento de J. Felício (relações internacionais, cargo honorífico).

d) Exclusão das correntes de esquerda da direção da Central no 9o Congresso.

É a sedimentação, no interior da Articulação, da vitória da concepção social-liberal frente a social-democrata (representada por João Felício).



Assim, essa propalada abertura para o diálogo sempre foi feita tendo como pressuposto a cooptação. Os movimentos que lograram grande mobilização e radicalização de suas bases puderam se manter autônomas frente ao governo, as que se mantiveram autônomas e não aceitaram negociar os termos da agenda neoliberal, mas que não têm como característica ações massivas, como o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior, passam a ter “entidades de carimbo” criadas com o ativo o apoio do governo como concorrentes. No caso do ANDES-SN, uma chapa que foi derrotada nas urnas foi reconhecida como representação sindical dos docentes nas comissões do MEC e do Ministério do Planejamento, obtendo o reconhecimento governamental em flagrante desrespeito ao princípio da OIT que veda a ingerência governamental nas entidades de organização dos trabalhadores.



À guisa de conclusão



Essas considerações preliminares objetivaram demonstrar que os pontos elencados para justificar o apoio a um novo mandato a Lula da Silva não são livres de questionamentos, ao contrário, ao reivindicarem um novo mandato para o atual governo baseado nos pontos aqui analisados, os movimentos podem estar acelerando ainda mais uma situação de derrota, podendo, contra a sua intenção, estar tornando ainda mais difícil a reconstrução do pólo socialista, antiimperialista e classista.

Certamente existem nuances, aspectos a serem explorados na argumentação que poderiam indicar outras leituras sobre os referidos itens, entretanto o texto tem a expectativa de ter oferecido elementos para sugerir a fragilidade dos argumentos que justificam um novo mandato de Lula da Silva a partir da reivindicação desses pontos.

A proposição a favor do apoio a Lula da Silva a partir de algumas pré-condições, um posicionamento em si mesmo correto e usual nessas situações, não pode deixar de considerar a profundidade do enraizamento do governo Lula da Silva com o bloco de poder que opera o padrão de acumulação por despossessão em curso, sob o risco de enviar para os protagonistas das lutas uma mensagem ingênua, pouco factível e irrealista. Um posicionamento nesses moldes teria de vir junto com uma intensa mobilização social para forçar, de fato, a incorporação das pré-condições na agenda governamental, situação ainda pouco factível, não recomendando, portanto, essa tática.

Como a presente leitura não pretende ser uma verdade absoluta é preciso respeitar o posicionamento autônomo dos movimentos em favor do voto em Lula da Silva como a alternativa ‘menos pior´, mas o imprescindível respeito a avaliação política deve vir acompanhada do debate político verdadeiro, sem o metro das políticas neoliberais (como na comparação do governo atual e com o anterior) e sem a disjunção do econômico com o político.

Urge fortalecer as iniciativas que possam assegurar espaços de convergência e diálogo entre as distintas concepções táticas sobre as lutas socialistas. É um erro fechar esses espaços, pois, se as considerações aqui expostas sobre a conjuntura econômica, política e social têm alguma validade, é previsível que as contra-reformas irão se intensificar com Lula da Silva ou com Alckmin. E somente lutas massivas podem colocar os trabalhadores como protagonistas principais da política.

Como apontou Gramsci, o transformismo sempre é um severo golpe contra as lutas emancipatórias. O futuro do movimento está em sua autonomia frente ao capital e suas formas de dominação, como o Estado, os governos e os partidos aprisionados pelas engrenagens do poder dominante. Nesse contexto, a recusa dos termos de uma falsa polarização é um posicionamento positivo que coloca no debate político a necessidade de um passo adiante na organização autônoma da classe.



[1] . Ellen M. Wood. 2003 Democracia contra capitalismo: a renovação do materialismo histórico. SP: Boitempo).



[2] . Palocci reflete compromisso do país com boas políticas, diz Snow (Folha on Line, 02/8/05). Risco Brasil cai para menor patamar em cinco meses (Folha Online, 05/08/2005). "Até pouco depois do meio-dia (desta segunda-feira), quando Snow decidiu sair em apoio explícito ao governo, o céu parecia derrubar-se sobre Lula e sua equipe. A oposição (...) parecia empenhada em dar uma estocada definitiva contra Lula. Mas o governo dos Estados Unidos optou por se manter à margem de uma aventura onde tem pouco a ganhar e bastante a perder" (Clarin, 2/8/05).

[3] . Setúbal defende punições e acordo. Folha Dinheiro, 28/08/05.

[4] . Guilherme Barros. Governo e empresários se unem contra crise (Folha on Line, 31/07/2005).

[5] Druck e Luís Filgueiras, perguntas que não podem ser caladas. Mimeo, 2006.

[6] . Conforme o MST, o Banco do Brasil fez propaganda nos jornais e revistas, mostrando que concedeu um volume de crédito de mais de 5 bilhões de reais para aquelas dez empresas transnacionais que controlam a agricultura e para algumas poucas empresas transnacionais da celulose. Ou seja, menos de 15 empresas receberam o mesmo volume dos recursos que foram destinados para 4 milhões de agricultores familiares

[7] . Depois de 14 anos de queda, em 2005, houve aumento de 11% no número de crianças entre 5 e 14 anos que trabalham, segundo o IBGE. Rio de Janeiro - Depois de cinco anos em queda, voltou a crescer em 2005 o número de crianças com idade entre 5 e 14 anos que trabalham. A alta em relação a 2004 foi de 10,3% e a maioria dos pequenos trabalhadores estava no setor agrícola, especialmente na região Sul do país. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2005 divulgada hoje (15/9/06) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2006/09/15/materia.2006-09-15.9284659159/view).

[8] . Druck e Filgueiras, 2006, op.cit.

[9] . http://www.pnud.org.br/pobreza_desigualdade/reportagens/index.php?id01=2237&lay=pde

[10] . Rossi, C. Ganho agrícola não será gratuito, diz OMC. FSP, 24/11/05, Caderno B, p. 14.






Reggae e Socialismo: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=12329912

Voto Helo?sa Helena - Sergipe: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=12329912

Fotolog: http://ubbibr.fotolog.com/mgabriel/